
A família Barone provou que uma série não precisa inovar seu gênero para fazer história na televisão.
Um quarentão nascido no Queens que entregava futons durante o dia e fazia shows de stand-up comedy à noite começou a ganhar destaque no meio artístico ao fazer uma pequena aparição no The Tonight Show with Jay Leno. Com uma voz muito engraçada e um carisma enorme, ele seguiu fazendo aparições em alguns programas de TV até que um dia, foi convidado a participar do The Late Show With David Letterman. A partir desta aparição, a vida de Raymond Albert Romano mudou, assim como a TV.
Letterman gostou muito da performance de Raymond e viu que seu estilo de comédia funcionava perfeitamente com as séries de comédia que a CBS produzia (e ainda produz). Então, ele o juntou com o produtor executivo Phil Rosenthal e os dois criaram Everybody Loves Raymond.
A série, baseada nas experiências vividas por Raymond e Rosenthal durante seus casamentos (na série, Ray e Debra se conheceram quando ele entregou um futon no apartamento dela), conta a história da família de Raymond Barone, um cronista esportivo, pai de três crianças que vive no subúrbio com sua esposa Debra (Patricia Heaton), uma mulher que passa o dia com os filhos e tem que aturar diariamente sua sogra Marie (Doris Roberts), a matriarca dos Barone, intrometida, manipuladora, discorda de tudo que sua nora faz, sempre aparece na casa de Ray para sua tristeza, pois ele sempre quis ficar longe de sua família e quis o destino que ela morasse do outro lado da rua com seu pai Frank (Peter Boyle), o mais egoísta da família, está sempre reclamando de algo e faz de tudo para poder deixar todos ao seu redor infelizes. Para completar a família ainda temos o irmão mais velho de Ray, Robert (Brad Garrett) que trabalha como policial por mais de 20 anos, morre de inveja do irmão por causa de sua vida “perfeita” e é o maior alvo de piadas da família.
Ao estrear em 13 de setembro de 1996, a família Barone sofreu com as críticas negativas e com seu horário nas sextas-feiras. O casal principal era uma caricatura sem graça que tentava convencer como uma típica família americana e Ray era extremamente irritante com seu jeito submisso tentando agradar a todos. Debra simplesmente era aquela mãe e esposa sem sal das séries de TV. Ray Romano e Phil Rosenthal foram os responsáveis pela escolha do elenco e eu me questionava a cada episódio porque Patricia Heaton ganhava salário por aquilo que ela estava fazendo. Particularmente, teria parado de assistir logo depois do fim da primeira temporada, mas gostei bastante do resto da família, os sogros bastante inconvenientes, as piadas com o irmão e a promessa dos amigos de que tudo melhoraria me fizeram continuar a ver.
Mesmo não fazendo sucesso, o presidente da CBS tinha muita confiança no show e apoiou a renovação da série, uma das melhores decisões empresariais da história. O que se pode presenciar nas seguintes temporadas é um dos maiores saltos de qualidade que uma série de TV já teve. Podemos observar nas duas temporadas seguintes, um melhor desenvolvimento das personagens e um elenco que já tinha uma química boa ficar muito melhor, mas nada que fizesse a série especial. Entretanto, na quarta temporada, a série atingiu o apogeu, a “fórmula” continuou a mesma: Ray faz uma bobagem, Debra reclama, depois se percebe que ela fez alguma bobagem, os dois se desculpam, os sogros fazem uma visita, todos felizes. Todas as vezes que eu ia assistir Everybody Loves Raymond, não esperava uma fórmula diferente dessa, já tinha percebido que os roteiristas nunca sairiam de sua zona de conforto, gostando ou não, todas as séries seguem certo tipo de padrão, mas na quarta temporada, a série conseguiu misturar todas as características “básicas” das sitcoms sobre família e relacionamentos entre pessoas que já vinha utilizando: brigas entre cônjuges, sexo, sogras, etc. com um clima de família onde todos nós éramos convidados a nos envolver, sentir, se alegrar, emocionar e principalmente… Sofrer como se fosse nossa família. Não estávamos mais na presença de algumas situações da vida de Romano e Rosenthal, agora a série apresentava essas situações e exibia como elas afetavam as mais diferentes gerações da família Barone, das crianças aos idosos. Posso falar sem dúvidas que essa quarta temporada está guardada como uma das melhores temporadas de séries que já vi.
Eu que achava o Ray e a Debra personagens sem graça, passei a admirá-los. Patricia Heaton melhorou muito e a química dela com Ray Romano se tornou absurdamente incrível. Debra deixou de ser a “normal” da família e Patricia de fazer cara de mosca morta em todas as situações para se tornar o ponto de equilíbrio da família, já que ela era a menos excêntrica, sua visão do que ocorria ao redor de sua casa regulava boa parte dos episódios. Roberts e Boyle foram um dos casais mais fofos da história da televisão, suas discussões e suas manias nunca deixaram de funcionar durante nove temporadas. A evolução de Romano na série tornou-se tão visível que com o passar dos anos, ficava difícil falar se ele estava representando ou sendo ele mesmo. Tudo isso rendeu a série dois Emmys de Melhor Série de Comédia (2003 e 2005) e prêmios para todos os membros do elenco principal com exceção de Boyles, além de um lugar na lista dos 100 shows mais influentes da história dos EUA.
Não posso chamar a série de genial, ela falhou em vários pontos e teve um final que não correspondeu com o esperado, mas a defino com orgulho de uma simples comédia doméstica que tive o prazer em acompanhar. Você não só ri com as personagens, você aprende com os Barone e com o passar do tempo você percebe que a única diferença da família deles para a sua, é que eles tiveram seu próprio programa de TV.
Esta série é um dever de casa para aqueles que gostam do gênero sitcom clássico. Everybody Loves Raymond e a família Barone se despediram da TV em 16 de maio de 2005 e seus últimos momentos foram assistidos por cerca de 32.9 milhões de pessoas, a nona maior audiência da década passada.
O vídeo acima é uma parte de um dos melhores episódios da série (difícil escolher, mas é meu episódio preferido) e que está na lista dos 100 melhores episódios de sempre da TV Guide: Marie’s Sculpture.
Afinal de contas, quem não amou Raymond Barone e as peripécias de sua família?
P.S: Espero que você esteja em paz no céu Boyles, você merece um lugar especial aí para compensar pelos Emmys que você não ganhou.














