O dia em que OJ Simpson fez a América parar.

Em dado momento do episódio dessa semana de American Crime Story, um diálogo entre o assistente de Johnny Cochran e um de seus vizinhos dá a síntese mais que precisa a respeito de tudo que envolve o caso em questão. O assistente se refere a OJ como um “negro que não se importa com sua comunidade”. Ele faz uma comparação com outro grande e famoso jogador, que supostamente se envolve mais com as questões raciais em vigência naquele período da história de Los Angeles. Numa das frases ele dá o apontamento provocativo: OJ se tornou… branco. Então, o vizinho completa o raciocínio com a piada derradeira: Bem, a polícia está correndo atrás, então, ele é negro agora.

Essa colocação é extremamente relevante para as tensões que estão sendo construídas desde a fantástica premiere do show. Ter seguido com a direção do segundo episódio foi um acerto de Ryan Murphy, porque todo o clima de angústia e agonia se mantém em alta. Suas escolhas estilísticas para levar até a ficção uma perseguição que foi televisionada ao extremo, privilegiaram muito mais o que acontecia enquanto OJ fugia. Durante aquelas duas horas no interior do carro, todos os EUA literalmente pararam para assistir a fuga; e com um roteiro ágil e seguro, Run Of His Life (o mesmo título do livro em que se baseou a trama) foi um episódio que nos transmitiu com precisão absoluta o tamanho do que aquilo representou.

O vídeo acima é apenas um dos vários que vocês podem achar no YouTube a respeito da perseguição. Aqui no Brasil não tivemos uma cobertura tão extensa, mas me lembro dos telejornais cobrindo o “evento”. Os fatores que tornavam a história de OJ tão irresistível para os espectadores americanos (a ponto de interromperem a transmissão de uma final de basquete) estão todos ligados as questões raciais. OJ era um homem negro, casado com uma branca, envolvido com Hollywood, aceito nos círculos sociais conhecidamente racistas e que tinha, enfim, furado a barreira da supremacia branca. Os negros se orgulhavam dele. De súbito, ele era como Rodney King e estava numa rodovia sendo perseguido por um crime que dizia não ter cometido. Inflamada, a comunidade negra americana entendia aquela como uma tentativa de dar um novo recado: “não, nunca podermos ter um homem negro entre nós, porque eles acabam ferrando com tudo na saída”. Proteger OJ naquele momento não era proteger apenas um homem, era proteger um ideal.

A polícia e o sistema judiciário da cidade também lutavam para se proteger. De certo modo, OJ encontrou – conscientemente ou não – uma brecha de insegurança nos seus algozes. A polícia não queria, de modo algum, que no meio de todo aquele imbróglio racial, OJ fosse preso com violência ou até mesmo morto. Por causa disso, a humilhação acabou sendo inevitável. Simpson zombou de todos os seus acusadores, fugindo sem ser visto, sendo perseguido por horas, ameaçando se matar caso fosse capturado e conseguindo ser detido apenas dentro dos próprios termos.

Tenho uma teoria de que o desespero dele era real, só não era real pelas razões a que ele atribuía. Acho que quando ele viu a quantidade de erros cometidos no ato do crime, perdeu o chão e viu a prisão como iminente. É claro… Quem se salvaria da prisão com uma quantidade tão absurda de provas como aquela? O choro, a angústia e os impulsos suicidas partiam pura e simplesmente do pavor completo de ser preso. Acredito, inclusive, que a fuga foi uma forma de extravasar o pânico provocado pela certeza de que ele ia se matar. O problema é que no meio do caminho havia uma defesa… E OJ soube exatamente como usá-la. Foi ela, a população indo para o acostamento com cartazes, que providenciou para OJ a epifania verdadeira: não era O Povo Versus OJ Simpson, era O Povo Plus OJ Simpson.

Nesse vídeo podemos ver como foi a coletiva promovida por Shapiro, onde um consternado Robert Kardashian lia a suposta carta de despedida de OJ. Notem que a pessoa que postou o vídeo inseriu imagens felizes do acusado durante a leitura da carta, como se essa também fosse a eulogia que Marcia Clark tanto desprezara na TV. Muitos me disseram que não conseguem desassociar a imagem de David Schwimmer do Ross, mas me arrisco a dizer que o ator teve ótimos momentos nesse episódio e que a equipe de roteiristas também acertou em focar na amizade entre Kardashian e Simpson. Os dois se aproximaram como homens largados pelas mulheres que ainda amavam e essa ligação cresceu junto com um enorme sentimento de gratidão. Kardashian ainda era alguém que a imprensa não sabia soletrar o nome e reiterar isso também é importante, porque nossa perspectiva perante o presente tem um sabor especial. Aquela família fez todos saberem quem eles eram.

A carta lida pelo patriarca Kardashian é só mais um detalhe acerca de como a personalidade de OJ vai sendo construída conforme a consciência panorâmica dele se estabelece. Astro de cinema, Simpson sabe como atuar e faz o drama certo para a polícia e para a sociedade. Ele força uma natureza infantil ao terminar sua carta de suicídio com uma carinha feliz, faz demagogia se desculpando com a polícia por tê-los mantido no trabalho numa sexta a noite e invoca o nome da mãe com frequência. Todo o circo da fuga tem um apogeu que pode ser considerado perfeito pra ele. Um homem negro, perseguido, vilipendiado, que está apavorado dentro do próprio carro, na frente de casa, temendo o destino “injusto” que lhe espera. Se fosse um roteiro hollywoodiano não seria tão providencial.

Note

The Run Of His Life foi um episódio ágil, intenso, pulsante e cheio de uma metáfora realmente debochada. É como se OJ tivesse mesmo percebido que precisava se reconectar ao ideal racial que era defendido por tantos, enquanto ele só estava preocupado em penetrar cada vez mais no establishment que o fazia sentir-se poderoso. Poderoso a ponto de colocar uma estátua gigante de si mesmo no jardim. Ele precisou ser perseguido pela polícia, como muitos negros das redondezas, para perceber que essa era mesmo a fuga de sua vida. O momento em que, ironicamente, seus “irmãos” lhe abraçavam, mesmo que ele nunca tivesse feito coisa alguma por eles. 

Notas de um Crime 

– As imagens de Shapiro no vídeo mostram como Travolta está com o rosto desfigurado demais. Gosto de como o texto conduz o personagem para um caminho de egoísmo, mas não vejo muito disso impresso em Travolta ainda.

– O episódio usou muitas imagens reais daquele dia, algumas delas são facilmente encontradas na web.

– Johnny Cochran aparece nessa semana fazendo os apontamentos ideais para a defesa de OJ.

– Desde que a série estreou vi muita gente se perguntando como estão os filhos de OJ. Ao que se sabe, eles estão muito bem e a família não dá declarações sobre como ficaram as coisas entre eles e o pai. Acho que mais pra frente a série tocará nessa questão e então falaremos mais disso.

– Continuo pouco convencido da escolha de Cuba Gooding Jr. para viver Simpson. Escolhi uma entrevista dele, dois anos depois do crime, para colar aqui abaixo e deixar vocês tirarem suas próprias conclusões. Cuba está bem, mas ele não tem o charme e o sorriso radiante da persona original. O vídeo não está legendado, mas apenas alguns segundos já são suficientes para percebermos a diferença.

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