Lockup foi um episódio emocional para lidar com o sobrenatural.

Agents of S.H.I.E.L.D. é uma série com um padrão de pensamento diferente de suas amigas de gênero. Enquanto muitas optam por um ritmo inteiramente centralizado na temática a ser desenvolvida, a produção dos agentes intercala o máximo de abordagens diferentes dentro do mesmo espectro sentimental, com resultados positivos na maioria das vezes. Em seu quinto episódio o roteiro de Lilla Zuckerman e Nora Zuckerman embarcou de cabeça no aspecto místico, deixando de lado qualquer possível explicação científica, mas na hora de lidar com o emocional de seus personagens, alguns pontos ficaram fora do tom esperado.

O grande problema de uma temporada centralizada em um personagem novo que leva a alcunha de ‘espírito de vingança’, é que você precisa contrabalancear a carga emocional dele com a de alguém conhecido, criando assim um elo com o telespectador. Caso contrário dificilmente a audiência conseguirá se importar. E a escolhida para a experiência de conexão com o Motorista Fantasma foi Daisy Johnson, a nossa Tremor. E é neste ponto que até agora a série não conseguiu entregar devidamente o que pretende. Daisy está em uma missão própria, centralizada em afastar todos os amigos por acreditar que ela é a culpada pelas mazelas da equipe. Verdade seja dita, a moça teve algumas interações bem catastróficas desde que começou a realizar missões ao lado do Coulson e seu time. Só que, como bem pontuado por May, não importa quão sombria e afundada em isolamento, as pessoas continuarão lutando por ela – em especial Coulson, ou vocês não repararam no enorme sorriso dele quando a filha adotiva apareceu para resgatá-los no presido?

Quando analiso então a função de Daisy na temporada, após o discurso da May e também sua atitude de quase sacrifício, percebo que alguns pontos foram intensificados para que o paralelo com Robbie Reyes fique mais adequado ao paladar. É difícil hoje não ver o comportamento como algo sem base e um pouco cansado, especialmente ao lembrar que ela já está isolada e agindo como vigilante por aproximadamente cinco meses.  Daisy sempre foi, ao lado do Coulson, a personagem com mais bagagem emocional e história dentro da série. Por isso, na altura do campeonato, vê-la não sabendo lidar com a perda do namorado e passando por uma mudança tão radical, se tornou algo um pouco injustificável. Se analisarmos sua motivação como uma combinação de tragédias, como por exemplo, a morte da mãe, o afastamento do pai e o sacrifício do namorado, faz sentido, mas a série até agora só trabalhou o lado do Lincoln, reforçando a minha visão de que toda a mudança surgiu para se encaixar na história do Ghost Rider, e isso não é tão bom assim.

Agents of S.H.I.E.L.D. --- Lockup
Agents of S.H.I.E.L.D. — Lockup

Deixando de lado o desvio emocional criado pelo episódio para também começar a trabalhar uma reaproximação do time original, Lockup teve ótimos momentos e prosseguiu com uma abordagem divertida e de ritmo bom. O principal deles foi o caos “organizado” do presídio, impondo uma dinâmica de corrida contra o tempo muito interessante. Também é ótimo ver como a série, mesmo com certas limitações orçamentárias, ainda consegue mostrar lutas cada vez mais bem coreografadas. Com certeza o ponto alto foi o embate da Daisy com os presidiários, além da constatação de que utilizar os seus poderes agora seria o mesmo que quebrar todos os ossos de seu corpo. Ver a Tremor empregando suas ondas sísmicas é sempre bom, mas desde o embate contra o Hive na temporada passada eu não a vi mais trabalhando a luta corporal e os poderes ao mesmo tempo, de maneira efetiva, logo, relembrar de suas cenas no começo da segunda temporada, como uma agente treinada por Melinda May, será sempre ponto alto.

Falando em tensão, também tivemos um pouco da dinâmica burocrática da S.H.I.E.L.D. e o trabalho do novo diretor, que já começou a levantar desconfiança. Quem está agindo como elo de conexão do diretor com a trama é Simmons, e personagem melhor para lidar com a burocracia da agência, não existe. Desde sua apresentação lá no piloto da série, Jemma sempre teve uma personalidade mais propensa ao confronto de grandes figuras de autoridade. Depois de um período infiltrada na Hydra, outro isolada em um planeta alienígena, e agora como braço direito do novo diretor, com certeza ela avançou e muito, já mostrando neste episódio uma amostra do que é capaz. Entretanto, não vejo a interação com o diretor como algo inteligente, especialmente porque, bom, é o diretor e escapar do polígrafo baseada em um palpite soou como uma conveniência de roteiro muito grande.

Dentro do que foi apresentado até agora, porém, ainda estamos carentes de um bom vilão, um padrão que a série dos agentes divide com os filmes do MCU. A senadora Nadeer está funcionando melhor do que os fantasmas, por exemplo. Só que sua participação, até agora, foi bem limitada, expondo a grande fraqueza de Lucy, a fantasma. E eu sinto que a falta de um antagonista de peso é proposital, já que com um episódio e uma fala o preso que tentou enforcar a Daisy passou mais motivos para ser odiado do que qualquer outro.

Lockout é um bom episódio, com destaque em uma personagem que já está um pouco desgastada. Entretanto o ritmo, assim como a história, superam e muito o que foi feito no começo do terceiro ano, com a trama dos inumanos e Lash. A série com certeza evoluiu bastante e já consegue, hoje, adaptar sua história principal sem deixar que a paralela perca efeito. Ainda é cedo para fazer um balanço, mas a estrutura do quarto ano de Agents of S.H.I.E.L.D. está sim mais fortalecida, resta agora saber como irão lidar com as pontas que permanecem soltas, afinal, para uma temporada fechada, ainda estamos no começo, para o padrão de meio arco adotado desde a segunda temporada, acabamos de atingir metade do terreno a ser percorrido.

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Easter eggs e outras informações

– Durante o episódio o novo diretor foi mencionado como um herói, um ‘patriota’. É interessante o uso da palavra, já que nas historias em quadrinhos o personagem é conhecido como o herói Patriota.

– No começo do episódio é possível ver um pôster do ‘Circo Quentin’. A atração mais famosa do Circo itinerante era o Motoqueiro Fantasma, Johnny Blaze.

– Inclusive, na foto é possível ver um motoqueiro de manobras especiais envolto em chamas.

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– Essa não é a primeira vez que um circo tem menção em uma série da Marvel. Em Jessica Jones é possível ver vários detalhes de um circo enquanto Jessica anda por um parque. Conforme mencionei lá, várias dicas apontam para o Circo do Crime, que também já teve conexão com o Circo Quentin. A primeira aparição do circo foi em Ghost Rider Vol 2 #63, de 1981.

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