Muito papo, pouca ação, mas muita qualidade em Agents of S.H.I.E.L.D.

Meet the New Boss é o típico episódio exibido após um piloto. Lento, cheio de exposição e muito desenvolvimento de relações entre o elenco, a principal função dele é a de situar o telespectador no período atual que cada membro daquela equipe se encontra. Só que estamos falando do segundo episódio da quarta temporada de uma série, e não do segundo de uma recém-estreada produção. Como mencionado na review anterior, este é um dos grandes problemas quando analisamos o maior trunfo de Agents, sua capacidade de sempre apresentar algo novo, anualmente.

Para criar algo novo é preciso ser ousado, é necessário ir além e romper algumas barreiras. Só que também é mandatório tirar o pé do acelerador e posicionar claramente o que está acontecendo atualmente, para não terminar injustificável e confusa. Este segundo episódio serve exatamente para isso, utilizando a imagem do novo diretor e as contínuas consequências de Guerra Civil para explicar exatamente onde estamos e possivelmente para onde vamos.

Coulson é um homem de sacrifícios, mesmo que alguns deles tenham surgido pela força da situação e não por seu desejo. Enfrentar Loki foi um sacrifício pensado, perder a mão não. Abrir mão do controle da S.H.I.E.L.D. encaixa na primeira opção, algo que está cobrando dele e da equipe um preço altíssimo. Ao decidir sair do cargo Coulson fez a coisa certa. Tudo o que a agência precisava após seus dois anos agindo “clandestinamente”, era de uma renovação. Uma renovação e união que somente um homem burocrático como o Jeffrey poderia oferecer, um novo rosto adorado por políticos.

Reuniões, tour para agradar possíveis investimentos do governo, decisões e compartimentalização, nenhum destes pontos foi explorado pelo antigo diretor, afinal, a agência não mais existia e operava com uma missão bem pessoal, parar a Hydra e descobrir o que estava acontecendo com Coulson após sua ressurreição. Só que o mundo continuou girando e os inumanos surgiram, assim como a cisão de heróis da Guerra Civil e os Acordos de Sokovia. E para um bravo novo mundo é preciso um rosto inofensivo e bem tedioso. E Meet the new Boss entregou exatamente todas as justificativas para a mudança, além de um pequeno e satisfatório twist a respeito da inumanidade do diretor.

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O que a série fez durante este episódio e em relação a presença de elementos ainda inexplicáveis através da lógica, foi nos fazer lembrar de uma frase específica pronunciada por Thor, em que magia é apenas um tipo de ciência ainda misteriosa. De fato, muito do que hoje explicamos como ciência no passado foi visto como algo, no mínimo, místico – ou atribuído a alguma divindade. E será sim muito divertido acompanhar Fitz e Simmons procurando diversas explicações e desenvolvendo inúmeras teorias para justificar a presença de fantasmas e magia. Nós como telespectadores sabemos que a Marvel está adentrando no terreno do místico, só que tanto nós, quanto eles (personagens), ainda estamos conhecendo este novo terreno e as oportunidades são infinitas. É aquele tipo de benefício que somente quem acompanha a série tem, diferente daqueles que optam por apenas assistir aos filmes. Nossa compreensão desse mundo, neste universo unificado, é muito maior.

Também é interessante notar como funcionam as particularidades de cada personagem ao ser confrontado pelo desconhecido. Enquanto Fitz e Simmons procuram compreender a misteriosa tecnologia, Mack pergunta se aqueles não seriam fantasmas, o que é recebido como ‘uma teoria’ pelo casal cientista. Em um episódio mais lento e cheio de diálogos como Meet the new Boss, é essencial ter o máximo possível de interações válidas entre os personagens, do tipo que Agents sabe como fazer e diversificar.

Já estamos bem acostumados com a dinâmica entre Mack e ‘Turbo’, mas não tem como não se divertir com os dois juntos, lidando com fantasmas e a presença do Ghost Rider. Além deles, o episódio também foi direcionado para oferecer algumas novas saídas para uma personagem que até então sempre agiu de maneira bem uniforme, Melinda May. Vê-la completamente fragilizada foi um golpe severo para Coulson, que permanece lutando para conseguir ter pelo menos um pouco da vida que teve enquanto diretor, através do relacionamento com seus amigos. Novamente é um assunto que só veremos se desdobrar mais na frente, mas definitivamente cheio de potencial.

É sempre muito bom quando os roteiristas também percebem em que aspecto cada ator e atriz do elenco se destaca. Chloe Bennet sempre entrega boas cenas quando não está sendo forçada a sentir extremos, ou a agir em determinadas situações de descontrole emocional. Drew Z. Greenberg soube muito bem dosar os diálogos sem deixar o episódio extremamente carregado, ou forçado. O que este novo horário permite vai além de algo mais sombrio, e tem toda relação com o tipo de diálogo a ser desenvolvido, muito mais maduro e bem menos bobo, apesar de não imune a comédia e sarcasmo.

Meet the new Boss é um capítulo com poucas cenas de ação memoráveis, sendo o pulo da Daisy e a pequena cena no carro de Robbie o único momento de alta adrenalina. Contudo, mesmo com um ritmo menos acelerado, o episódio conseguiu utilizar o diálogo como base de desenvolvimento emocional para a própria agência e a situação atual de Coulson e seu antigo time. Entre um novo chefe e o crescimento de uma temática sobrenatural, a proposta foi a de mostrar que não existe mais uma união e que será necessário, primeiro, reconstruir o que foi separado antes de qualquer coisa, independente da burocracia por trás dessa atitude.

Easter eggs e outras informações

– Foi de partir o coração ouvir o Coulson dizer que muitos dos feitos de Peggy Carter nunca foram registrados. Um cancelamento que ainda me causa dor e desconforto.

– Outra coisa que também me destruiu foi o diálogo entre Mack, Daisy e Fitz, assim como a constatação de que YoYo estava trabalhando para os dois lados. Para o Mack, um cara que sobreviveu o surgimento da Hydra dentro da S.H.I.E.L.D. e perdeu amigos por causa de agentes duplos, não foi nada fácil receber o baque, e transpareceu.

– Uma coisa muito interessante aconteceu neste episódio e tem relação com o tio de Robbie Reyes. O homem não chegou a ganhar um nome, mas sua influência na vida do Ghost Rider é bem grande nas histórias em quadrinhos e aparentemente na televisão também. Lá na nona arte o tio de Robbie, Eli, foi um satanista, que futuramente se tornou o espírito de vingança que possuiu Robbie e o transformou em Ghost Rider.

– Na série os espíritos estavam sempre fazendo referência a um ‘Ele’, alguém que teria envolvimento direto na morte daqueles indivíduos. Imagino que esta pessoa seja o tio de Robbie, algo que o conectaria a sua contraparte nos quadrinhos ao explicar a presença de outro nome, o livro Darkhold.

– Darkhold é um diário escrito Chthon, um Deus Antigo da Marvel. Também conhecido como os Pergaminhos de Chthon, Livro Shiatra dos Amaldiçoados e o Livro dos Pecados, o objeto é uma coletânea de feitiços e feitos da poderosa entidade. Mephisto já teve contato com o livro e também já o mencionaram como possível personagem a receber uma versão em Agents of S.H.I.E.L.D.

– Um ponto muito interessante é que o Darkhold foi utilizado para criar o primeiro vampiro do mundo, Varnae. Há um tempo Wesley Snipes deu algumas entrevistas falando que a Marvel estava interessada em voltar a trabalhar com Blade e ele estaria envolvido, algo que ele voltou a fazer recentemente. Bom, a Casa das Ideias anunciou o cancelamento de uma série em quadrinhos que seria estrelada pela filha do vampiro. Boatos anunciaram que o cancelamento estava envolvido com o fato de que existem planos para trazer Blade, e não sua filha, de volta para o holofote.

– O novo diretor da S.H.I.E.L.D. atende pelo nome Jeffrey e também foi mencionado como o novo e necessário rosto após a queda do Capitão América em Guerra Civil. Uma das informações liberadas pelos produtores da série a respeito do novo diretor da agência era que ele estaria conectado ao começo da Marvel, lá nos anos 40. Bom, nos quadrinhos Jeffrey Mace foi um jornalista que se inspirou nos feitos do Capitão América e adotou o codinome Patriota.

– Jason O’Mara ator que está interpretando o novo diretor da S.H.I.E.L.D. é a voz do Batman em várias animações recentes da DC Comics.

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