Quando o crossover com Guerra Civil atrapalha o episódio de Agents of S.H.I.E.L.D.

Lá no passado, antes mesmo da estreia do piloto da série, Agents of S.H.I.E.L.D. era tratada como uma plataforma para os filmes da casa. A proposta inicial era a de transformar aquele ambiente em um local de preparação para os filmes, com personagens e vilões menores que jamais conseguiriam receber qualquer tipo de destaque na telona. Só que a produção nunca recebeu qualquer tipo de respaldo do seus irmãos mais velhos e ricos. Capitão América: Soldado Invernal estreou e a agência, o núcleo da série, foi dizimado sem dó nem piedade. Claro que este movimento terminou por beneficiar Agents, que estava precisando de um diferencial, de algo que modificasse o status de uma série que não havia conseguido manter sua audiência principal. Hoje, na atual terceira temporada e já renovada para uma quarta, não existe mais nenhum tipo de amarra que justifique qualquer “entrada” do filme dentro daquele mundo. Sim, estamos encarando um universo compartilhado e que demanda reconhecimento de alguns fatos, mas não da forma que estão fazendo.

Em Dirty Half Dozen, no segundo ano, também tivemos a mesma experiência. O episódio foi legal, apresentou elementos interessantes, mas a conexão com Era de Ultron serviu apenas para distrair o telespectador da trama principal. De verdade? Apenas a informação de que Coulson estava trabalhando ao lado de Nick Fury e Maria Hill, para criar os aero porta-aviões do último ato de Ultron serviu para realmente unificar e passar a sensação de “mesmo ambiente”. Todo resto? Não passou perto.

Novamente o problema se repetiu. Em Emancipation tivemos cenas e mais cenas em que nada acontecia, além de pura repetição de fatos do passado. Tudo criado para justificar uma linha direta com o ‘Tratado de Sokiva’, mencionado exaustivamente durante a exibição do episódio. Absolutamente nada do que aconteceu em Capitão América: Guerra Civil teve um impacto direto em cima do Coulson e sua equipe. Ninguém foi forçado a se registar. Nenhum impacto negativo, ou positivo, surgiu para a agência de espionagem. Talbot só acrescentou uma coisa útil: a informação a respeito da ogiva roubada por Hive.

Logo, a necessidade forçada de referenciar algo que não está ajudando, ou impulsionando a série para um ponto comum, se transforma em pura decepção. Enquanto o universo dos filmes estiver esnobando as séries, episódios como Emancipation servirão apenas para abalar o ritmo já estabelecido. E olhando pela ótica da temporada completa, o ritmo até agora não foi dos melhores. Com certeza o médio de S.H.I.E.L.D. já é muito mais do que o bom de várias outras produções, mas não justifica, não mais. Tanto não faz sentido, que você ter ou não assistido o terceiro filme do Steve Rogers não influencia em nada a experiência dentro da série. Basta apenas ler a sinopse e pronto. Com várias cenas de ação explosivas, novas adições de heróis, uma luta GIGANTE e a série apresentou apenas a imposição do registro e nada mais. Então não, quando observo o que um representou e o que o outro fez, tanto faz como tanto fez ter qualquer conexão. E isso é ruim. Ruim porque obviamente é obrigatório ter.

Saindo do que significou o “crossover” e entrando no que foi apresentado, preciso dedicar um pouco de tempo para falar do vilão. Hive é um antagonista interessante, mas que começou a receber uma coloração menos criativa. A premissa da bomba que unirá toda a equipe é algo válido, trazendo inclusive a possibilidade de rever Bobbi e Hunter, mas também segue uma cartilha já pré-determinada por alguns clichês do gênero. Pontuar uma falta de controle em cima das decisões dos inumanos foi uma escolha questionável para a mitologia da raça dentro da série. Compreendo que como um experimento cientifico, a tal falha na construção terminou por deixar aquelas criaturas com um certo “desejo” não confirmado, mas existe um diferença bem grande entre querer algo e estar destinado a fazê-lo. Perder o livre arbítrio em prol de um mecanismo do roteiro que guiará as atitudes dos personagens não é a melhor opção, especialmente a longo prazo.

De certa forma podemos analisar que a missão do Lash sempre foi a de impedir Hive e que o Andrew, por uma última vez (de novo), assumiu o controle para salvar Daisy. Porém o final não condiz com a trajetória do personagem, tão pouco seu desfecho completamente anticlimático. Aquele era para ter sido o momento em que nós, telespectadores, teríamos a nossa esperança completamente destruída. Contudo optaram por entregar a morte do personagem, até então mais durão, para alguém que descobriu seu poder ontem. E morrer durante a batalha é uma coisa, morrer ao ser atingido por trás praticamente nega o esforço do Lash, assim como a antecipação pelo embate entre ele e o vilão. Sem contar que o embate também foi bem frustrante. Dois personagens que ninguém conseguia matar, ou sabia como lidar, precisavam ser o ápice, mas não foram. E então entram no sangue mágico da Daisy. Pode ser a minha péssima experiência com Heroes voltando, mas não tem como aceitar um plot como esse com o coração aberto.

Emancipação é exatamente o que Agents of S.H.I.E.L.D. trabalhou tanto tempo para ter. Cisão do conselho criativo da Marvel entre filmes e TV com certeza jogou uma nova luz para as séries, menos amarradas ao que está acontecendo do outro lado. Contudo ainda existem amarras e o vigésimo primeiro episódio demonstrou exatamente quão limitadores elas são. Nada de realmente interessante foi dado pelos filmes para que a série pudesse brilhar. Ao contrário, pegaram apenas uma palavra e imaginaram que sua repetição constante seria o suficiente para compreendermos aquilo como parte de uma mesma história. Não foi. Tirando o final um pouco mais emocionante e a revelação final do plano do inimigo, algo já antecipado por muitos, a série falhou miseravelmente ao tentar criar um panorama final para o embate contra o vilão. E nem ao menos chegamos a encontrar uma maneira de inocular os inumanos do time contra os efeitos do Hive, algo que deverá conduzir pelo menos o começo dos dois últimos episódios da série, que serão exibidos em sequência, como de praxe.

Easter eggs e outras informações

– Aquelas criaturas “primitivas” criadas pela experiência ligada ao sangue da Daisy e do Hive, são a versão do MCU para os Alpha Primitives. Criados por um geneticista Inumano, Avadar, a raça foi desenvolvida para trabalhar como servos. Sua primeira aparição foi em Fantastic Four #47, de 1966.

– No letreiro atrás da mesa em que Coulson e Talbot descem para a base da S.H.I.E.L.D. é possível ler o nome “Buck’s”, uma clara menção ao Bucky ‘Soldado Invernal’ Barnes.

– Foram feitas menções ao ‘Tratado de Sokovia’, a lei de registro de heróis criada pelas Nações Unidas. Capitão América e Homem de Ferro também ganharam um aceno.

– Também falaram a respeito da morte de Peggy Carter, agente que já teve participação em Agents of S.H.I.E.L.D. e que foi uma das fundadoras da agência de espionagem.

– Secret Warriors também ganharam novamente uma citação.

– Para quem não se lembra, aqueles homens utilizados para as experiências fazem parte do Watchdogs, um grupo xenofóbico, homofóbico, religiosamente intolerante e tudo de mais errado que existe no ser humano.

– Para quem tinha alguma dúvida, James é sim a versão inumana do personagem Hellfire. E se você achou o uso da corrente bem parecida com a de outro “herói”, o Motoqueiro Fantasma, não errou. Na nona arte James é descendente do Motoqueiro e herdou a corrente do seu ancestral.

– James também fez uso de uma frase bem característica: “Join the evolution/Una-se a revolução”. Sabe quem já andou falando a mesma coisa nos quadrinhos? Um ponto para quem chutou: algum mutante. Magneto mesmo adora.

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