Um dos principais aspectos estéticos de uma obra audiovisual, a direção de arte compõe o visual plástico de uma determinada narrativa. Cenários, figurinos, objetos de cena e até mesmo efeitos especiais são desenvolvidos a partir da arte proposta para a concepção visual da obra em questão, mas há um tópico que acaba tendo menos destaque do que deveria quando tratamos da direção de arte: a maquiagem.

Alteração de idades, embelezamento, falsificação de cicatrizes e ferimentos, formatação de cabelos, falsos implantes, texturas e marcas de pele, mudanças em formatos corporais e, além disso, implementação de pelos corporais são alguns exemplos da ampla abrangência plástica possibilidade pelas mais diversas técnicas de maquiagem, mostrando a complexidade e a importância desta para a direção de arte. Desenvolvida especialmente para cada membro da história, a maquiagem, por si só, consegue agregar de forma significativa à construção de personagens, sendo um dos meios os quais guiam a percepção do espectador acerca de suas características e identidades próprias: compõe o universo plástico da narrativa e, assim, demonstra a realidade de tal personagem em relação à trama.

Uma obra que se destacou pela fabulosa maquiagem – entre outras inegáveis qualidades técnicas – é Euphoria, série da HBO que se tornou uma das produções mais bem avaliadas do ano. A responsável pela maquiagem da obra, Doniella Davy, consegue não só marcar a personalidade de cada um dos personagens de Euphoria como também, com bastante perspicácia, desenvolve uma narrativa própria a partir das técnicas de maquiagem, esta sendo guiada pelos acontecimentos da trama e desenvolvimento da história. Assim, o crescimento destes personagens não só é apresentado ao longo do roteiro, como também intensificado a partir da maquiagem da obra.

A personagem Kat, por exemplo, é uma das personagens melhor construídas durante a primeira temporada da série, sendo responsável por uma narrativa focada no empoderamento feminino e na liberdade sexual. Kirsten Coleman, membro da equipe de Euphoria, costuma postar fotos das maquiagens da série e comentá-las. Em seu Instagram, ao postar a foto a baixo – referente ao último visual de Kat na série –, comenta sobre como a evolução das maquiagens da personagem demonstra seu processo de evolução de uma adolescente desajeitada para uma jovem mulher sexualmente empoderada, ressaltando que tal visual demonstra maior maturidade do que os anteriores – assim, sua maquiagem inicia-se com um visual estereotipado e careta, passando para cores vibrantes, assim como sua personalidade, e finalizando com algo estruturado, maduro e concreto.

Vê-se, assim, que a proposta da maquiagem da série vai muito além do que simplesmente encantar a visão do espectador, mas sim auxiliar na construção daquele universo narrativo rico em detalhes e muito bem pensado, possibilitando ao espectador entender, pela composição estética, um pouco mais sobre aquela realidade e seus personagens. Em dois momentos da série, a maquiagem de Cassie, interpretada por Sydney Sweeney, destaca com maestria a proposta de contar a história dos personagens a partir de seus visuais, e ambos estão presentes no último episódio da primeira temporada.

Primeiramente, valendo ressaltar o parágrafo a seguir conterá possíveis spoilers, temos a cena em que Cassie realiza o aborto: durante o procedimento, a personagem se encontra – claramente – bastante apreensiva e preocupada, levando-a a se imaginar em um lugar melhor, patinando no gelo, uma forma de fugir da realidade em que se encontrava. Na fantasia, junto da elegante vestimenta ao patinar no gelo, Cassie estava com uma maquiagem azul e brilhosa, com detalhes ao longo de toda sua face, como pérolas e diamantes, que traziam um aspecto de leveza e encanto à cena – desenvolvendo, assim, um contrate em relação à sua realidade e sua fantasia. Já durante o baile, momento cronologicamente posterior ao aborto, o contraste fica por parte da sua maquiagem com a de suas amigas: enquanto a maioria das personagens se utiliza de maquiagens coloridas e diversas, Cassie está com uma quase imperceptível, o que, segundo a própria equipe de direção de arte, demonstra sua vulnerabilidade consequente de suas experiências durante toda a primeira temporada, abrindo, assim, caminho para uma nova fase da personagem onde, a partir dali, deixaria para trás o hábito negativo de tentar agradar a todo custo os homens que se interessavam por ela.

A maquiagem também virou marca definitiva da personagem Maddy, que se mostrou uma mulher forte, resistente e que sabe o que quer desde o primeiro episódio de Euphoria. Suas maquiagens foram sempre bem demarcadas e demonstravam facilmente sua personalidade forte de “abelha rainha”, a líder do grupo de garotas – mas que, felizmente, é retratada sem estereótipos. Em diversos momentos, a maquiagem de Maddy é apresentada de forma fantasiosa e fantástica e, segundo Doniella Davy, esta característica visa refletir o interior da personagem: por mais forte que seja sua personalidade, Maddy ainda é intensamente afetada por seus sonhos de infância destruídos, seu relacionamento abusivo e pela falta de amor entre seus pais, o que fez com que ela se tornasse, internamente, uma pessoa extremamente romântica com esperanças de, um dia, conquistar o “Feliz para sempre” que seus pais não conseguiram.

Tal desenvolvimento profundo acerca das maquiagens de Maddy não impediu que determinados momentos tivessem um significado a mais, como no episódio em que a personagem opta por olhar o celular do namorado Nate. Nele, a direção de arte optou por desenvolver uma maquiagem de olho que refletisse a luz de forma a parecer uma lâmina, por causa da forma que, segundo a própria artista, a personagem “corta a m**da de todo mundo neste episódio” (“she cuts through everyone’s bullsh*t in this episode”). Já no sétimo episódio, quando entra em conflitos com Kat, Maddy está utilizando, em seus olhos, uma maquiagem que se assemelha a uma corrente dourada, demonstrando sua força e resistência em desavenças como essa: por mais romântica que seja, Maddy não deixa de ser resistente como a mais forte das correntes.

Já no último episódio, a personagem se encontra com um visual mais gótico do que o usual, indo para o baile esperando poder ignorar Nate e, assim, mostrar que o superou. Conforme a sequência vai se desenvolvendo, vemos que tal visual se encaixa perfeitamente com a personagem naquele momento, pois é quando Maddy acaba, segundo a desenvolvedora da maquiagem, se entregando ao seu lado mais obscuro, admitindo seu vício por Nate mesmo que tenham vivido, juntos, uma relação abusiva.

Por último, podemos analisar a maquiagem da personagem Jules, que se destaca desde o início da série e obtém sucesso em desenvolver a personagem aos olhos do espectador. É evidente que Jules não segue os padrões e normas visuais estabelecidos pela moda, utilizando a maquiagem como forma de expressão artística do mesmo modo que um pintor usa um quadro, um escultor usa argila ou um escritor uma folha em branco: traduz suas emoções em cores e formas em seu próprio rosto.

No início, suas maquiagens demonstravam sua personalidade delicada e sensível, mas após os acontecimentos envolvendo Nate e sua viagem onde conheceu Anna, sua personalidade sofreu uma significativa mudança. Não mais era tão sensível e inocente, e tal mudança foi fortemente apresentada no seu último visual apresentado, este durante o baile: com uma forte maquiagem vermelha ao redor dos olhos, Jules finalizou a primeira temporada – assim como Maddy – com um visual mais sombrio e gótico do que os anteriores, mas um detalhe verde e um azul provavam que esta ainda era a mesma Jules artística e expressiva que o espectador conheceu desde o início.

A maquiagem de uma obra audiovisual, portanto, é desenvolvida de forma eficiente quando busca representar de forma autentica os personagens de acordo com a realidade proposta naquele universo narrativo, e é isso o que vemos em Euphoria. Um outro grande destaque da série, entretanto, é em suas maquiagens desenvolvidas em momentos de fantasia, imaginação ou alucinação, como no já citado momento em que Cassie se imagina patinando no gelo enquanto, na realidade, está realizando seu aborto. Euphoria, desde o início, teve uma direção de arte que fortemente visava ressaltar a maquiagem, e optou por utilizar destas mesmas técnicas para deixar tais cenas fantasiosas com um aspecto mais encantador e surrealista, demarcando uma área em que poucas séries ousam arriscar.

Outros dois exemplos valem ser ressaltados, e o primeiro deles está presente na pequena cena em que Rue se imagina acabando, definitivamente, com Nate. Neste momento imaginado por Rue, esta se encontra com uma maquiagem bastante simples, mas Jules aparece com seus olhos cobertos de pequenas estacas brilhantes, os quais demonstram, de forma forte e visceral, seu desejo mais profundo de ferir o personagem Nate. Em outra cena, no primeiro episódio, Rue está sob efeito de drogas e alucina que está chorando, mas não lágrimas comum: a protagonista chora lágrimas repletas de glitter. Este choro tão colorido e brilhante reflete o que a personagem sente naquele momento, um grande alívio e uma felicidade fora do comum; enquanto a maioria das obras retrata os efeitos alucinógenos com distorções e cores vibrantes, Euphoria vai além e retrata através do glitter, das lágrimas e da maquiagem artística.

A maquiagem, portanto, é uma ferramenta da direção de arte que possibilita uma maior imersão do espectador em relação ao universo narrativo proposto, tornando-o mais verossímil e desenvolvendo um relacionamento de credibilidade entre o público e a história. Mais do que isso, entretanto, pode ser utilizada para contar histórias por si só, indo além do puro agrado visual para apresentar um significativo adendo à construção de personagens e suas tramas, além de ser, também, uma forma de expressão dos mais diversos temas e significados.

A partir dos conflitos visuais plásticos que são desenvolvidos através da maquiagem, o espectador é convidado a adentrar ainda mais no universo narrativo apresentado, sendo guiado por detalhes estéticos para compreender ainda mais aquela realidade, seus personagens e suas tramas, estes os quais se apresentam mais complexos do que o visual por si só: cada cor, adereço e volume são pensados e construídos para agregar ainda mais à história, apresentando sentidos antes subentendidos. Assim, é possível concluir que Euphoria vai muito além do uso habitual da maquiagem e a transforma em parte da narrativa, e ao desenvolver uma proposta estética repleta de sentido e expressões agregadoras, faz com que sua história não seja contada apenas pelos acontecimentos da trama, mas também pelo bom uso da direção de arte.

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NOTA: As fotos e as ideias das maquiagens da obra foram retiradas das contas de Instagram da equipe já citada de maquiagem da série.

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