A segunda e última parte dessa homenagem a um personagem denso e bem construído. Se você perdeu a 1ª parte é só clicar aqui.

Boa parte das três primeiras temporadas foi pautada por mostrar a infelicidade matrimonial de Don com sua esposa Betty. Boa parte dos romances de Rand dedicam um tempo considerável em expor o que é chamado de teoria do sexo. Esta teoria diz que o sexo entre duas pessoas é pautado pelo reconhecimento, para ambas as partes, dos valores que elas consideram importantes em si próprios e refletem no outro. Caso um lado não reconheça mais este valor, a prática do sexo se torna um flagelo e o matrimonio incompleto. Não é exatamente isso que acontece com Don? Casado com uma pessoa cuja personalidade em nada batia com a dele, sempre procura a felicidade através de outras garotas, que ele julga que conseguem completá-lo melhor. Culminando em sua separação e casamento com Megan que, pode até não vir a completar Don em sua essência, mas é uma mulher que sabe o que quer e se aproxima bem mais dos valores de Don. E que, por ele ser uma pessoa diferente das demais, dificilmente conseguirão ser plenamente satisfeitos. É graças a isto que vemos uma constante atração, que possivelmente nunca será concretizada, entre Don e Peggy, já que para ambos existe esse reconhecimento de admiração mútua. Alguns podem ter dúvidas se esta teoria se aplica, eu acredito que para relacionamentos de longo prazo ela consegue explicar muito bem questões como atração não apenas sexual como afetiva também, nenhum relacionamento consegue durar com pessoas possuindo uma visão de mundo completamente diferente, o que não quer dizer evidentemente que elas tenham que concordar em tudo.

O leitor mais assíduo deve estar perguntando com que base ele fez a atitude mais polêmica de toda a série: Sua mudança de identidade visando fugir da guerra. Para entender melhor isto, vamos aos fatos: Dick Whitman possuía um companheiro que havia sido morto e iria sair da guerra e uma ânsia profunda de voltar aos Estados Unidos, usando a identidade do amigo, ele não o estaria prejudicando, já que o retorno do Don Draper “original” para os Estados Unidos, seria impossível, e assim ele poderia retornar para casa. Algumas pessoas podem achar que ele estava profanando o nome do morto, mas não foi uma atitude que ele tomou visando prejudicar ninguém, já que o uso de uma nova identidade não iria gerar nenhum dano ao cadáver do primeiro Don. Teria algum benefício para ambos os lados se, em vez de apenas um, os dois fossem mortos na  guerra?

Além disto, vemos que o próprio Don reconhece que ele deve contribuir de alguma forma pelo benefício que conseguiu. Draper é uma pessoa extremamente grata pela nova vida que foi possibilitada após sua mudança de nome. A maior prova disto é o sentimento fraternal que ele guarda por Anna Draper, esposa do finado Don, que chega ao ponto de uma graciosidade que contrasta com toda sua personalidade. Ele sabia que possuía uma dívida de gratidão muito forte não apenas com o colega, mas com a esposa que poderia tê-lo denunciado e não o fez, tentando retornar isto com o auxílio possível. No fundo, isto não deixa de ser uma relação de interesse mútuo: Ela oferecendo espontaneamente o seu perdão, enquanto Don oferecia o que fosse possível em troca. Deste interesse mútuo, surgiu a única amizade que ele talvez tenha tido durante toda a vida.

Esses aspectos são apenas  a ponta do iceberg para o mar de profundidade que é uma análise do íntimo de Don Draper, este personagem cuja complexidade tanto nos intriga. Vários outros elementos podem ser retirados, alguns pontos aqui até mesmo aprofundados. Uma compreensão maior do Objetivismo consegue ajudar bastante na pergunta chave da série::”Quem é Don Draper?”.

Observação: Texto feito em parceira com o Adriel Santos Santana.

* A 5ª temporada começará em março de 2012.

@guilhermeifc

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