Chegou a hora! Em junho de 2016 fica pronta minha lista dos melhores filmes de 2015. Afinal, que putaria é essa?
Já que minha coluna se propõe a acompanhar os festivais e as premiações do mundo cinematográfico, é inevitável que eu acabe trabalhando no “fuso horário” americano. Isso é verdadeiro especialmente em relação ao Oscar, uma vez que boa parte dos filmes competidores na premiação são lançados no Brasil em janeiro do ano seguinte.
Entretanto, caso eu seguisse o método de avaliar todos os filmes lançados no Brasil em 2015, minha mente iria dar cambalhotas desgovernadas. Em primeiro lugar, analisar o Oscar tem tudo a ver com o ano de lançamento de cada filme. Em segundo lugar, boa parte dos meus filmes favoritos sequer são lançados no Brasil.
Assim, eu bolei meu próprio método para classificar o que foi ou não lançado em 2015. O primeiro e mais importante critério é a data de lançamento nos EUA: dessa forma eu fico sincronizado com o Oscar e as demais premiações. Caso o filme não tenha sido lançado nos EUA, uso a data de lançamento no país do qual o longa é originário.
Antes de começar a listagem, algumas outras informações básicas. Documentários ficam de fora, uma vez que eu já fiz uma lista específica para eles. Foram no total 180 filmes avaliados, e acabei definindo um número de 30 filmes para aparecerem aqui. Ao final dessa maratona, disponibilizarei o link no Letterboxd para que vocês possam ver a lista completa.
Nada mais a declarar. Preparem seus corações!
30º Spy – Paul Feig – EUA

O ano de 2015 foi saturado de filmes de espionagem, dos mais sérios (Spectre) aos mais ridículos (Kingsman: The Secret Service), com espaço até para um delicioso meio-termo (Mission Impossible: Rogue Nation). Entretanto, nada supera o show de humor rocambolesco e eletrizante apresentado por Melissa McCarthy em Spy, um dos filmes com o elenco mais sólido do ano. McCarthy, Rose Byrne e Jason Statham dão show, e pouco disso tem a ver com a ridícula trama de espionagem. Feig está interessado nas oportunidades de humor que isso apresenta, nas inversões de clássicas convenções do gênero e na pura diversão que a combinação proporciona. Spy agrada a qualquer público, do casual frequentador do cinema até o cinéfilo apreciador de um humor inteligente.
29º The Diary of a Teenage Girl – Marielle Heller – EUA

O festival de Sundance sempre tem suas idiossincrassias irritantes, mas de vez em quando um filme consegue sucesso mesmo seguindo alguns dos estereótipos do evento. The Diary of a Teenage Girl é um coming-of-age com elementos excêntricos, rótulo que abriga pelo menos outros dois projetos de Sundance 2015. O resultado, entretanto, é brilhante. A cineasta debutante Heller, cujo potencial no futuro é incomensurável, consegue explorar de todas as maneiras possíveis a pérola que é sua protagonista, interpretada por Bel Powley. Envolvida em um romance nada convencional com o adulto namorado de sua mãe, a garota tem uma personalidade charmosa que nunca soa falsa. Desenhos imaginários acompanham sua vida, cheia de altos e baixos, e Heller mostra com carinho a vulnerabilidade e inocência da menina. Embalando essa doce aventura temos uma trilha sonora deliciosa e uma cinematografia vintage esfumaçada que combina perfeitamente com a ambientação nos anos 70.
28º Macbeth – Justin Kurzel – Reino Unido

A proposta de Macbeth lembra o famoso “ou vai ou racha”: ou você abraça o clima espetacularmente sombrio e trágico do filme, ou considera tudo uma piada proferida em um inglês arcaico esquisito. É verdade que o longa de Kurzel se leva muito a sério em uma língua difícil de se entender, mas a fieldade às raízes shakespearianas da obra é que o torna algo digno de nota. Há inclusive algo de cinema mudo na forma incisiva e homérica como os personagens demonstram seus medos, ambições e cinismos. Macbeth (Michael Fassbender, provavelmente no melhor trabalho de sua carreira) é um tirano absolutamente consumido pela ganância, tendo seu fogo alimentado cuidadosamente pela degenerada Lady Macbeth (mais um papel sólido de Marion Cotillard). Kurzel nos embebe nessa trama sanguinária e lamaçenta com o auxílio de uma das melhores fotografias do ano: Adam Arkapaw cria cenas de batalha líricas e dignas de um épico grego. Esse time inteiro volta a colaborar esse ano no blockbuster Assassin’s Creed. Se a maldição dos filmes de videogame não for quebrada agora, é sinal de que não há mais conserto para o gênero.
27º Room – Lenny Abrahamson – Irlanda/Canadá

É bem possível que Room acabe se tornando o filme mais universalmente amado do Oscar 2016. Não necessariamente em intensidade, mas em abrangência. Abrahamson e a roteirista Emma Donoghue conseguem criar um relacionamento entre mãe e filho espetacular, conjurando verossimilhança em uma situação de cativeiro que foge totalmente da nossa realidade. O notável Jacob Tremblay comanda o longa de cabo a rabo, combinando fofura inerente com atuação magistral. As situações sinistras nas quais ele é colocado são superadas com o auxílio da (injustamente) oscarizada Brie Larson, e a construção desse laço maternal é o fio condutor emocional de todo o filme. Não há como sair ileso da experiência que é Room, um longa por vezes impiedoso com seus personagens. Tais feridas, entretanto, são justamente o motivo pelo qual expectadores de todos os tipos poderão amar o material.
26º Tangerine – Sean Baker – EUA

É bem possível que Tangerine se torne um marco no movimento pela igualdade no cinema mundial. Suas vitórias dão um tapa na cara de quem acredita que não se encontra talento diversificado por aí. Mya Taylor e Kitana Kiki Rodriguez nos entregam uma visão crua e levemente histérica da vida das prostitutas transsexuais em Los Angeles, caminhando por uma selva de pedra iluminada pelo sol amarelo forte da cinematografia enganosamente simples de um iPhone. Baker, que também roteiriza o filme, cria um linguajar especialíssimo entre as protagonistas, e é nítido o nível de pesquisa dedicado ao projeto para criar algo genuíno. O relacionamento entre as personagens também é especial: Rodriguez é a porralouca que sai atrás de seu namorado após descobrir que ele está supostamente ficando com uma mulher (“real fish”, como ela diz em um momento); Taylor é quem amarra as pontas soltas, e sua personalidade mais delicada vem à tona em um inesperado e tocante número musical. Tangerine tem uma originalidade incomum e uma energia contagiante. Um representante do que o cinema alternativo americano tem de melhor a oferecer, mostrando também que Sundance está longe de perder sua importância.
25º Z for Zachariah – Craig Zobel – EUA

Normalmente meus gostos costumam coincidir com os da crítica especializada. Z for Zachariah, entretanto, é provavelmente a maior divergência dentro dessa lista. Quando alguém adapta um famoso livro de romance pós-apocalíptico para as telonas e adiciona um personagem totalmente novo dentro da dinâmica, a recepção costuma ser complicada. Felizmente, é muito fácil amar esse longa estrelado com maestria por Margot Robbie, Chiwetel Ejiofor e Chris Pine caso você não tenha essa conexão com a fonte literária. Após um genérico acidente nuclear que dizimou a humanidade, a personagem de Robbie vive sozinha na fazenda de seu pai. Seu fervoroso cristianismo e mentalidade caipira é posto em cheque quando o cientista interpretado por Ejiofor chega ao local: não existem opções ao redor, mas será ele a melhor opção para um coração religioso? A colisão da fé com a situação extremamente incomum em que os personagens se encontram é trabalhada da melhor forma possível pelo roteiro: sutilmente, com olhares e pequenos gestos transmitindo ao expectador toda a tensão da situação. Isso é mais presente ainda com a chegada de Chris Pine, que se estabelece rapidamente como a opção cristã para a protagonista. A situação vai calmamente se desenvolvendo com uma nítida impressão de que não irá terminar muito bem, sendo embalada por uma cinematografia rica em cores e uma trilha sonora que combina órgãos e violinos com efeitos belíssimos.
24º Ex Machina – Alex Garland – Reino Unido

O sucesso de Ex Machina ao longo de 2015, culminando com uma das mais improváveis vitórias na história do Oscar (por Efeitos Especiais), é um atestado ao poder da A24, uma distribuidora americana que vem abalando o mercado dos filmes alternativos. O poder do filme em si, entretanto, não pode ser desprezado. Não que Ex Machina traga novas reflexões no campo da ficção científica. Com exceção talvez da engenhosa ideia de uma inteligência artificial montada através do Google, todos os conceitos do longa de Garland são velhos conhecidos do gênero. O que realmente se destaca nesse projeto é a construção primorosa do relacionamento entre os três personagens principais. Domhnall Gleeson é inadvertidamente jogado em meio à conflituosa e às vezes horripilante relação entre criatura (Alicia Vikander) e criador (Oscar Isaac). O clima de desconforto é habilmente construído ao longo do filme, com atuações primorosas dos protagonistas. Como bônus, temos a cena retratada acima: simplesmente um dos momentos mais icônicos do cinema em 2015.
23º The Gift – Joel Edgerton – EUA

The Gift foi uma das melhores surpresas de 2015. É comum torcer o nariz para qualquer projeto de ator que decide se tornar um diretor, principalmente quando ele estrela o próprio filme. Quase sempre dá errado, mas aqui o resultado é nada menos que brilhante. Joel Edgerton dirige e roteiriza esse suspense, e o talento do novo cineasta é notável em ambos os aspectos. Jason Bateman e Rebecca Hall são um “casal modelo” que encontra um esquisito amigo do passado. Edgerton também dá um show de interpretação aqui, incorporando a princípio o estereótipo de creepy perseguidor. Nesse ponto alguns podem achar que sabem para onde o filme vai, mas The Gift inverte expectativas da melhor forma possível em várias oportunidades. Nada é o que parece ser, e o nível de nuance e ambiguidade criado de forma inteligente pelo filme ultrapassa em muito qualquer thriller pasteurizado dos últimos anos.
22º The Duke of Burgundy – Peter Strickland – Reino Unido

2015 nos trouxe essa maravilhosa alternativa à febre de 50 Shades of Grey, estrelada com sensualidade e mistério pela dupla de Chiara D’Anna e Sidse Babett Knudsen. Vivendo numa charmosa mas obscura casa de campo, as duas personagens principais nos são apresentadas através de um jogo elaborado de sedução e masoquismo. Não há manual explicativo para nos ajudar a distinguir fantasia sexual de realidade, e Strickland ama brincar com essa incerteza em seu trabalho. À medida que entendemos a surpreendente dinâmica entre D’Anna e Knudsen o filme cresce em psicodelia e até mesmo em valor emocional. Toda essa tensão sexual é envelopada por uma fotografia elegante e sensual, que aproveita ao máximo as sombras, o design de produção e figurinos cuidadosamente arquitetados para o filme. The Duke of Burgundy é uma experiência intoxicante de desejo e exploração de limites dentro de uma relação amorosa.
21º The Martian – Ridley Scott – EUA

Desde quando Ridley Scott não fazia um filme tão bom como The Martian? A minha resposta seria o clássico road-movie feminista Thelma & Louise, embora certamente outros tenham opiniões diferentes. The Martian é um sci-fi calcado em realismo extremo que possui um dos melhores roteiros do ano, criando uma situação aparentemente inescapável e construindo tijolo a tijolo uma narrativa criativa mas nunca inacreditável, bem humorada mas nunca pastelão, complexa mas nunca ininteligível. O enorme elenco encabeçado por Matt Damon faz seu trabalho com destreza, mas não é isso e nem os ótimos efeitos especiais que constituem o cerne da brilhanteza desse longa. A resposta talvez seja essa versão leve e esperançosa de uma aventura espacial, onde seres humanos resolvem problemas em conjunto e ignoram tensões internacionais com o fim de desbravar o universo. A onda pessimista pós-apocalíptica já nos trouxe ótimos filmes, mas é essa injeção de um ar fresco e progressista que faz de The Martian um verdadeiro deleite.
20º Clouds of Sils Maria – David Assayas – França

Clouds of Sils Maria é uma examinação atenta e poderosa da decadência hollywoodiana. Juliette Binoche interpreta uma atriz bem-sucedida que se vê na posição de interpretar um papel diferente na mesma peça que a levou ao estrelato anos atrás, em sua juventude. Ficção e realidade se fundem a todo momento, de formas tão simbióticas que até confundem o expectador em algumas cenas. Kristen Stewart é a assistente de Binoche, se colocando ocasionalmente no papel mais jovem da peça para ajudar sua chefe nos ensaios. O nome da obra é Maloja Snake, e envolve uma jovem empregada que domina as atenções de sua superior, mais velha, até abandoná-la mais tarde. Tudo envolve uma comparação fatalista entre o ardente comportamento juvenil e a fragilidade escondida dentro dos mais experientes. A obsolescência de Binoche e o vigor de Stewart carregam o filme, ambas fortíssimas em seus papeis, e os inúmeros paralelos criados em um roteiro dentro de outro roteiro são reflexões poderosas sobre a natureza da fama.
19º The Fool – Yuriy Bykov – Rússia

Por muito pouco The Fool não passou despercebido por mim. Apesar de receber ótimas críticas, o filme russo foi ignorado pelas listas de melhores do ano americanas. Uma pena, dada a pouquíssima circulação que teve. O diretor Bykov cria aqui um dos retratos mais apodrecidos e repugnantes da corrupção russa dos tempos modernos: um simples encanador descobre que um dos diversos prédios com má construção e manutenção inexistente de sua cidade está prestes a ruir. O edifício tem uma rachadura medonha que o percorre por completo, e está perigosamente inclinado para o lado. A metáfora para a situação do país pode parecer um tanto óbvia demais, mas a partir do momento que o relógio começa a correr para a vida de mais de 800 moradores, The Fool ganha um ritmo instigante e voraz. O encanador, interpretado com singeleza plebeia por Artyom Brystov, tenta convencer os governantes da cidade a tomarem atitudes emergenciais. Estes estão ocupados se embebedando em uma festa de aniversário. A narrativa é urgente, brutal e moralmente repulsiva. Um olhar cínico e fatalista para a realidade atual, contrastado com a atitude correta mas praticamente insignificante de um encanador, obstinado em reter algum tipo de princípio ético em sua vida.
18º Anomalisa – Charlie Kaufman – EUA

Nos últimos anos o poder narrativo e criativo das animações vem se mostrando cada vez mais forte. Limites a todo momento são quebrados, e Anomalisa orgulhosamente faz parte dessa quebra de paradigmas. Kaufman cria uma história desconfortavelmente humana com um roteiro polido e inteligente, tirando da mente do expectador o fato de que estamos vendo uma animação em stop-motion. Anomalisa é inegavelmente um filme adulto, dedicado a explorar a solidão e hipocrisia humana. Michael Stone, o protagonista, é um narrador pouco confiável cuja visão distorcida de mundo se apresenta para o expectador de curiosas formas. Kaufman nos faz questionar se a solidão humana é realmente causada por fatores externos, longe do nosso controle, ou se apenas somos cegos para os nossos próprios erros. O mais impressionante: o diretor/roteirista faz tudo isso apenas com uma noite em um hotel e um encontro casual entre dois estranhos. Anomalisa não precisa de mais do que isso para gravar-se profundamente em nossa memória.
17º 45 Years – Andrew Haigh – Reino Unido

A partir de quanto tempo podemos dizer que um relacionamento está completamente seguro? Será que após 3 anos? Deve existir um momento no qual tudo se estabiliza, as diferenças são todas resolvidas e reina a calmaria, não? O que 45 Years nos propõe como resposta para essas perguntas é assustador. No filme, o casal formado por Charlotte Rampling e Tom Courtenay, certamente a melhor dupla de atuação em 2015, vive em serena felicidade aguardando por sua comemoração de 45 anos de casados. Entretanto, a descoberta do corpo congelado de uma antiga paixão do personagem de Courtenay parece mudar algo. A princípio é apenas uma nota dissonante no ar, quase inaudível. Afinal, 45 Years é uma obra de ritmo lento e analítico, explorando sem pressa a profunda intimidade de um casal que se conhece há muito, muito tempo. É nessa lentidão que mora a genialidade do filme: com tanto espaço para se explorar, os menores detalhes se destacam. Uma mudança mínima de comportamento, uma inflexão diferente de voz, um silêncio momentâneo. Será que existe algo ruindo nesse sólido relacionamento após um acontecimento surpreendente, mas insignificante como esse?
16º Beasts of No Nation – Cary Joji Fukunaga – EUA

Após provar que sua mão foi a salvação de True Detective, Cary Fukunaga migrou para a Netflix e provou que o #OscarsSoWhite não é apenas choro de esquerdistas. Ignorado pelo Oscar, o filme embrenhou-se pelas matas africanas para contar a história de uma realidade brutal em meio às constantes guerras civis que assolam o continente. Abraham Attah, a maior descoberta de 2015, é um garoto qualquer que tem sua família assassinada e se vê em meio a uma milícia armada comandada pelo imponente Idris Elba. Não há aqui espaço para afastar os olhos ou ignorar a situação. Fukunaga impiedosamente nos mostra, com uma direção segura e marcante, a evolução na vida de um menino que troca a bola de futebol por um fuzil. As atuações centrais são inacreditáveis: Attah tem um dos arcos mais difíceis e complexos de qualquer personagem na história de cinema, e de alguma forma consegue, sem nunca antes ter atuado na vida, mostrar-nos a turbulência que sacode mente juvenil; Elba é uma presença imponente e acima de tudo influente, alimentando sem qualquer pudor o ódio sangrento nos corações de seus pupilos. Seu arco também é marcante e surpreende no ato final, mostrando complexidade em um tipo de personagem que normalmente é limitado a se apresentar como um badass inveterado. Beasts of No Nation é uma experiência angustiante e explícita que provavelmente afastará alguns expectadores, mas seus ensinamentos jamais devem ser esquecidos.
É isso! Os outros 15 títulos serão revelados na próxima e última parte. Gostaram do que viram até aqui? Quais filmes vocês acham que são indispensáveis no top 15? Sintam-se livres para comentar e também juntarem-se a nós no grupo de cinema do Telegram.
















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