Se Nietzche tivesse vivo na atualidade, provavelmente escreveria Preacher. Não por ser reconhecido pelo homem que “matou Deus”, mas por anunciar a “decadência” do mundo que a partir da análise de seu tempo, seria uma constante cada vez mais presente no cotidiano das pessoas. De igual modo, assim como este filósofo alemão do século XIX, Jesse Custer é um personagem superfaturado, também pudera, se para ser partidário do nietzschianismo, é necessário ter estômago filosófico (e nem sempre capaz de processar qualquer coisa, logo, muita indigestão, e melhor não ler muito muitas vezes), para com o preacheranismo, é preciso uma fome de leitura, são mais de 2400 páginas de arte e escrita, e processar tudo pede tempo. Contudo, uma coisa é fato na vida destes dois icônicos indivíduos, se ouve bastantes coisas sobre o comportamento deles, mas pouca coisa sobre o desenvolvimento de suas histórias.
O trabalho de Garth Ennis está recheado de elementos nietzschianos, mas não escreverei sobre Nietzsche, embora se perceba claramente sua influência notória nesta HQ. De antemão, é bom dizer que gosto mais de Preacher do que de Nietzsche, mas não poderia deixar de citar a Gaia Ciência, 1882, seção 125:
“Para onde foi Deus?” – Exclamou – “É o que vou dizer. Nós o matamos – você e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos! […] Deus morreu! Deus continua morto! E fomos nós que o matamos! Como havemos de nos consolar, nós, assassinos entre os assassinos! […] Que expiações, que jogos sagrados seremos forçados a inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não seremos forçados a nos tornarmos nós próprios deuses – mesmo que fosse simplesmente para parecermos dignos deles?”
Se tirarmos três ou quatro palavras, e inserirmos mais algumas, temos um pequeno resumo da história de Jesse Custer. E é aqui que tudo realmente se complica, a AMC ao comprar os direitos, não apenas trouxe para si uma bomba mais devastosa que a de Hiroshima, mas uma das mais difíceis adaptações da história quanto a conteúdo narrativo. E não se engane à primeira vista pensando que o problema estaria em dizer que Deus está morto ou que deuses são frutos da imaginação fértil do homem. Não. Isso já é discutido fortemente desde o mundo Grego.
E vale melhor explanar, a antiga Grécia, não só traz ao mundo a sistematização racional do pensamento, o que se denominou FILOSOFIA, e uma das mais fantásticas histórias sobre um suposto plano divino misturado com o plano terreno numa rica mitologia de heróis personificados em forma de deuses e semideuses, mas também, a grande semente para o ateísmo e a problematização de uma divindade. Por volta de 415, Diógenes Laértios, escreve um tratado Sobre os Deuses, e dizia veemente: “A propósito dos deuses, é-me impossível saber se eles existem ou se se não existem, nem qual a sua forma; os elementos que me impedem de saber isso são muitos, tal como a obscuridade da questão e a brevidade da vida humana”. É com este pensador que se inicia o primeiro ato público contra a problemática existência de Deus. Se Nietzsche é um dos mais lembrados na luta contra Ele, e na contemporaneidade Preacher a passos longos tenta alcançar uma posição favorável, porém, contudo ainda, são desvio de percurso histórico, mas não a via para isso.
Mas voltando ao problema preacheriano da AMC, e já dito de outra forma antes, xingar Deus, mandar ele ir para “aquele lugar”, não acreditar nele só citando exemplos mais comuns, a história já estava cansada de ouvir. E eis que em 1995 surge uma história em quadrinhos que vira o burburinho da américa ainda conservadora e acusada de decadente por moralistas e religiosos devido ao seu avanço social e político pelas artes, sexualidade, cinema e ainda não muito pela televisão e suas séries a partir da década de 70, mas não cansadas de gritar aos quatros cantos da América o seu direito à liberdade de existir e de ser o que bem pudessem imaginar até o período que Preacher chega às bancas de revistas e gibiterias.
A partir daqui, vou logo avisando, que caso o leitor queira deixar de lado, é a hora, irei mergulhar na real problemática preacheriana, coisa que mesmo a pfoderosa e liberal HBO, talvez não tivesse coragem de assumir se a produção de Preacher fosse de sua grade. São alguns spoilers, mas nada tão grave que atrapalhe a leitura da HQ ou a produção da TV. Só complementam o seu entendimento.
A história de Preacher começa no paraíso, que até então, parecia ir muito bem. Não há problemas que o homem, adefins e serafins não possam enfrentar. O doloroso fardo faz parte da experiência da vida. Mas um dia, um poderoso Serafim, arcanjo braço direito de Deus, cai na tentação do amor (o maior problema da liberdade). O paraíso vira um inferno, e a vida dos seres de cima e dos homens em baixo na terra, nunca mais foram o mesmo.
Sobre o ocorrido, o Serafim apaixonado diz em Preacher, Vol 3, pág. 144, diz:
Acima do Inferno ela planava, águia sedutora a se prostituir com almas no mundo mortal. Adúlteros, estupradores, sodomitas, fornicadores… Todos eles, quando deixavam a volúpia vencer o amor, quando quebravam a Lei de Deus… Eram dela
Quem nunca não se deixou embebecer pelo alcoolismo do desejo desenfreado? O exilado serafim continua:
Minha era a beleza de manhãs douradas, de imaculados campos de neve. Da própria fé. Eu guardava os limites do paraíso, onde a mais elevada glória fazia fronteira com a danação. E tinha desprezo por demônios, como ainda tenho. Mesmo assim parei, sem saber por quê, para vê-la dançar nas colunas térmicas da perdição. Ela também notou e, em vez de fugir como normalmente faria, ficou pairando e voltou seu olhar de encontro ao meu. E sorriu
E a partir daí a vontade e obediência ao paraíso e ao inferno não mais existia. Serafim e Diaba se envolvem numa louca e linda história de amor e sexo. E do pecado, surge a criança que jamais poderia ter nascido, a entidade sobrenatural que assume Jesse Custer matando 200 crentes em sua igreja e o deixando vivo para encontrar Deus. O filho deles foi denominado Gênesis, era o bem e o mal misturado. E como toda história de amor, qual seria o plano? Fugir. Ela estava grávida (Como se Deus e o Capeta não fossem capazes de encontrá-los. O excesso de paixão com o vinho inebriante do amor causa esta cegueira não é mesmo?). Gênesis já nasce temido, com um poder semelhante ao de Deus, conhecedor do bem e do mal, e com a Palavra de Deus, o dom do convencimento. O filho da perdição meio-diabo e meio-anjo, é aprisionado no paraíso, e um certo dia foge, e parte dessa história já sabemos.
A essa altura do campeonato, você já deve estar ciente que Preacher, o badass que vai botar o terror na Terra com palavrões e chuvas de gente morta pelo simples ato de querer matar, não existe como vendido pela profecia dos Cavaleiros do Apocalipse pelas igrejas protestantes mais radicais como a verdade bíblica, o que se escuta, não passou de um recorte do personagem superfaturado por alguns comentaristas. Mortes vão acontecer aos montes, mas JC é um personagem altamente moralista, sua fúria amalgada pela possessão de Gênesis não passa de um ato infantil por ainda não ter controle de suas emoções. Pobre Gênesis, era preciso passar pela experiência da carne, ser corporificado na pele do homem para saber o que é a vida, compreender realmente o poder do bem e do mal.
E você começa a pensar em Preacher na TV depois de mais de 1500 páginas de leitura vai ousar. Não acredito nisso, embora espere que esteja errado. E a vontade que você pode ter é de xingar igual na HQ e ainda soltar: Aonde essa porra do Garth Ennis foi se meter!!! E Longe de minha parte dizer que Preacher é uma história ruim, pelo contrário, ela virando seriado é um presente para tempos de mansidão na televisão americana, mas não é tudo, se segura no dilúvio que a leitura de Preacher lhe causará, que logo, logo, chegaremos a um veredito. E serei franco, em vários momentos, você vai torcer muito mais para os personagens secundários. É comum se cansar de Jesse Custer.
A pergunta que fica depois de ir avançando mais e mais, é se a história preacheriana realmente é um afronto aos costumes da fé cristã. Até então, nada de grave numa paixão entre uma diaba e um arcanjo. A história de Lilith, o demônio noturno, a primeira mulher de Adão que desejava ser respeitada como este também foi, ecoa em Preacher, como também, o versículo de Gênesis III em 3 e 5: “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: dele não comerei, nem tocareis nele, para que não morrais”, e prossegue emblematicamente, “Porque Deus sabe que no dia em comerdes se vos abrirão os olhos, e como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal”. Percebeu? (Balançar dos dedos no alto).
Novamente, nada de novo no reino criativo dos quadrinhos abaixo do céu. Mas Garth Ennis, bom irlandês, vivente e conhecedor dos conflitos entre católicos e protestantes quanto aos dogmas cristãos e a fé deturpada nas variadas correntes religiosas desses dois grupos, não coloca a cereja no bolo para dar aquele toque de quero mais, é uma granada, é para revirar o estômago, e para os mais fracos de coração, literalmente pedir para sair é uma boa opção.
O que Jesse Custer deseja realmente fazer, é colocar Deus no banco dos réus e condená-lo por falta de responsabilidade para a sua criação, (Nietzsche se revira no seu túmulo).

E num exercício de desconstrução de Deus pela boca de Preacher, todos aqueles elementos que fazem um roteiro de criação bem-feitinho para o herói ser enaltecido na história: Vilão, Alívio Cômico, Anti-Herói (etc), ganham uma reviravolta sem igual na história das HQ’s e outras narrativas em variados tipos de mídia. E quem assume literalmente isso? Deus. O Criador é retratado como alguém que tem problema de cabeça. Toda vez que aparece em cena, vai evidenciando uma vilanice surreal em dizeres sobre ser “amor”, mas tiro, porrada e bomba se pisar no seu calo. Deus em Preacher no português rasgado, diz que vai botar o terror. Jesse Custer que não se cuide, a coisa vai ficar feia para o seu lado (e fica). Quando não, Deus toma partido de coisas bizarras ao interagir com outros personagens.
No encontro de JC e Deus, o pensamento que vem à mente é se poderia sair algo com uma possibilidade no limiar do racional. Uma discussão no máximo teológica ou no mínimo filosófica? Não vai. É briga de torcida de futebol, é algo do tipo “é nóis mano, o lance aqui é briga de gangue de bar inferninho”. O que é trágico se torna engraçado no decorrer disso, infelizmente. Preacher tem belíssimos diálogos, mas quando o assunto é Deus, só espere um personagem totalmente sem condições de agir mentalmente bem.

E o leitor já calejado do Série Maníacos, com PHD em Narrativa de Seriados, poderá dizer: “Então não é só eu que sofro com o final das minhas séries preferidas?” Não. Garth Ennis teve 5 ANOS para planejar isso, e sinceramente não convence muito o final que ele deu a esta magnífica história. Agora imagina um pouquinho o Deus preacheriano sendo retratado como alguém que têm sérios problemas de saúde mental na televisão americana? Ele na metade de sua totalidade seria um marco sem igual. Totalmente Ele, mesmo sem acreditar nisso, diria quando visse a cena na série, que Jesus estaria realmente próximo de voltar.

Claro que o fim da saga não se resume a página acima, o final é bem pior. E nem o que foi exposto aqui atrapalha a leitura de Preacher. Mas isto não tira o seu brilho narrativo. A história de Preacher tem arcos sensacionais com algumas histórias rigorsamente bem escritas Se em vários momentos JC poderá te cansar (seu moralismo realmente às vezes cansa), entretanto, não se preocupe, Cassidy, Tulipa, Santos dos Assassinos, Herr Star, Deus, Cara de Cu, Daronique, Novo Jesus, Jesus de Sade, Fiore e Deblanc, Eccarius, Odin Quincannom e tanto outros personagens vão segurar a história Preacher a tornando simplesmente única no universo do entretenimento.
E se você curte uma boa história de amor, a saga amorosa de Tulipa e Jesse Custer é muito emocionalmente, lágrimas poderão rolar.
















