Conflitos de peso transformam o episódio de Arrow em algo estruturado.
Um detalhe que sempre fez falta em Arrow e que muitas pessoas já pontuaram é a ausência de maturidade que alguns assuntos são tratados durante alguns arcos. O foco dividido entre o drama amoroso e a destruição eminente da cidade termina por receber atenção desequilibrada entre o que realmente é mais importante para o momento. Então o comum é termos pouco da ação do vilão, e muito, mas muitos problemas amorosos. É uma balança extremamente injusta com quem começou assistindo um drama sobre um vigilante trilhando seu caminho, para se tornar um super-herói, mas também é condizente com a vida humana e as várias complicações do mundo adulto. Genesis extrapola a própria fórmula da série e discute assuntos importantíssimos para a compreensão do mundo de heróis e vilões, além de dedicar o holofote para o personagem que mantém o maior peso dramático nas costas, John Diggle, dedicando um espaço importante para que David Ramsey domine a cena.
Qual o limite entre o certo e o errado? Matar um inimigo é algo complicadíssimo de conceber. Tanto que nas histórias em quadrinhos poucos são os heróis que realmente dão cabo de seus antagonistas. Só que Arrow começou com o seu protagonista assassinando qualquer bandido que estivesse em sua lista, ou no caminho para cumprir o plano de salvar a cidade. Após um trauma acompanhado de uma promessa, Oliver se aproximou do modelo padrão de um super-herói comum. Ele não mata e também estabelece como regra o respeito a vida humana, mesmo que a preocupação central não esteja na vida humana em si, e sim na não corrupção da alma de quem segura o martelo da justiça dos vigilantes. O que fazer então em casos extremos? E foi neste ponto que o episódio tocou ao explorar a história de John e Andy Diggle.
Um super-herói age sem respaldo legal, ele não é reconhecido pela lei, não segue nenhuma convenção e age de acordo com o que sua mente, ou o seu trauma de infância, comandam. Incluir o termo guerra e a complexidade da palavra foi uma maneira honesta de adentrar na proposta do embate final entre o time Arrow e H.I.V.E. É interessante também ver o Andy citando a guerra, pois é uma conexão direta com o passado de John, mas também expõe a caracterização da organização criminosa, que sempre esteve respaldada por uma milícia de homens armados. Sim, foi uma forma nada sutil de dizer que na guerra o assassinato é algo necessário, e que se preciso for, utilizarão este recurso, afinal, quem trouxe um exército para ameaçar a vida de milhões foi o vilão.
Arrow podia ter feito tanto com o seu vilão, mas se satisfez entregando pouco. Genesis é o tipo de episódio que funciona perfeitamente e trabalha o real e o místico de forma fluída, sem fragmentações. Mas o sentimento que tenho é de que é tarde demais. Hoje o comportamento do Damien faz sentido, hoje o seu plano é uma ameaça, mas não parece algo cuidadosamente desenvolvido durante um arco, com planejamento, mas sim um roteiro que pegou o que fez no passado e encaixou tudo na hora de criar seu roteiro. Este padrão oferece um tipo de visão, onde é necessário entender o panorama completo para que tudo faça sentido. Não deixa de ser verdade, mas não é o caso de Arrow. Aqui as coisas não são planejadas com antecedência. O próprio produtor já confirmou que só agora eles começaram a pensar na próxima temporada e no antagonista que será utilizado lá. Só que muita coisa boa saiu deste episódio.

E eu simplesmente adorei as cenas de ação envolvendo o John, principalmente por que aquele era um pai, um marido e não o “Spartan”, com seu capacete horrível e desajeitado. A pequena Sara nas costas do pai durante a fuga também foi outro ponto alto do episódio, muito mais emocionante do que o embate de Oliver contra o seu passado, mas não tão importante. São pequenas cenas, trabalhadas de forma simples, mas poderosas, que remetem a primeira temporada da série, quando tudo era tão complicado quanto, mas nem de longe tão pretensioso.
Toda a quarta temporada de Arrow trabalhou a proposta de Oliver como um “farol de luz”, é parte da premissa e por mais que não me agrade, foi um trabalho bem executado em Genesis. Como eu falei lá em cima, a série aparenta não ter um desenvolvimento a longo prazo, com exceção de alguns pontos chave, sendo o beacon of light o melhor definido. O treinamento proposto e a montagem da cena com Oliver sendo enfrentado pelos momentos mais sombrios da sua vida ajudaram bastante a expandir a minha visão quanto a trama. Claro que uma cena não desculpa a temporada inteira e a falta de comprometimento em transformar a principal amarra do ano em algo interessante, mas confesso que finalmente consegui compreender, após muito esforço, o que tanto pranto e ranger de dentes significou para o Arqueiro.
Outro ponto de compreensão que só fez sentido no vigésimo episódio da série foi a combinação das pílulas amarelas com a apresentação do plano macabro do vilão. Oscar Balderrama e Emilio Ortega Aldrich aproveitaram Willa Holland para um tipo de encenação que está dentro do nível da atriz, agir de forma desorientada. Por um momento, porém, me preocupei que o romance com Alex “eu sou um organizador político”, a versão masculina de Kendra “eu era apenas uma barista”. Como é de praxe o personagem não recebeu nenhum tipo de desenvolvimento necessário para se transformar em alguém que será utilizado por mais de uma temporada. A não ser que o revelem como algum personagem saído diretamente das histórias em quadrinhos – tipo o Asa Noturna – eu não o imagino sobrevivendo para ver o sol nascer, o verdadeiro sol. Contudo, optar por manipulá-lo ao invés de apenas atribuir uma revelação de traição foi bem mais inteligente, mas ainda não condiz com o tipo de abordagem que eu quero para as personagens femininas de Arrow.
Como mencionado dentro da review, acredito que Genesis tenha sido uma excelente maneira de dar o pontapé inicial para os últimos episódios da temporada. Esrin Fortuna é bem caricata, mas souberam utilizar bem a magia da personagem para engolir Oliver no seu último teste. Ainda acredito piamente que a série pecou e muito durante praticamente todas as tramas apresentadas, incluindo a apresentação de Vixen, já totalmente inutilizada hoje. Mas dou o braço a torcer e pontuo que senti uma satisfação muito grande após a exibição deste capítulo. Tudo funcionou bem, mesmo que alguns detalhes não tenham encaixado com perfeição dentro do quebra-cabeça apresentado. John Diggle teve mais um momento para brilhar e demonstrar que Arrow sabe aprofundar personagens secundários (só não as mulheres), e garantiu uma experiência extremamente válida. E sabe o melhor? Nenhum flashback.
Easter eggs e outras informações
– Milo Armitage, o membro da H.I.V.E., esteve presente na série desde a segunda temporada (Tremors), quando tentou roubar o dispositivo Markov do Merlin, ao tentar comprar dados sigilosos da A.R.G.U.S. (mencionado em Corto Maltese), e desde o início do arco da H.I.V.E. em Dark Waters, Code of Silence e Genesis. Na nona arte ele é o padrinho de Connor Hawke, filho do Oliver Queen.
– Infelizmente e conforme já anunciado pelos produtores de Arrow, a participação de Constantine foi um evento único e não deverá se repetir. Por isso tivemos apenas uma menção ao seu nome.
– Hub City é o lar do personagem Questão. Vale mencionar que assim como Esrin Fortuna, Questão é um Xamã. E por um tempo o manto do Questão já foi ocupado por uma mulher, Renee Montoya.
– Felicity sugere que Oliver coloque uma samambaia em seu “cafofo”. Bom, lá no passado da série a personagem já havia mencionado a bendita planta.
– Rolou aula de defesa contra as artes das trevas. Mais uma menção a Harry Potter.
– John matou o irmão e eu comemorei o momento. Então me lembrei que ele está lentamente caindo em uma maré de escuridão, e me preocupei. Não matariam um pai de família, né? Pensem na pequena Sara, roteiristas.















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