As 10 Melhores Séries da HBO

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O canal a cabo mais prestigiado do planeta Terra redefiniu o conceito de qualidade e ousadia com suas produções televisivas e possui em seu catálogo algumas centenas de séries originais. Os colaboradores do Série Maníacos toparam o desafio de listar as 10 melhores. Todas as minisséries como Band of Brothers e The Pacific, não foram consideradas, apenas séries que tiveram mais de uma temporada. Confira a lista logo abaixo e não se esqueça de compartilhar conosco as suas séries favoritas da HBO na área dos comentários.

10The Newsroom – Por Raquel de Menezes

Aaron Sorkin é um polarizador e com The Newsroom não foi diferente. Mais polêmico que mamilos, ele escreve personagens que se expressam com toda convicção e nenhum remorso. É aquele esquema “ame ou odeie”, mas não se apegue a nenhum desses sentimentos, você há de oscilar entre os dois extremos pela mesma pessoa, eu prometo. São personagens muito bem escritos, e além disso, magistralmente interpretados. O elenco que nomes como Aaron Sorkin e HBO atraem é coisa linda de se ver. Jane Fonda, Chris Messina, Sam Waterston, Dev Patel, Olivia Munn, Alison Pill e a lista estrelada continua.

Seus textos causam, no mínimo, desconforto. Te obrigam a repensar e sair daquela velha zona de conforto. Se você não se incomoda com nada do que ouve nos episódios, you’re doing it wrong. The Newsroom teve uma vida curta de 3 temporadas e merece uma maratona caso você ainda não tenha se rendido aos encantos dessa belezinha. Se você gosta de textos inteligentes e ácidos, vai achar nela o seu lugar ao sol. Resumidamente, a série mostra os bastidores de um telejornal comandado por um âncora muito do arrogante interpretado brilhantemente por Jeff Daniels, o papel lhe rendeu um Emmy no ano de estreia (desbancando, pasmem, os favoritos Bryan Cranston por Breaking Bad e Kevin Spacey por House of Cards) e nominações nos dois seguintes.

Como todas as outras séries de Sorkin, The Newsroom explora os bastidores e mostra a vida profissional e pessoal de seus personagens. É uma série dramática, que aborda temas pesados, polêmicos, quiçá indigestos, mas que sabe balancear esse incômodo com um alívio cômico muito bem pontuado, um senso de moral inspirador e outro tanto de fé, que mesmo quando você discorda de tudo aquilo, você ainda chega no fim dos episódios com o peito cheio de esperança.

The Newsroom foi brutalmente criticada, mas ela fez o mesmo. Críticas políticas, sociais e principalmente ao formato do jornalismo atual eram constantes e afiadas. A série por vezes irrita na sua arrogância, mas ela também propõe debates, ela permite que os dois lados de cada argumento tenham voz e deixa por conta do espectador escolher seu lado. Porque certo e errado dependem de cada um de nós, não estamos falando de leis, mas de opiniões.

Quer decidir se The Newsroom é pra você ou não? A resposta está nos primeiros 8 minutos da série. Se você não reagir a isso, não perca mais seu tempo. Mas se você se emocionou de alguma maneira (eu me arrepiei e arregalei os olhos tal qual um desenho animado), seja bem-vindo ao fã-clube, aqui a grama é mais verde e sua carteirinha de SorkinManíaco será entregue em 5 dias úteis.

9Rome – Por Lucas Fernandes 

“Divide et Impera”

Bem antes das tramas fictícias de Westeros atingirem em cheio a televisão mundial, um drama de época baseado na Roma Antiga já trazia toda a complexidade política, traições e vinganças que a trama de George R.R. Martin alardeia em propagar. Uma das melhores séries da HBO, Rome é com certeza uma obra com impacto indubitável e uma das melhores produções da TV mundial.

Retratando com assombrosa fidelidade o período histórico que se encaixa entre os últimos dias da Republica e o nascimento do Império, a série criada por Bruno Heller, John Milius e William J. MacDonald é uma aula de como criar uma trama coesa com apuro histórico e apelo visual instantâneo. Utilizando da visão de dois soldados da 13ª Legião, Lucius Vorenus (Kevin McKidd) e Titus Pullo (Ray Stevenson) somos convidados a mergulhar de cabeça nos principais fatos históricos do período, assim como acompanhar a vida dos mais variados extratos da sociedade romana. A vida nos campos de batalha, nas casas dos grandes nobres e os bastidores do Senado, tudo escancarado, com as vísceras a mostra, não poupando nenhum detalhe. Passamos pela conquista da Gália, o retorno triunfal, o triunvirato, a conquista do Egito, a guerra civil, o Ido* de março, a ascensão de Octavius e surgimento do império; tudo com os mínimos detalhes numa torrente de conspirações, conflitos, alianças (e a quebra das mesmas) que deixam qualquer fã de drama político no mais puro paraíso televisivo.

Além da complexa trama política, a série ainda conta com uma das mais bem elaboradas reconstruções de período. Uma Roma viva como nenhuma outra. Cada canto foi minunciosamente pesquisado, planejado e reproduzido. O cenário construído dentro da Cinecittà, em Roma, é uma das coisas mais bem-feitas na televisão e ironicamente o motivo da ruina da série. O alto custo de produção (partilhado entre HBO e BBC), dificultou o planejamento para muitas temporadas, limitando às duas existentes. Mas isso não impede o desenvolvimento do magistral roteiro. Figurino, cabelo, maquiagem…. Tudo corrobora ainda mais com a construção da época.

Mas o melhor de tudo são os personagens. Mesmo que tenha figuras históricas como Julius Caesar (Ciarán Hinds), Gaius Octavius (Max Pirkis e Simon Woods), Marcus Junius Brutus (Tobias Menzies), Marco Antônio (James Purefoy) e Cleópatra (Linsey Marshall), é em Atia (Polly Walker) que a série se esbalda. Cínica, traiçoeira, manipuladora, ela está envolvida em grande parte dos acontecimentos da série. Sua constante sede por poder e sua eterna disputa com Servilia (Lindsay Ducan) está entre as melhores coisas já escritas para a televisão.

Se você pensa que Game of Thrones é badass você ainda não assistiu Rome. Suja, visceral, traiçoeira. Esqueça Westeros. É na Roma Antiga que as coisas acontecem. É quase impossível passar incólume a grandiosidade desta obra prima televisiva.

*Ido de março (Idus Martiae), é o dia no calendário romano que equivale ao dia 15 de março. Como o calendário romano não tinha dias correntes era marcado por ponto de referência, divididos em Nones (dias 5 ou 7), Idos (13 ou 15) e Kalenda (1º de cada mês). Ficou famoso por ser a data da morte de Gaius Julius Caesar.

8Sex And The City – Por Henrique Haddefinir

Em meados da década de 90, a HBO estreou uma série dramática chamada The Sopranos, que chegava a TV como uma proposta do canal para transformar conteúdo televisionado numa opção de entretenimento tão respeitada quanto a do cinema. Era um projeto ousado, que arriscava numa forma nova de se contar histórias e que – para sorte do canal – inaugurou o que ficou conhecido como Terceira Era de Ouro da Televisão. The Sopranos era o investimento do drama e para a comédia, Darren Star foi chamado para adaptar crônicas jornalísticas de uma escritora chamada Candace Bushnell, e transformá-los numa comédia homônima. O nome? Sex and the City.

A proposta era a mesma que deu carta branca para Sopranos, ousar, sacudir o gênero cômico do conforto das sitcoms e criar não só uma série, mas um elemento relevante da cultura pop. E embora Sopranos tenha sido muito importante e reconhecida no seu processo, Sex and the City conseguiu sair da tela para se tornar tendência, para virar símbolo de um feminismo provocativo e nada convencional (constantemente confundido com machismo disfarçado) e para representar uma mudança de comportamento na sociedade. O que Sex and the City ofereceu ao mundo foi muito mais do que uma pá de bons episódios.

No show, Carrie Bradshaw é uma jornalista que assina uma coluna sobre sexo e usa as próprias experiências e de suas amigas como matéria-prima. Carrie é uma solteira sonhadora, que funciona na série como uma espécie de instituição da própria cidade, usando o recurso crônico transfigurado em dramaturgia (algo nunca feito antes da TV), como ferramenta de onisciência dentro das tramas. Ela é apaixonada por um homem que chama de Big e que é a idealização masculina clássica. Ao lado dela, uma advogada cética e cínica, uma curadora romântica e conservadora; e uma relações públicas louca por sexo e alheia a compromissos.

Esses arquétipos dialogavam com a audiência usando sempre uma série de situações cômicas que os aproximavam mais ainda do interlocutor. Embora criada por Darren Star, foi Michael Patrick King o roteirista que imortalizou a identidade do show. Ao mostrarem mulheres falando de sexo, consumismo, preconceito e muitos outros tópicos polêmicos abertamente, a HBO novamente tirava o espectador de sua zona de conforto. Na metade de seu trajeto de seis anos no ar, Sex And the City já era um ícone fashion, um elemento de análise feminista e um provocador social impressionante. E o melhor: com um nível de aproveitamento de episódios que beirava o insano. Seis anos e praticamente nenhuma semana perdida.

Hoje em dia, Carrie, Miranda, Samantha e Charlote ainda são personagens que permeiam a cultura pop com grande relevância. O que faz com que o show seja essencial para qualquer espectador, qualquer indivíduo que pretenda ver a forma como uma série de TV consegue mudar algumas engrenagens da sociedade.

7Veep – Por Filipe Degani

A política e os políticos sempre nos proporcionaram situações tão hilariamente trágicas que custamos a acreditar se são verídicas. Os acontecimentos das últimas semanas no Brasil são prova disso. Entretanto, algumas produções têm a capacidade de oferecer um olhar mais acurado sobre os meandros deste universo tão distante, porém tão próximo de nós. O fato de possuir esta capacidade aliada a uma forte e bem-sucedida veia cômica é o que traduz a força de Veep, como uma das comédias mais premiadas da televisão e a mais bem-sucedida da atualidade.

A expressão “comédia da HBO” sempre afugentou algumas pessoas, já que de fato o “canal-que-não-é-TV” (mas uma verdadeira grife própria) muitas vezes já redefiniu o conceito de comédia (onde causar riso era um “detalhe”). Não é o caso de Veep. Com um roteiro bastante inteligente, ágil e cheio de referências verbais e não verbais que brindam apenas os espectadores mais atentos e antenados, Veep une um elenco afiadíssimo, capitaneado pela premiadaça Julia Louis-Dreyfus, que é Selina Meyer, a Vice-Presidente dos Estados Unidos da América, uma política deliciosamente medíocre, pretensiosa, preconceituosa, sem o menor tato, mas que se agarra a cada louca oportunidade de ter relevância (e ela nunca chega). Selina transforma em shit absolutamente tudo o que toca e para isso conta com o inestimável e imprestável auxílio de sua entourage, da qual se destacam Amy (Anna Chlumsky) – a workaholic sub-valorizada – e Gary (o monstro Tony Hale), o “homem da bolsa”, o mais íntimo de seus assessores, responsável pelos mais, digamos, “particulares” serviços e caprichos da Madam Vice President.

Um dos principais méritos de Veep está certamente em seu sarcasmo e na acidez de seu deboche em retratar o mundo do poder, evidenciando que os “poderosos” são pessoas tão (ou mais) dependentes, vaidosas, volúveis e aleatórias quanto os meros mortais. Em tempos de descrença e insatisfação generalizada com a política tradicional, Veep certamente é uma voz que (mesmo desprovida de qualquer preocupação panfletária ou didática) pode ser uma boa ferramenta para, através do riso, desconstruir ideias arraigadas sobre os bastidores do poder.

6Oz – Por Vera Tocantins

“Infelizes, moralmente comprometidos, complicados, profundamente humanos”.

Do livro Homens Difíceis

No Ano de 1997 a HBO, que era acostumada a apresentar somente comédias ou dramédias, estreava a série Oz, que mais tarde seria conhecida como a precursora das séries dramáticas televisivas. Mas, afinal, o que fazia de Oz uma série tão diferente de tudo que vinha sendo produzido até aquele momento? O que fazia com que OZ, série criada por Tom Fontana, desse início a uma nova geração de séries dramáticas? O seu formato singular! A partir de 1990 o FFC (reguladora televisiva americana), derrubou algumas regras e permitiu que histórias mais realistas fossem apresentadas nas séries televisivas, cenas que anteriormente eram proibidas (violência, nudez frontal, mutilação, autopsia e etc) passaram a aparecer com certa frequência nessas novas séries, dando uma pitada mais realista ao material produzido.

Com o lançamento de Oz, a HBO dava um salto qualitativo na produção de séries do estilo dramático e contemplava o seu público fiel com uma série que conservava os aspectos cinematográficos, marca permanente da HBO. O irônico de todo esse processo é que Tom Fontana ofereceu o seu projeto a HBO meio que por acaso, já que não acreditava que uma TV aberta pudesse produzir algo tão grandioso, optou pelo canal a cabo HBO. A diretoria da emissora reconheceu um certo pioneirismo, que era um projeto ambicioso, autoral e com uma narrativa dramática única e decidiu construir uma penitenciária completa num galpão em Manhattam para tornar a experiência de convivência na Oswald State Correctional Facility, o mais realista possível.

A premissa de Oz aparentemente não é complexa e já tinha sido apresentada em diversos documentários da própria HBO, mas consistia mesmo assim em mostrar ao público o cotidiano da Prisão de Segurança Máxima Oswald, também conhecida como Oz, incluindo todas as suas subdivisões como o corredor da morte, Emerald City, Unidade B, entre outras. Mas a série tinha como principal marca o realismo presente nas suas cenas, incluindo temas como sexo, violência, consumo de drogas, quebra de tabus, relacionamentos conflituosos e crimes diversos. Praticamente todos os episódios das seis temporadas de Oz passam-se dentro da penitenciária, projetando no telespectador uma sensação de claustrofobia, de confinamento e às vezes de medo. Todas as cenas externas são vistas em flashback, nos mantendo sempre dentro da perspectiva de quem está preso. De forma inédita OZ apresenta um recurso teatral ao conservar um narrador permanente (Augustus Hill), que quebra a quarta parede constantemente ao dialogar com o telespectador sobre a vida, a morte e os acontecimentos do cotidiano da penitenciária.

Dentro de Oz existiam ao menos seis gangues principais: os Latinos, liderados por Enrique Morales; os Italianos, liderados por Chucky Pancamo; os Negros, chefiados por Simon Adebisi; os Mulçumanos, chefiados por Kareem Said; os Arianos, liderados por Vern Schillinger e a gangue os Outros que não possuía líder e era composta por presos desgarrados. Todas essas gangues disputavam o tráfico de drogas, principal fonte de renda dos presos, que impunham as leis, inclusive as sentenças de morte. Esses conflitos disparavam questões raciais e religiosas, que constantemente usavam de uma linguagem chula e carregada de palavrões, fato comum a esse tipo de comunidade e que mantinham o sistema de propinas e favores dos policiais corruptos da Prisão de Segurança Máxima Oswald. Dessa forma, cada episódio era explosivo, recheado de situações inusitadas e nos colocava no lugar de um daqueles prisioneiros moralmente cinza. Ninguém ali é inocente, até mesmo Tobias Beecher que entra como aparentemente inocente mostra ali a sua pior face. Ninguém ali é um projeto acabado, mas um rascunho cheio de possibilidades e de revoluções por minuto.

Oz quebrou um outro grande paradigma ao apresentar sem reservas ou tabus um universo totalmente masculino, com abordagens com conotações sexuais/românticas homossexuais, com nu frontal (Christopher Meloni e Kirk Acevedo protagonizam várias dessas cenas), com cenas de sexo oral e masturbação entre os presos e com sequências de consumo de drogas como uma rotina comum dentro das penitenciárias americanas. Oz também acompanhou um dos casais mais festejados à época: Tobias Beecher e Chris Keller. O casal vivia literalmente entre tapas e beijos e mantinha uma dinâmica de conflito, dita, desdita e catarse que agradava em cheio ao público. O mais interessante sobre esse casal é que não havia todo aquele confete-novelesco-clichê de beijo gay, casal gay trágico ou a cena de intimidade entre um casal gay. Tudo era muito comum, natural e cotidiano, sem aquele tabu velado que ainda vemos em algumas séries em pleno século XXVI.

A HBO assinou contratos baratos com diversos atores para encampar esse projeto, o que possibilitou a contratação de um elenco numeroso, revezando cerca de 30 atores em sequências frenéticas, de muito contato físico e com um grande teor dramático. Agradou em cheio a crítica especializada, ganhou muitos prêmios e notoriedade, projetou vários atores ( Christopher Meloni, J. K. Simmons, Kirk Acevedo, Harold Perrineau, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Terry Kinney, Eamonn Walker e Ernie Hudson), trouxe Rita Moreno de volta a ativa e colocou a HBO num patamar mais alto. Assim, Oz merece um lugar nos corações de todos aqueles que gostam de uma série dramática bem-feita, com a marca do pioneirismo e uma estética revolucionaria para um show televisivo dos anos noventa.

5The Leftovers – Por Henrique Haddefinir

Num dia 14 do mês de outubro, 2% da população do planeta terra desapareceu misteriosamente num evento que foi considerado por alguns como o “arrebatamento cristão”. O problema é que não demorou muito para que o mundo percebesse que ao contrário do que dizia a mitologia bíblica, não foram levados apenas os justos que seriam poupados das grandes tormentas e sim todo tipo de pessoa, com todo tipo de caráter, o que levou a humanidade a começar a questionar os próprios princípios religiosos. Três anos depois do que ficou conhecido como A Partida Repentina, nenhum outro evento sobrenatural seguiu-se a ela e um mundo chocado, traumatizado e desnorteado, precisou tentar se reajustar ao presente.

A sinopse de The Leftovers pode fazê-la parecer uma daquelas “séries-de-boa-ideia” que se esgotam pelo meio do caminho. Mas, Damon Lindelof não investiria pouco em dramaturgia depois de sua controversa experiência no comando de Lost. Determinado a abraçar um projeto que lhe redimisse, Damon foi buscar no livro de Tom Perrota uma forma de convencer o espectador de uma vez por todas, a aceitar o mistério como parte fundamental da existência, seja ele desvendável ou não. Assim, The Leftovers foi anunciada desde o começo como uma série sobre os efeitos do que não se pode explicar e não uma série sobre dar explicações.

O primeiro ano foi conturbado, cheio de um excesso de drama que soou afetado para a maioria da crítica. Mas, a identidade visual, sonora e dramatúrgica de Damon estava se impondo numa trama em que a situação limite dos personagens era completamente original e sem precedentes. A estranheza dos episódios e o constante jogo de ambiguidades entre mistério e realidade não cativaram tanta audiência, mas construíram um programa de sensibilidade única. Foi apenas na segunda temporada que o equilíbrio transformou cada semana na apreciação de uma pequena obra de arte e The Leftovers se tornou uma das melhores estreias dos últimos anos.

Lindelof precisava conseguir colocar na tela uma dramaturgia tomada de uma atmosfera pesada, afinal de contas, o mundo tinha tido uma prova da existência de forças superiores, mas essa prova – ao invés de confirmar a fé das pessoas – colocou tudo em dúvida. Era como ter uma prova da existência de Deus, mas ter com isso uma humanidade em desordem, porque não era mais possível compreender as razões dele segundo o que as religiões pregaram no curso da civilização. As pessoas que foram levadas, foram levadas aleatoriamente, como a morte leva, e a morte é uma coisa terrena. Ao mesmo, pessoas desapareceram mesmo, e isso não é uma coisa terrena, é uma coisa que fica no campo do sobrenatural, do metafísico. Essa dualidade que é preciosa no show e que junto com todo o trabalho impressionante de metáfora e analogia, tornaram-no obrigatório para todos que queiram ver coisa boa na TV.

4Game of Thrones – Por Thiago Leal

“A Melhor Série de Todos os Tempos”

Não, não sou eu quem está dizendo isso, foi a própria HBO Brasil na divulgação da 5ª Temporada de GoT que utilizava essa humilde chamada para o seu público, e o fato é que eles têm certa razão…

Não que Game of Thones seja a melhor série da atualidade e muito menos “de todos os tempos”, mas certamente é o maior fenômeno televisivo de nossa geração. A questão do “melhor” é pessoal de cada telespectador, já a questão do fenômeno é facilmente mensurável por meios científicos.

Desde que comecei a acompanhar séries, já vivenciei alguns fenômenos e suas repercussões na cultura pop… Pude ver o final de Friends e como este se tornou um marco na televisão… O nascimento, a ascensão e o declínio de Lost, que trouxe o público para junto da TV de forma definitiva, dando início às produções modernas… E mais recentemente, Breaking Bad conseguiu o que mais nenhuma outra série havia conseguido nos últimos anos: aceitação plena de crítica e público. Na própria HBO (que reinou solenemente durante anos como o reduto da boa televisão), vimos alguns fenômenos como The Sopranos, The Wire, Six Feet Under e até mesmo True Blood (em seus primeiros anos), mas todas acompanhadas de um pequeno asterisco.

O asterisco não dizia respeito à qualidade textual das citadas séries, mas sim de seu apelo popular. A HBO sempre teve a fama de fazer séries de qualidade, mas não atingiam o “público geral” e algumas tinham até a ingrata fama de serem demasiadamente cult para as grandes massas… Até chegar Game os Thrones.

Game of Thrones pode não ter a qualidade textual das cultuadas séries que a antecederam, mas certamente tem o já famoso “padrão HBO. É o melhor de dois mundos… É absolutamente bem produzida, utiliza-se de ferramentas dramatúrgicas que fizeram o sucesso de seu canal (uso de violência, sexo, algo mais visceral), tem um elenco muito competente, efeitos especiais impressionantes, toda essa pecha de mega produção, e por outro lado também tem um lado popular imenso. É capaz de prender o público – aliás, prender qualquer público, independentemente de sexo, idade, nível de instrução – de fazê-lo criar teorias, fandoms, e assim transformar a disputa pelo trono de ferro de Westeros num verdadeiro universo a ser explorado pela HBO. É aquele tipo de série que literalmente para o mundo enquanto está sendo exibida, obrigando aqueles que não a assistem a se afastarem temporariamente das redes sociais e mesas de bares onde os GoTManíacos entrarão em horas de discussões sobre os últimos acontecimentos ou spoilers, ou até mesmo as famigeradas discussões livro x série…

Enfim, a presença de Game of Thrones em qualquer lista de melhores séries se justifica pelo que a série representa na atualidade… Ela não está aqui por ter revolucionado a forma de fazer TV no geral, mas sim, por ter revolucionado a forma da HBO fazer TV, sem deixar de ser a HBO.

3Six Feet Under – Por Camis Barbieri

Six Feet Under pode não ser a série número 1 nessa lista (o que é uma tremenda injustiça, fica o protesto), mas sem nenhuma dúvida, ela é a série favorita de muita gente e está no topo da minha lista pessoal há muitos anos. Tendo a morte como tema principal, imortalizou-se para sempre na história da HBO e da TV.

Com uma trama intensa e uma proposta bastante ousada, Six Feet Under criou estilo e linguagem próprias ao colocar em destaque a família Fisher e a rotina de quem trabalha todos os dias numa casa funerária. Os sonhos e fantasias de cada personagem, que permeiam a trama aqui e ali, ajudam na construção desse clima surreal, existencial e até psicodélico, em inúmeras ocasiões.

Seu texto é impecável, provocador e verdadeiro. Quando juntamos a isso as interpretações sofisticadas de atores como Frances Conroy, Lauren Ambrose, Peter Krause e Michael C. Hall, todos membros da família Fisher, além de Rachel Griffits e Jeremy Sisto, o resultado é um verdadeiro espetáculo de risos e lágrimas. A entrega emocional desse elenco é um dos grandes trunfos da produção e torna impossível para o espectador fugir da atmosfera de envolvimento que é construída durante suas cinco temporadas.

Cada episódio começa mostrando uma morte e suas consequências, assim como a série começa mostrando a morte do patriarca da família, Nathaniel Fisher, e segue pontuando os impactos disso, numa relação de micro e macro. Allan Ball, criador de Six Feet Under, utilizou sua experiência pessoal com a morte de diversos parentes e todo seu tempo dentro de casas funerárias nesse período (quando ele era criança, perdeu a irmã, o pais, avós e tios num período de poucos anos), como inspiração para criar a série sob a ideia de que a morte é (quase) sempre inesperada e surpreendente, mesmo sendo uma verdade universal (todo mundo morre, afinal).

O que faz dessa uma série universal e com quem todos nós nos relacionamos facilmente é o flerte constante do roteiro com o medo da morte que todos nós sentimos em alguma esfera, por nós ou por aqueles que amamos. O “sentido da vida”, no significado amplo dessa expressão, também é assunto central na trama e faz o espectador refletir a respeito de sua própria existência.

Six Feet Under, com tudo isso, é mais do que uma série de TV, é uma experiência para ser vivida e sentida profundamente. Se você ainda não teve a chance de assistir, permita-se, entregue-se. É impossível passar por um episódio sequer de Six Feet Under sem questionar absolutamente tudo aquilo que você julga que conhece.

2The Sopranos – Por Sr. Hericles

A herança que The Sopranos deixou para a televisão é ridiculamente vasta e rica. O programa alterou de um jeito drástico e extremo a maneira como as histórias são contadas na TV, alcançando o respeito da crítica e do público para um formato que antes não era considerado uma forma de arte e apenas entretenimento casual. Por mais que séries anteriores flertassem com algumas destas ideias (como Oz), foi The Sopranos e o seu espírito semi-cinematográfico que trouxe para os holofotes o potencial único da televisão. Após a série, o mundo passou a olhar para a televisão como uma mídia capaz de tecer histórias tão intrigantes quanto as contadas no cinema. Pode não ter sido a maior revolução comercial no histórico da HBO, mas certamente trouxe mais inovações narrativas do que qualquer outra produção do canal. The Sopranos é para a televisão o que Cidadão Kane é para o cinema.

Há quem não tenha afeição emocional com a série e por isto não compreenda a sua importância. Bem, é aí que está: a genialidade de The Sopranos reside na sua capacidade de entender que ela não precisa da simpatia do espectador. Os seus personagens são pessoas violentas e com morais corrompidas e em momento algum a série se esforça para conquistar o coração da audiência. Foi The Sopranos que começou a convenção que até hoje reina nos dramas americanos de desenvolver anti-heróis como protagonistas. Foi quando os produtores entenderam que os espectadores estavam dispostos a conviver com heróis que poderiam e deveriam ser questionados. Banalizar a relevância de The Sopranos para a fórmula narrativa da TV é banalizar Breaking Bad, Mad Men, The Wire, Sons of Anarchy, Six Feet Under, House of Cards, The Shield e todos os outros dramas sóbrios e de valores multidimensionais que adotaram a filosofia da obra de Chase.

Tony Soprano é muito possivelmente o maior personagem que já passou pela televisão justamente porque a série se preocupou em esculpir uma figura complexa e não um indivíduo amável. Tony possui um leque de emoções que até hoje permanece inigualado, sendo capaz de cometer crueldades inomináveis e ao mesmo tempo de ser virtualmente caridoso e sensível. Ele não é um modelo de personagem metódico como os heróis byronianos que hoje infestam a televisão e se auto-declaram profundos. Tony não passa de bom a mau ou de mau a bom. Ele não é um anti-herói que satisfaz a audiência fazendo justiça com as próprias mãos, ele mata inocentes para agradar o próprio ego. O arco dramático de Tony não é claro e linear porque ninguém é claro e linear.

As mudanças que o personagem sofre ao longo da série são quase que invisíveis aos olhos do espectador tradicional, pois os efeitos da violência na sua psique são retratadas através das suas ações mundanas. É quando se analisam as pequenas nuances na postura do personagem que se compreende porque ele ainda não foi superado e porque não será tão cedo. Tony é construído com base em contradições e vazios emocionais. Ele diz que ama a família, e de fato ama, mas trai a mulher e maltrata os filhos. Ele se compromete a ser um líder racional, mas espanca um dos seus próprios homens para se sentir bem sobre o seu próprio corpo. Ele se sente próximo da terapeuta, mas a vê como um objeto. Ele protege a irmã apenas para depois machucá-la mais do que qualquer um. Tony é difícil de decifrar porque foi escrito como uma pessoa real. Ele não é um personagem romantizado, é um chefe do crime obeso e exausto numa máfia obsoleta e baseada em ideais idiotas.

Num tempo em que somos capazes de tornar monstros voadores e super-humanos em realidade, The Sopranos é o testemunho de que o mais interessante ainda está na mente de um homem com ambições ruins.

1The Wire – Por Aaron Engel

“You come at the king, you best not miss.” 

Omar Little

Nenhuma série da televisão americana até hoje ouviu o conselho de Omar. Não que elas tenham errado. Elas não tentaram mesmo.

É complicado falar sobre o legado de The Wire quando ele pouco se materializa em séries posteriores ao período 2002-2008 no qual a série da HBO foi transmitida. Às vezes showrunners citam a série como inspiração para seus projetos (Daredevil e Luke Cage são os últimos exemplos), mas apenas como recurso estilístico de realismo e violência. Ter a ousadia de criar uma obra tão complexa, multifacetada e despreocupada com acessibilidade é algo ainda inédito no mundo dos seriados.

The Wire é a primeira colocada desse pódio em função de sua inacreditável reconstrução da realidade de Baltimore no início do século XXI, que por vezes reflete com precisão assustadora nossos problemas no Brasil. A eterna e virtualmente inútil guerra às drogas. A corrupção sistêmica nos órgãos públicos. A educação de péssima qualidade que vai empurrando sutilmente crianças carentes para o crime. O jogo político de interesses que sempre privilegia o indivíduo ao invés da coletividade.

Você terá momentos de prazer e até de alívio cômico assistindo The Wire, mas esta não é nem remotamente uma série “alegre”. Seu coração será arrebentado e jogado no lixo com os acontecimentos que verá pela sua frente. O final feliz nunca chegará. A fuga da realidade que um expectador normal procura ao se submergir no mundo das séries não dará certo aqui: essa mesma realidade olhará de frente para você, dura, gelada e impiedosa.

Talvez você perca as esperanças com a humanidade assistindo The Wire. Em compensação, sua avaliação do poder narrativo de uma série de TV será para sempre transformada. Indeed. 

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