A TV mundial adotou a personificação do anti-herói como protagonista das suas séries. Jack Bauer é o agente que usa de meios ilícitos para alcançar seus objetivos. Nada de escrúpulos, nada de regras, nada de formalidades, nada de ética, moral ou qualquer livro que enquadre um biotipo na convenção dos politicamente-corretos. O personagem de Bauer é apenas um entre tantos que usam aspirina no meio das cenas de ação, tem problemas no matrimônio e são amados/odiados por sua equipe de missão.

Em “Hunters” do canal Syfy, nenhum personagem, ao menos no episódio piloto, tem o carisma do ex-agente da CTU, mas sobram bad boys tentando fazer as coisas certas. Um deles é Flynn, interpretado pelo péssimo Nathan Phillips. Flynn fez parte de uma equipe antiterrorista e que hoje tenta experimentar uma vida familiar mais tranquila com a professora de piano Abby Carroll (Laura Gordon) e sua filha Emme (Shannon Berry). Atormentado pelas lembranças da vida de combate (ah, sério?), o personagem de Phillips agora precisa lidar com o sequestro da sua esposa. Este evento é responsável pelo encontro do agente com a Unidade de Exo-Terrorismo e seu líder Truss Jackson (Lewis Fitz-Gerald), responsável pela caçada aos “hunters”, uma espécie de humanos híbridos, uma junção entre ets e terrestres. Junto com Jackson, a dúbia agente Regan (Britne Oldford) e o agente Briggs (Mark Coles Smith); a turma principal, que com suas armas sonoras, correm atrás de homens que pulam de árvore em árvore e fazem um barulho estranho, que lembram os efeitos de “The Strain”.

A série não se preocupa em seduzir em momento algum. Não se explica, não adiciona mistérios realmente intrigantes, não se motiva em contar ao público o que está acontecendo de verdade. Se não quer contar tudo, que deixe uma linha condutora que desperte o interesse, buscando responder perguntas contidas no piloto, fazendo-o suspirar pelo próximo episódio. O leque de opções dado ao público americano deveria ser uma preocupação de quem escreve uma série que chupa elementos de outras (como a estética The Walking Dead), sem a mesma competência e honestidade. Basta lembrar que quando a “onda Crepúsculo” invadiu os cinemas, os produtores de TV foram atrás de quem pudesse elaborar um material que invocasse o sangue vampiresco novamente na telinha. Muita coisa ruim caiu pelas tabelas, mas “True Blood” e “The Vampire Diaries” fizeram história, cada um dentro do seu público e expectativas. “Hunters” não tem nada de aprazível ou instigante, onde a relevância da sua produção busca o terror de boutique, sem detalhar os parágrafos de um script que tem potencial, apesar dos clichês.

Se a gente levar em consideração que o canal tem a boa “The Magicians”, acredita-se que exige potencial para achar roteiros que mereçam um tratamento menos obscuro. Nada funciona em “Hunters”. Um exemplo óbvio disso: fica claro que Regan esconde alguma coisa a partir do diálogo que teve com a personagem do sumido Julian McMahon, mas falta sutileza na hora de interpretar o silêncio. Está entregue, não existe contrição suficiente para nos convencer que McCarthy está nos enganando, fazendo com que a audiência se surpreenda pelo menos óbvio. Nada. Já sabemos que ela é “complicada”, que tem uma relação estranha com Briggs e que se dane eu e você. Ao mesmo tempo que está fácil, está sem capricho.

A violência do piloto é tão primária e gratuita, que é difícil se identificar com o sofrimento de Abby, a personagem que de tão bem esconder seus mistérios, ficou encolhida em uma gaiola à revelia de quem a submete sob tal humilhação. Nada de um flash-back, nada de uma descoberta inquietante, nada de surpresas. “É um gato na cozinha”. Poderia ser o vento na porta ou a roupa no varal.

“Hunters” está entre os piores pilotos produzidos na temporada americana. Cedo para dizer quanto tempo irá respirar, mas não é tarde para pular fora logo no início. Eu avisei, como no comercial: fuja do mico.

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