Quando menos se espera, Lie to Me faz o melhor episódio da temporada.

Spoilers Abaixo:

É fato que Lie to Me vinha sofrendo de um grande problema. A não existência de uma storyline somada à baixa qualidade dos casos apresentados, além de uma super exposição de Lightman à situações que soavam cada vez mais exageradas contribuiram para que a série tomasse um caminho perigoso para seu futuro. Qualquer um perceberia o que estava acontecendo, e parecia que os roteiristas demoravam a notar o óbvio. Até que finalmente, em The Canary’s Song, a série parece querer voltar ao bom caminho de seu começo, além de desenvolver uma história, mesmo sem fazê-lo com total eficiência.

Essa semana somos apresentados à Gil Wallace, diretor de uma empresa de mineração, cuja mina veio a explodir após um vazamento de metano. Os mineiros agora culpam a empresa pela morte de seus cinco colegas, além do capataz, o Big Brother. Esse último na verdade não faz nenhuma falta aos trabalhadores, uma vez que tornava a vida deles um inferno. Com isso, a empresa chama o Lightman Group para investigar a veracidade das informações fornecidas pelos mineiros e confirmar ou não a culpa dos trabalhadores na explosão. Além disso, o FBI procura Lightman pedindo ajuda na prisão de alguns bandidos, já que Cal foi flagrado em uma partida de pôquer com os mesmos. Foster resolve então cuidar disso enquanto seu sócio trabalha na mina.

Na primeira temporada, víamos em quase todos os episódios a existência de dois casos separados, normalmente sem nenhuma ligação entre eles. O foco costumava ser na ciência da detecção de mentiras e não em seu protagonista. Na segunda temporada a entrada do FBI praticamente transformou a série em uma trama policial, muito embora os elementos da ciência continuassem presentes. Na terceira, vimos a série se perder ao tentar se reestruturar. Pelo menos até agora. The Canary’s Song volta a apresentar dois casos, um deles podendo ser considerado como avulso, e é por ele que começo minha análise. A história que dá nome ao episódio nada tem a ver com o desenvolvimento dos personagens, mas volta a apresentar ao espectador uma trama diferente, com Lightman deixando de dar uma de Charlie Harper para encarar de frente um desafio interessante.

É verdade que o desenvolvimento do caso não chega a criar nenhum suspense, mas dessa vez essa é a intenção. Logo nos primeiros minutos sabemos que a chance de Brian estar envolvido na explosão era praticamente de 100%, e nas cenas seguintes já sabemos que ele não é o único. Resta saber então se houve a intenção em matar as seis vítimas, ou se o alvo era apenas o capataz, ou então se houve intenção de assassinar alguém. Nesse ponto, o roteiro do episódio acerta em atirar Lightman e Loker sozinhos para enfrentar os mineiros e a bartender Connie, cujo primo morreu na explosão. Usando bem de suas habilidades de percepção, Lightman consegue quebrar o laço que une os amigos e arranca a verdade. A série sentia falta desses momentos mais científicos e menos de ação. É bom ver que os roteiristas se lembram que a proposta da série nunca foi tornar-se uma CSI da vida.

Se o caso principal não foge muito do que estamos acostumados a ver, a trama paralela é importantíssima para o futuro da série. É verdade que alguns podem dizer que é um caso sem nenhum aspecto importante e com um desenvolvimento óbvio e banal, o que não é mentira. O que confere peso a essa situação é o aprofundamento no que se tornou a ideia central da temporada: a personalidade de Lightman e como ela pode pôr tudo a perder. Com apenas alguns minutos focando-se nisso, é possível notar como o dono da empresa está correndo riscos desnecessários ao buscar uma maior curtição. Aliás, desde o começo da temporada é isso que estamos vendo. Aqui, o envolvimento do FBI torna evidente que o doutor precisa urgentemente de uma reciclagem, já que está levando tudo que conquistou para o buraco. Além disso, é bom ver Torres e Foster envolvidas em situações diferentes das de Lightman e Loker. Acredito que a série não tem nada a ganhar quando busca envolver os quatro personagens principais em uma trama só. Pelo contrário, vimos que isso só traz aspectos negativos para a série.

Mas o que torna The Canary’s Song o melhor episódio da temporada é justamente o desenvolvimento de seus personagens. Semana passada, pela primeira vez a série nos deixou um gancho, que, apesar de não ter sido aproveitado explicitamente aqui, foi mostrado nas entrelinhas. Nos primeiros minutos, em um dos únicos diálogos entre Lightman e Foster, fica evidente a tensão e o clima pesado entre os dois. No fim, a série novamente nos deixa um cliffhanger, ao encerrar o episódio mais uma vez com os dois juntos, dessa vez em um momento romântico e prestes a se beijarem. Dessa vez eu acredito que a série inicie o próximo episódio exatamente nesse ponto, do contrário seria um erro primário. Além disso, é importante perceber o contraponto entre o final de Double Blind e o final de The Canary’s Song. Enquanto em um os dois terminam o episódio em caráter de briga, no outro a situação não poderia ser mais diferente. Em uma série que investe muito em psicologia para explicar seus casos, nada mais justo que abordar a tênue linha entre o amor e o ódio, que inclusive explicaria as insanas atitudes de Lightman e seu repentino interesse por pegar todas as mulheres do mundo. Foster, psicóloga como é, talvez tenha percebido isso, daí sua mistura de compreensão e falta de paciência nos últimos episódios.

Desenvolvendo muito bem sua história a ponto de finalmente transformá-la em algo que pode se chamar de uma trama principal, Lie to Me consegue finalmente trazer interesse para o espectador em sua até aqui fraca terceira temporada. Espero que nas próximas semanas a série não ponha tudo a perder e continue nessa linha.

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