Arrow permanece lutando contra uma enchente de más decisões

Toda série passa por meses de planejamento. Quando uma temporada termina e o elenco é liberado para tirar férias e inundar o instagram com recortes de seus melhores momentos, o time criativo está sentado em uma sala decidindo como será o próximo ano daquela produção. Várias escolhas são feitas, muito é ponderado e até mesmo a possibilidade de uma morte é jogada na mesa. É comum, faz parte do procedimento e representa o direcionamento dos próximos vinte e tantos episódios que chegarão. Arrow começou seu processo de criação da pior maneira possível, com uma morte inevitável. Lentamente a proposta girou ao redor de quem seria a figura misteriosa, responsável por tirar Barry Allen de Central City e também pelo discurso enraivecido de uma personagem que até então prezava pelo lado não letal de seu companheiro. Terminado Eleven-Fifty-Nine a impressão final é a de que estamos vivendo uma constante de más decisões e que, mesmo sem ter certeza absoluta do desfecho que culminou na morte de Laurel Lance, esta será apenas mais uma para a ficha de escolhas erradas de um time que não entende mais como conduzir sua própria série com dignidade.

Arrow não é mais uma produção de super-herói. Pelo menos não quando é colocado na balança o que realmente recebe atenção do roteiro. Apenas quando Thea menciona que iria para a rua, bater em alguém, eu me lembrei que estamos encarando um grupo de vigilantes que deveria, na teoria, manter Star City livre de qualquer tipo de criminoso. Não apenas do vilão da semana, que é retirado das páginas das histórias em quadrinhos para muitas vezes nem ao menos ser bem aproveitado, ou do grande antagonista da temporada, que oferece um risco nunca imediato. Um super-herói precisa estar na rua, salvando o transeunte indefeso de ser roubado, mostrando que existe alguém defendo aquela sociedade de problemas comuns. É o brilho de se lidar com pessoas que não possuem superpoderes e apenas almejam transformar o local onde moram em algo mais seguro. Mas você já parou para pensar quantas cenas foram mostradas com os personagens que se intitulam heróis, lutando e demonstrando essa preocupação (neste ano)?

São pouquíssimas montagens que remetem a algum tipo de cuidado na imagem do herói além das suas interações com o mal supremo da temporada. Tirando a da Laurel no tribunal e sem máscara, apenas a decorrente da participação da Nyssa faz esse paralelo, e mesmo assim de uma maneira desajeitada em que o combustível era a vida da irmã do protagonista, principalmente. Todo mundo ali é dano colateral. Cupido veio, começou a matar celebridades, mas o foco era no casal Oliver e Felicity. Ela surgiu para impulsionar a história dos dois e só. Não estamos mais encarando uma série que preza pela construção lenta de uma temática de heroísmo. Estamos acompanhando o Arqueiro Verde e seu interesse amoroso sobrevivendo a qualquer adversidade. E por esse motivo qualquer coadjuvante ali serve apenas como um acessório. Fica mais evidente ainda quando você se lembra que Lyla é a diretora da A.R.G.U.S., mas só a acompanhamos assim em The Flash.

Pouco destaque é dado para quem realmente merece. Laurel Lance é uma personagem que esteve, por quatro anos e meio, em um turbilhão de emoções e com um crescimento que rivaliza com o do próprio protagonista. Como coadjuvante ela persistiu e perdurou. Foram arcos definidos para mostrar que aquela mulher possuía força e engajamento em sua própria definição como pessoa. Só para fazer um panorama rápido, a Canário Negro precisou superar a morte da irmã e do ex-namorado canalha, a volta do agora bom ex-namorado, a morte do atual namorado, alcoolismo, a doença cardíaca do pai, a volta da irmã e a morte dela, de novo, sua ressurreição, um julgamento e o fantasma do mal aproveitamento. Sua morte destaca um sabor amargo e reflete um comportamento vergonhoso por parte dos roteiristas da série e de seus produtores. Quem recebe o verdadeiro valor é outra, a que vive de uma bipolaridade temerosa, feliz em alguns momentos, incompreendida em outros, desferindo indiretas ácidas e se recolhendo da luta por não poder conviver com o antigo noivo. Essa é a mensagem. Essa é a preocupação central.

Mesmo que muita coisa tenha desviado meu foco durante o episódio, ainda existem outros pontos válidos de menção. Thea está progredindo bem dentro do desenvolvimento entre ela e Merlyn. Já é possível ver um tipo de crescimento para a personagem, algo que talvez a force a abandonar a série futuramente e quem sabe até incluir outra despedida, mas talvez não mais uma morte. Os próximos episódios serão galgados em uma extrema absorção de culpa. Todo mundo ali tem motivos para se responsabilizar pela morte da amiga. Diggle recusou enxergar a natureza do irmão, apesar de ter um bom motivo para isso, além de ter entregado um belíssimo resumo do que o Oliver é hoje. Sem esquecer da culpa da Thea, que viu o grande plano que culminou na morte de Laurel nascer através das mãos de seu pai. É muito potencial bom para dar destaque para os coadjuvantes e explorar o lado emocional de cada um deles. Tudo depende, é claro, de como a série irá desenvolver essa temática e se ela conseguirá se desprender de Oliver e Felicity para tal.

Infelizmente o que Arrow está fazendo através das mais diversas propostas de mudança no status de seu herói, é criar momentos em que a imagem da mulher é meramente um caminho em busca da transformação de um homem em um “farol de esperança”. E é aqui que o grande problema da série é colocado em destaque, pela enésima vez. A morte está sendo usada da maneira errada. É a mulher dentro da geladeira, que precisa ser apagada, independente da sua força, do seu carisma, das possibilidades ao redor dela como ser humano, apenas para motivar um super-herói a continuar lutando. Morte é parte da realidade do mundo real e também do fantasioso. Nem sempre ela precisa ter um motivo, ou explicação. Em Arrow ela sempre é utilizada como força motriz para modificar a imagem do vigilante e impor algum tipo de “gás” a mais para impedir o plano do vilão. Moira, Sara e Laurel, todas tiveram um “fim” para garantir que Oliver pudesse continuar lutando. É estranho perceber que a série escolhe tratar a mulher como objeto ou objetivo.

Eleven-Fifty-Nine é sim um bom episódio, mas com um final que demonstra a quantidade de más decisões feitas pelo time que está por trás da produção. Foram ótimos os momentos ao redor de Oliver e Diggle. Uma bela sequência com a revolta dentro da prisão. Contudo, no meio de tudo o que era forte, existiram períodos de extrema falta de tato. Como que o ídolo que o vilão precisava para recuperar seus poderes estava remontado e aparentemente ainda funcional, em um display transparente e não em um cofre? Novamente a série pegou o trabalho de uma mulher e o desprezou completamente para atingir o seu objetivo. Vixen teve um destaque imenso, uma construção de cena poderosa, mas que hoje não faz o menor sentido, já que o fruto de seu trabalho foi jogado pela janela em prol do retorno de um vilão extremamente mal utilizado. Na verdade parte do poder do episódio nem mesmo vem da morte, mas da boa crescente de utilização de Neal McDonough e John Barrowman.

Ainda não consigo ter certeza da morte da Laurel. Ainda não sei exatamente o que Arrow quer demonstrar ao limar uma personagem com tanto potencial. É doloroso e enervante notar que a série não está preocupada em trabalhar para ficar forte, mas sim decidida a transformar tudo o que (ainda) a faz interessante, em cinzas. Um destruição em prol de uma meta que nem ao menos está definida. Foram períodos em que eu sinceramente questionei minha posição como telespectador, sem ter certeza de ter acompanhado todos os episódios da temporada com atenção. O que realmente impediria Laurel de continuar como Canário, enquanto trabalha como promotora? A série já a definiu em importância judicial como alguém bem próxima de uma. Não faz sentido. De que lugar tiraram que o melhor momento para uma despedida seria com Oliver, cruelmente riscando o detetive Lance da equação? Quem imaginou que a Canário Negro merecia um adeus em um leito de hospital confessando estar feliz por Oliver e Felicity? Esse tipo de recurso é vergonhoso, pois demonstra que a principal missão, de novo, é a de prender o casal em uma camisa de força impossível de ser destruída. Uma maneira de mais uma vez colocar esse amor como progressão da história. É forçado. É depreciativo com a personagem e desrespeitoso com o telespectador que não dá a mínima para o romance que está afundando a série do Arqueiro Verde e a transformando em uma sombra do que ela um dia já foi. E claro que tudo isso ainda pode terminar como uma grande brincadeira. Uma morte que não se concretizará mesmo depois de ter “ouvido” do produtor executivo da série, Marc Marc Guggenheim, que aquele fim seria definitivo – naquela Terra, pelo menos. Na altura do campeonato não seria surpresa nenhuma terem criado um momento apenas para fingir mais uma morte, mas se for o caso, apenas ficará estampado que o bingo de decisões erradas de Arrow está faturando mais do que o desejo em criar um bom show.

Easter eggs e outras informações

– R.I.P. Laurel Lance – ou pelo menos até que seja realmente confirmada a sua morte.

– Laurel irá aparecer novamente, mas em The Flash e como sua versão alternativa, Black Siren/Sereia Negra. Como na Terra-2 toda versão apresentada de um herói da Terra-1 é um vilão, podemos esperar uma Laurel Lance menos amigável.

– Quando Dahrk está falando a respeito do ídolo ele menciona a palavra ‘homo magi’, que é como é conhecida a raça de humanos com dons mágicos. Zatanna é uma homo magi.

– Agora só falta a Felicity decidir virar a Canário Negro para honrar a imagem da Laurel e jogar a última pá de cal que Arrow estava precisando.

– Pelo menos Arrow não deu uma de The Walking Dead e esperou o season finale para não revelar a morte de seu personagem.

– Andy, observando a sua trajetória eu só consigo pensar em decepção. Para acompanhar minha reação, clique aqui.

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