Um episódio divertido para uma série que não consegue se encontrar.
Toda série passa por transformações. É preciso se adaptar ao mercado para permanecer relevante e atrair nova audiência, além de fidelizar a antiga ao sempre movimentar a trama e não cair no perigoso mais do mesmo. Com Arrow não poderia ser diferente, com apenas um importante detalhe, as grandes mudanças que existiram dentro da identidade do programa hoje demonstram a posição real da produção: perdida. Uma série que começou profundamente escura e cheia de questões filosóficas, atravessando com certo charme o conceito de heroísmo e entregando uma identidade bem forte, hoje demonstra uma salada de várias temáticas, várias abordagens e os mais diversos tons. Ou seja, quatro anos depois, não é mais possível utilizar a frase acima para ponderar a respeito do andamento da trajetória do Arqueiro Verde na televisão. É uma verdadeira crise de identidade, que até seria interessante caso a proposta fosse essa, mas não é.
Arrow já está entrando na reta final do seu quarto ano, mas o que a difere e muito do que havia sido apresentado durante os dois primeiros é a própria identidade da série, que não representa mais o que ela foi. A reinvenção para a série do arqueiro foi tão grande que fica difícil não fazer coro com a crescente maré de criticismo em cima do seu calcanhar de Aquiles: Felicity Smoak. Mesmo dentro de um episódio utilizado para separá-la da trama da “caverna secreta”, tudo o que aconteceu foi, mais uma vez, uma temática apoiada quase inteiramente na personagem. Foi até divertido seguir uma roupagem diferente para a presidente da Palmer Tech. Na verdade nem posso dizer que foi diferente, a posição de Felicity foi bem próxima ao que ela era lá na primeira temporada, quando sua presença ainda era comemorada e não apenas lamentada pelos fãs – uma parte deles, pelo menos. Divertida, verdadeiramente útil e quase desconectada do Oliver.
Beacon of Hope funciona porque é divertido, mas também destaca os maiores problemas apresentados pela construção do roteiro e da trama geral da temporada. Colocar o Curtis para assumir a posição de Overwatch, mesmo que temporariamente, mudou para melhor a dinâmica do episódio. Existiu uma grata transformação na maneira como o time passou a funcionar, algo que permitiu até mesmo um destaque pequeno, mas existente para Laurel Lance e seu pai. Tudo só foi possível devido a saída de Felicity e entrada do futuro Mr. Terrific. E apesar de ter a noção de que toda a construção ali dentro é temporária, eu não reclamaria se a ex noiva do Oliver decidisse tirar umas férias bem longe de Star City.

Novamente ter Laurel aconselhando o Oliver, principalmente após a explosão do Arqueiro com o novo suporte técnico do grupo, além de ver o detetive Lance brincando um pouco, acrescentou uma interação legal para o time. O farol de esperança surgiu não apenas porque é uma conexão bacana com a fundação do eternamente Superman, Christopher Reeve, mas a respeito da própria mudança na abordagem dos personagens centrais. Dá para fazer um bom episódio sem precisar desenvolver tudo ao redor do relacionamento do herói com a mocinha, mesmo que no final a trama tenha criado uma situação em que apenas Oliver poderia salvar Felicity – e olha que o golpe final foi o dela e não dele, assim como o fim do noivado. Explica muito a respeito de quem é o Arqueiro Verde fora da máscara e do uniforme. Laurel funciona bem porque o texto permite uma conexão mais intima com o protagonista. Um espaço que a confere abertura para questionar e trazer o herói de volta para a realidade. Também ajuda o fato de não ter um drama excessivo ao redor dos dois. Quando vejo por essa ótica fica até complicado imaginar que aparentemente esse destaque possa estar conduzindo a personagem para um fim. E isso me dá muito medo.
Quem também ganhou um pequeno momento para brilhar foi Damien, reforçando até um detalhe que eu havia chamado atenção no passado. Enquanto agia como o líder da H.I.V.E. Dahrk nunca prezou pela sutileza e tocou o terror, literalmente. Acompanhar o roteiro desenvolvendo um personagem através das consequências dos seus atos garante uma importância grande para a progressão da temática. O que não significa que uma cena apenas seja o suficiente para apagar a lentidão e a falta de posicionamento que o vilão (nem dá para chamá-lo assim) apresentou durante dezesseis episódios. Foram dezesseis capítulos em que tudo girou ao redor de uma bagunça gigante. Caminhamos muito, mas não chegamos a lugar nenhum. No passado Arrow fazia questão de nos tratar como uma massa inteligente de consumistas, sempre ávidos para ter mais daquelas histórias intrigantes e agir como membro da equipe. Hoje estamos à deriva e sem bote salva vidas. Lembra do encontro entre o Arqueiro e Slade Wilson na mansão Queen? Do julgamento e morte da Moira? Lembra quando o roteiro te prendia e costurava uma história interessante e com foco, mesmo quando trabalhava um filler? Por isso foi interessante ver a série reconhecendo um detalhe que ela havia trabalhado anteriormente. Mas não posso dizer que sinto a presença do Malcolm como algo agradável dentro desse panorama.
Existiu também um destaque maior para a ilha neste episódio. Novamente um tipo de atitude que me faz questionar o bom senso e a teimosia da equipe de Arrow, também conhecida como Marc Guggenheim. Não dá para saber exatamente para onde estamos indo dentro da fracionada construção do lado místico do passado, mas imagino que neste caso e após os eventos da participação da Vixen, existirá a conexão com a próxima temporada e não com o tema dessa. Seria o mais inteligente possível. Desenvolver o arco a ser seguido no próximo ano através do que está sendo explanado no antes. Também terminaria quebrando a fórmula da série que sempre prezou por desenvolver grandes repetições do presente em montagens pouco aproveitáveis em seus flashbacks. O Oliver “daqui” sempre era muito parecido, cometia os mesmos erros e até repetia as mesmas frases do Oliver Queen (às vezes barbudo) de lá. Não funcionou muito bem e seguindo para o quinto ano da série o melhor seria ter um 180º em cima da proposta, ou abandoná-la totalmente. Dificilmente a segunda opção se tornará realidade, então que a primeira receba a devida atenção.
Apesar de ter aproveitado bem o episódio, a presença de fatores que ainda prejudicam o bom andamento de Arrow como série estão cada vez mais perceptíveis. É sim um raio de esperança ter a produção voltando a tratar seus personagens como pessoas e não apenas como caminhos para o romance do protagonista. Contudo, ainda é latente a falta de direcionamento e propósito de alguns temas do roteiro, sendo o flashback e o vilão principal os maiores. Arrow precisa adotar urgentemente a postura derradeira de sua série, ou adotar alguma. Esse foi o ano prometido como o delimitador da posição de um novo tom, mais heroico, menos carrancudo, mas até agora o que foi apresentado é uma amalgama de tudo o que quase não dá certo, com apenas alguns detalhes que funcionam. Assim como um boneco de argila que está fresco, ainda dá tempo de refazer vários pontos, mas a partir do momento em que o produto enrijecer, apenas destruindo totalmente ou abandonando e partindo para outra tentativa. Se deu certo para a nona temporada de Smallville, talvez dê para a quinta de Arrow, mas com uma média de audiência melhor do que a dos dois primeiros anos, talvez ninguém (produção) tenha percebido que tudo está bem perdido.
Easter eggs e outras informações
– Essa foi a semana das referências a Harry Potter. Começando por Supergirl, passando por Flash e agora com Arrow, praticamente todas as séries do universo DC CW fizeram uma menção ao bruxo mais famoso do mundo. Agora só falta Legends of Tomorrow.
– Também foram feitas outras menções a produções antigas: o filme ‘Meu primeiro amor’ e a trágica relação entre abelhas e morte. A palavra ‘frak’ de Battlestar Galactica. The Borg, uma raça de ciborgues de Star Trek. Ao filme Alien e também a Independence Day.
– Brie Larvan, a ‘Bandida dos olhos de Inseto’, também conhecida como Beth de The Walking Dead, existe nos quadrinhos, mas não é uma mulher. Na nona arte é o ‘Bug-Eyed Bandit’. O vilão é saído das páginas do Átomo. A primeira aparição de Brie em live action foi em The Flash.
– Michael Amar, também conhecido como The Murmur, apareceu pela primeira vez na terceira temporada da série, no episódio The Offer. Ele havia sido preso injustamente e teve sua boca costurada para que não informasse a corrupção da polícia de Starling City. Amar fugiu da prisão e decidiu começar sua vingança contra a força policial da cidade, até ser preso pelo Arqueiro.
– Existe um personagem dentro de Arrow chamado Neal Adams, ele trabalha com processamento na empresa Palmer Tech. Também não é a primeira vez que o Curtis diz suspeitar que ele seja o Arqueiro Verde. Na verdade Neal Adams é o nome de um dos maiores autores do Arqueiro Verde para os quadrinhos.
– Felicity Smoak foi esnobada pela DC Comics e não será introduzida no cânone de Rebirth. Pelo menos não segundo o autor responsável pela nova fase do Arqueiro nos quadrinhos, Benjamin Percy. Diferente de Cat Grant, de Supergirl, que irá ganhar uma versão em papel, assim como Chloe Sullivan recebeu durante a exibição de Smallville, em Action Comics 893.
– Nos quadrinhos o recanto do Arqueiro é conhecido como ‘Arrowcave’. O nome aljava já foi sugerido uma vez.














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