Com a volta de um personagem que participou de um dos melhores episódios da temporada passada, The Mentalist volta a trazer um caso interessante, mas um aspecto começa a causar grande estranheza.

Spoilers Abaixo:

The Mentalist é, assumidamente, um procedural. Em nenhum momento a série se propõe a desenvolver grandes arcos dramáticos ou elaborar uma storyline mais complexa. Pelo contrário, prende-se à sua interessante fórmula, que é a de mostrar um gênio na arte da percepção utilizando suas habilidades em prol de investigações criminais, apesar de sua premissa envolver um plot principal. Muito embora não seja um caminho de minha preferência, não há nada errado com isso. O problema começa quando o roteiro tenta misturar as duas coisas, o lado procedural com o da continuidade, e o faz de maneira equivocada. É isso que The Mentalist vem fazendo.

Nessa semana Jane e a equipe da CBI têm de resolver um caso um pouco diferente. Ameaçado de morte, Yuri Bajoran recebe ajuda de Walter Mashburn, velho conhecido da série, que pede especialmente para que Lisbon e Jane ajudassem a combater a ameaça. Bajoran, porém, recusa a ajuda, e acaba “explodindo” pelos ares, quase levando Mashburn com ele. O milionário se salva por deixar a sala instantes antes da explosão, fazendo com que a CBI desconfie do mesmo, que destruiu a carreira do executivo “morto”. Mashburn desenvolve também um imenso carinho por Lisbon, e passa praticamente o episódio todo em cima da policial. Já Jane simpatiza muito com ele e recusa-se a sequer pensar que ele tenha alguma culpa no cartório.

É bem verdade que o caso do assassinato falso de Bajoran, que buscava matar apenas seu chefe de segurança e Mashburn, aposta em um altíssimo número de coincidências para funcionar, o que o faz soar um pouco forçado, mas mesmo assim é interessante a volta de um personagem ambíguo como o milionário. Primeiro porque ele foi um dos raros suspeitos que despertou algum interesse de minha parte desde o piloto da série. Além disso, sua química com Jane traz momentos divertidíssimos ao episódio, coisa que não ocorre nem mesmo com os personagens que o protagonista geralmente contracena. Outrossim, Mashburn é uma caricatura dos chamados “novos ricos”, aqueles que enriquecem de maneira muito rápida e acabam se tornando chatas e arrogantes pessoas que parecem procurar diversão em tudo. A construção do personagem dessa forma me agrada bastante, o que me faz pedir humildemente aos roteiristas para que ele retorne, o que imagino que ocorrerá, já que dormiu com Lisbon e eu duvido muito que deixem escapar a oportunidade de tornar a policial um pouco mais interessante, mesmo que seja com um “bad romance”.

O desenvolvimento do caso em si dessa vez mostrou-se ágil, sem assim comprometer o entendimento da trama. A ambiguidade já citade de Mashburn contribui para que haja uma ponta de mistério na história, além de ajudar na criação de situações úteis para a investigação e para o roteiro. Apesar disso, o desfecho do caso mais uma vez não agrada. Jane arma uma enorme cena com Mashburn para revelar que Bajoran permanecia vivo e que ele era o assassino de si mesmo. Primeiramente, é importante ressaltar que a obviedade desse fim chega a assustar. Tão óbvio que Jane sacou desde os primeiros minutos de episódio. Aí, passamos 30 minutos concentrados em uma investigação que se revela inútil. É verdade que enganar o espectador e fazê-lo pensar que algo tem uma importância que na realidade não existe é um recurso que pode fazer um roteiro passar de mediano para magistral, quando bem empregado. E essas duas últimas palavras é que fazem a diferença. The Mentalist não consegue gerar nada além de revolta com isso. Isso me incomoda faz tempo, e confesso ter acreditado que em Red Hot as coisas seriam diferentes. Como isso já é recorrente, não chegou a interferir tanto na qualidade do caso, mas eu abriria o olho se fosse roteirista da série.

Se o episódio teve uma mescla de bons e maus momentos, algo que nem é citado aqui talvez seja o maior ponto negativo. Há alguns episódios, Kristina retornou após ser sequestrada por Red John e mostrou-se completamente atordoada, chegando ao ponto de acreditar estar morta, vítima provavelmente de uma lavagem cerebral por parte do serial killer. Visivelmente Jane ficou abalado com isso, tanto que no episódio seguinte se mostrava cabisbaixo e até dormindo no sótão da CBI. Pois em Red John e nos último episódio, Patrick parece completamente recuperado do trauma, além de Kristina ter misteriosamente desaparecido do mapa. Se você quer desenvolver um storyline interessante que tenha um razoável apelo dramático, não esqueça dele durante tanto tempo. A série testa os limites da paciência do espectador ao investir em um absurdo desse nível. Do jeito que a coisa anda, a impressão que fica é que estamos diante de duas séries distintas, uma em que Red John existe e outra em que não existe. Começo a me indagar se logo não descobriremos que na realidade The Mentalist se passa nos universos paralelos de Fringe. Seria a explicação menos surreal.

No mesmo episódio que The Mentalist volta a mostrar um bom desenvolvimento do caso e traz um ótimo personagem de volta, a série patina ao não desenvolver seus arcos e causa grande raiva em seu espectador. Não por acaso, a série apresentou seus índices mais baixos de audiência e perdeu para Private Practice na amostragem. O povo não é bobo.

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