Um episódio bastante deslocado.

Em certo momento de Rebecca, Chuck e Kim, dois personagens extremamente opostos, trocam um raro diálogo. Nele, o mais velho McGill afirma acreditar que seu irmão mais novo tem um bom coração, mas que não consegue evitar ser malandro, o que acaba por prejudicar terceiros, mesmo que sem intenção. Essa cena é exatamente o que define Better Call Sall, especialmente nessa segunda temporada. Buscando transformar Jimmy McGill em Saul Goodman de maneira sutil e delicada, a criação de Vince Gilligan e Peter Gould prefere ser suave em sua narrativa, ao invés de criar momentos explosivos e impactantes. Na maior parte do tempo isso funciona. Mas, às vezes, pode criar episódios que soam fora de lugar, como este Rebecca.

É verdade que muito desse deslocamento tem um propósito. A cold open, por exemplo, novamente faz um salto temporal, dessa vez para trás, para mostrar um personagem em uma situação diferente. À primeira vista, usar um flashback em que Chuck ainda não está doente e ainda está casado (mas que já mostra os primeiros sinais de paranoia), pode parecer arbitrário, mas tem uma função clara ao humanizar o personagem e desvilanizá-lo. Desde o fim da primeira temporada, Gilligan e Gould tem assumido o advogado como grande antagonista de Jimmy, e por conta disso é importante trazê-lo de volta para o mundo real, sem maniqueísmos ou exageros.

Aliás, essa mesma primeira cena dá certa razão a Chuck em seu ressentimento para com Jimmy. Ao chegar em sua casa, escura e sem vida, Jimmy traz cervejas, as bebe sem um copo enquanto os dois anfitriões usam taças, e zomba de advogados sem nenhuma cerimônia. A forma com a qual esse diálogo é conduzido por John Shiban é sublime, e Bob Odenkirk faz grande trabalho ao conferir organicidade às suas falas, interrompendo as inúmeras desculpas para o irmão com outra piada infame. Rebecca McGill, como de praxe, fica encantada com o jeito descolado de Jimmy, e é exatamente por isso que ela dá nome ao episódio. Ela simboliza o que sempre acontece com o protagonista. Ele trata a lei como uma piada, e as pessoas simplesmente acham essa atitude divertida.

É por esse motivo que é impossível culpar Chuck pelo que faz. Sim, Better Call Saul faz questão de construí-lo como um personagem que se opõe a Jimmy, e por isso somos levados a odiá-lo, mas Rebecca existe para criar uma dúvida na cabeça do espectador, que já não sabe o que pensar sobre ele. Quando Gloves Off acabou, durante o conflito entre os irmãos na casa do mais velho, tudo levava a crer que, de fato, ele teria participado no castigo a Kim, apenas por birra aos métodos escusos utilizados pelo irmão. No entanto, aqui vemos que tudo partiu de Howard, e que Chuck na verdade considera um desperdício deixá-la em revisão de documentos.

Basicamente todo o episódio é construído em torno dessa premissa. Primeiro, vemos Kim ignorando tudo que Jimmy faz para tentar ajudá-la, obrigando-o a invadir o escritório da HHM durante a noite de novo. Além disso, Shiban faz questão de criar desconforto no espectador, colocando a advogada em uma situação em que a música é incômoda, e seus companheiros a veem como superior, já que está alguns degraus acima deles na hierarquia da firma. Até mesmo a mixagem de som de Rebecca busca trazer essa sensação, como podemos ver na montagem em que Kim tenta desesperadamente buscar um novo cliente, produzindo um irritante som de caneta riscando em superfície dura, como se Better Call Saul buscasse constantemente nos deixar inquietos com a situação dela.

Isso, é claro, até o diálogo supracitado. Ali, Chuck, que chegou extremamente cedo por conta de sua aversão à eletricidade (de novo, Better Call Saul busca trazer simpatia pelo personagem), desabafa sobre suas experiências com Jimmy, e mostra grande empatia com a situação de Kim, mesmo que demonstre sua típica arrogância ao praticamente tratá-la como uma assistente. A série traça nesse momento um paralelo implícito entre a advogada e Rebecca, no que tange à admiração por Jimmy e seus truques amalucados.

Curiosamente, ainda que seja o protagonista, Jimmy não tem grande destaque em Rebecca. Seu arco é meramente consequência do que já vimos em Gloves Off, com Erin sendo usada como babá jurídica, revisando minuciosamente todos os seus atos na firma. Até mesmo quando vão fazer uma requisição, e ele tranquilamente suborna a atendente com um ursinho de pelúcia, Erin o reprime fortemente. Novamente, Better Call Saul busca mostrar que o jeitinho de Jimmy é perigoso, ainda que pareça inofensivo (pensando bem, ele poderia perfeitamente ser brasileiro). E não, ele definitivamente não consegue passar um dia sem desrespeitar as regras da NMBA. Aliás, esse momento é o que a série usa como ponte para que possamos checar como Mike se encontra. Depois de ver o rosto do colega destruído, Jimmy assovia “Gonna Fly Now”, em referência a Rocky, filme que ele referenciará de novo ao ver Jesse Pinkman destruído, em Breaking Bad.

É justamente por conta de Mike o maior problema de Rebecca. O episódio caminha muitíssimo bem, e poderia perfeitamente se encerrar, mas a série decide colocar uma cena arbitrariamente. É verdade que ele é um dos protagonistas, mas a história poderia andar sem ele. Mesmo assim, o roteiro inclui uma participação de Tio Salamanca, apenas com o fim de atrair a audiência de Breaking Bad e gerar buzz. Do ponto de vida narrativo, esse momento poderia acontecer no próximo episódio, e acaba por prejudicar a fluidez, uma vez que Rebecca constrói toda a sua história utilizando como cenário o lado jurídico de Better Call Saul e deixando de lado a parte criminosa. Finalizá-la dessa maneira não apenas falha em gerar o impacto necessário, como destrói parte do que o episódio constrói, terminando-o com um gosto amargo.

É essa a sensação que se tem quando se assiste um episódio como Rebecca. Better Call Saul ainda é uma série extremamente consistente, mas essas escorregadas acabam por prejudicá-la.

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