Nicole Brown era uma garçonete quando conheceu OJ Simpson, ainda casado com a primeira mulher e dono de uma carreira promissora. Ainda que o novo casamento tivesse passado por muitos momentos felizes, desde cedo Nicole reclamava, eventualmente, do temperamento explosivo e doentio do marido. Como todo homem com histórico de violência contra a mulher, OJ transformava seu ciúme num quadro de acusações sobre a lascívia da esposa. Homens como ele sempre acham que as mulheres exuberantes e sexuais por quem eles se sentem atraídos, estão a um passo de irem para a cama com outros. Para ele, Nicole era uma traidora, vadia, ninfomaníaca em potencial.

O resultado desse machismo foi uma facada na garganta tão profunda que deixou a cabeça de Nicole pendurada por um pedaço de pele. No entanto, ele pensar assim, no apogeu de sua sociopatia, seria até identificável. O que assusta é que assim que seu corpo foi descoberto naquela varanda, ela se tornou essa “rameira” para um país inteiro. Os EUA estavam velando um caso hediondo e latente de menosprezo pela figura da mulher e essa crueldade se estendeu justamente até outra mulher. A mulher que defendia Nicole, que queria fazer uma sociedade entender que hedonista ou não, a ex-garçonete bela e sexy, merecia viver.

Marcia, Marcia, Marcia foi um episódio sofrido de assistir. Eu sabia que muito do que víssemos seria dramatizado. Estamos vendo uma série, com atores consagrados, é natural que haja uma liberdade poética na hora de contar a história. Porém, muito material acerca do caso está disponível na internet e quanto mais procuramos, mais a indignação cresce. Duas pessoas estavam mortas, duas pessoas inocentes, mortas com uma crueldade absurda e Los Angeles tratava a vítima como uma messalina e a promotora que queria prender o assassino, como uma piada. Chega a ser assustador, mas realmente o cabelo e as roupas de Marcia Clark foram o assunto preferido da mídia na maior parte do julgamento.

Ryan Murphy reassumiu a direção desse episódio e não o fez só para continuar usando seus closes dramáticos. Era sabido que haveria um episódio focado no circo da mídia em torno de Marcia e Ryan queria explorar esse momento ao lado de Sarah Paulson. Seria emblemático, todos sabíamos… E todas as expectativas foram superadas. Não vou ficar me repetindo sobre um roteiro brilhante desses, seria chover no molhado. O trabalho textual do show é irrepreensível. Os closes de Murphy não me aborrecem, fazem parte da identidade que ele quis dar ao programa. Já Sarah Paulson, essa é uma atriz que transforma em ouro tudo que ela toca.

No vídeo acima, especificamente no minuto 1:17, vemos o exato momento do julgamento em que Marcia explica ao juiz que não poderá comparecer perante o júri porque precisa cuidar dos filhos. Além de ser julgada pelo corte de cabelo, pelas roupas conservadoras e pela seriedade pouco feminina (ou segundo o que se culturalizou como feminino), Marcia era julgada por ser uma mãe solteira, lutando pela guarda dos filhos, sem o direito de ter uma carreira e um tempo para a família, precisando se reafirmar todos os dias como profissional e ainda tendo que dar explicações sobre todos os seus passos.

https://youtu.be/kyAwp8OmYvo

Já nesse vídeo acima, no minuto 3:21, podemos ver o momento em que Johnny Cochran age como o porco chauvinista que ele foi tantas vezes, ironizando com a ausência de Marcia. E vemos também a resposta dela, polida e segura, engolindo-o com uma dignidade que lhe era profundamente característica. Todos esses momentos foram dramatizados no episódio com uma crescente emocional admirável. O roteiro e a direção conseguiram criar uma atmosfera tão precisa, que a cada cena deslizada para o tribunal, um novo foco de tensão ia se formando. Tem sido extremamente satisfatório perceber que o julgamento está transcorrendo sem nos cansar, alternando-se de modo ágil, longe da morosidade comum à realidade desse tipo de evento.

A força de Marcia, constantemente, fazia um contraste com o peso daquelas pressões. Numa entrevista recente, a verdadeira Sra. Clark disse que não chorou no tribunal nenhuma vez, mas que compreendia que isso era necessário para a dramaticidade da série. Confessou estar muito envolvida pelo show e ter ficado comovida com a atuação de Sarah Paulson. Impossível mesmo não sentir o coração apertar um pouco quando a personagem adentra o tribunal segura, com seu corte de cabelo ainda mais curto (vide a foto abaixo), para ser humilhada pelo próprio juiz, que segundo os registros fez realmente aquele comentário sarcástico e infeliz.

Marcia

Então, nesse ponto da história, o papel de Darden ao lado dela ganhou uma doçura completamente inesperada. Muito se especulou, inclusive, que os dois tivessem se envolvido romanticamente durante o trabalho. Eles nunca confirmaram isso, mas assumiram que se apoiaram muito. Todos os pequenos gestos de carinho e apoio promovidos por Darden nesse episódio foram cheios de catarse. Quando ele escreveu aquele “Eu adorei” no papel e mostrou para ela, os meus olhos se encheram d’água. Foi simples e poderoso, foi um homem, o único, a lhe estender as mãos por compreensão, naquele mar de espécimes masculinos encharcados de ironia e pequenez.

Do outro lado, o plano do Dream Team seguia confirmando-se. Foi como disse na semana passada… A polícia era preconceituosa, tinha problemas, cometeu erros. Mas, no caso desse crime, todos eles falavam a verdade. É lastimável que coisas como o policial que levou os sapatos de OJ para casa tenham realmente acontecido. Mas, mesmo Mark Fuhrman, o nazista, falava a verdade enquanto dava seu depoimento a Lee. No vídeo abaixo, podemos ver como a série transcreveu parte do depoimento dele com precisão.

Lee Bailey, aliás, teve seus momentos essa semana. Ainda não vimos acontecer o infame episódio com as luvas encontradas no local do crime (outro momento famoso do caso), mas tivemos outro episódio com luvas, as luvas em tamanho pequeno que Lee providenciou para parecerem impossíveis de caberem em OJ. O tempo todo a defesa do acusado era conduzida assim, com enfraquecimento do sistema policial e com manipulação emocional baseada em embuste, em engodo – e por muitas vezes – em mentira. O depoimento da Sra. Lopez, aliás, foi mais uma das provas disso. Johnny estava mesmo disposto a tudo e sua gana para vencer (motivado por vaidade ou ideologias, não importa) atropelava tudo e todos pelo caminho.

Enfim, no momento final do episódio, a mídia ataca com mais um de seus devaneios. O vazamento das fotos de topless da promotora levam-na ao baque definitivo. Nem era um nu completo, mas era “sórdido” demais para ser superado sem feridas. Cada um dos maridos de Marcia cedeu grotescamente aos holofotes, ao dinheiro fácil, expondo sua intimidade a escrutínios públicos que magoariam mortalmente qualquer cidadão. Então, foi triste… Foi triste vê-la sentada no chão, desolada, maltratada por coisas que não mereciam julgamento, sendo sublinhada por tudo que era menos importante, enquanto seu trabalho para condenar um assassino (que matou uma mulher!) se perdia em meio à podridão que fedia na sociedade dos Estados Unidos. OJ Simpson se superando… Encontrando formas diretas e indiretas de ferir de morte uma mulher.

Notas de um Crime:

• A capa da revista onde saiu a foto de Marcia fazendo topless foi essa aqui:

Topless

• A foto, contudo, não era importante ser postada lá e nem é importante aqui.

• O olhar de Sarah Paulson na pequena cena do supermercado… Impressionante.

• A cena da dança com Darden não aconteceu, mas a verdadeira Marcia declarou que a considerou “essencialmente real”.

• O relato de violência doméstica evolvendo Johnny foi muito abafado, mas há indícios de verdade nele.

• Muito se falou sobre a tal faca que teria aparecido recentemente e seria a arma do crime. Considerando que ninguém nos EUA pode ser julgado duas vezes pelo mesmo crime, especialistas garantem que nada acontecerá. Tanto não vai que OJ escreveu um livro praticamente confessando o crime e não foi preso.

Artigo anteriorNovo spin-off da franquia Chicago muda de nome e contrata protagonista feminina
Próximo artigoScream Queens | Criadores abandonam formato de antologia e o elenco original irá retornar para a 2ª temporada