Acabou-se o Oscar, e com ele mais uma temporada de premiações e a primeira do Oscar Maníacos.
Pode-se olhar esse esquisitíssimo ano para as premiações como algum bom ou ruim para essa coluna. Pelo lado bom, tivemos assunto como nunca: The Big Short, Spotlight, The Revenant e Mad Max:Fury Road se estapearam até o último momento, só largando o osso quando Morgan Freeman anunciou o prêmio final da noite. Foi uma temporada de incertezas que provavelmente não se repetirá com frequência.
Pelo lado ruim, isso significou que meu primeiro ano cobrindo o Oscar foi um desastre na parte das previsões. Acertei 15 das 24 previsões que fiz, mas pelo menos posso me consolar no fato de que ninguém foi excepcional nesse ano. Entre Mark Rylance, Ex Machina e a imprevisibilidade dos curtas, sobrou erros para todo mundo.
Mesmo assim, conforme a temporada passou eu fui adquirindo um olhar mais cínico sobre todos esses procedimentos. Há algo de emburrecedor na incansável cobertura da premiação que alguns profissionais fazem durante o ano. Talvez falar em Oscar signifique, para alguns, estar por dentro dos melhores filmes da atualidade. Entretanto, enquanto eu lentamente descobria pérola atrás de pérola ignorada pela premiação (*), sendo filmes ou atuações específicas, percebi que é tudo uma grande e dourada ilusão.
(*) Mais sobre isso quando eu publicar minha lista de melhores do ano.
Como qualquer premiação de grande porte o Oscar premia o consenso. Seu próprio modelo de votação, específico e confuso, privilegia aqueles filmes universalmente aceitos e não necessariamente amados. Algo que eu e muitos outros esqueceram quando prevemos a vitória de The Revenant, um divisor de opiniões que perdeu a coroa para um longa inquestionável e difícil de se odiar.
Curiosamente, essa vitória do consenso acabou me agradando esse ano. Gosto bastante de The Revenant, e entre isso e Birdman ano passado, considero que Iñárritu evoluiu bastante com o tempo. Ou será que não? A mão de Lubezki é pesada nos dois projetos, mas pelo menos em Birdman temos um roteiro interessante e multifacetado. The Revenant não apresenta tais sofisticações, e mesmo com a aparente “pobreza” visual de Spotlight, seu roteiro magistral e atuações classudas me conquistaram de forma inescapável. Cada momento de emoção é conquistado sem truques sujos, cada evolução da narrativa bem construída e sem a necessidade de texto expositório. Sou um fã ardoroso de virtuosismo técnico, e esse talvez seja o maior atestado à qualidade de Spotlight, um dos mais sóbrios e econômicos vencedores do Oscar de Melhor Filme nesse quesito da história.
Essa vitória, entretanto, não estendeu-se à categoria de direção. Iñárritu fez história levando seu segundo Oscar consecutivo, aí sim um resultado que me indignou. Em parte por causa da clara inferioridade de seu trabalho em relação a nomes como George Miller, Todd Haynes e Denis Villeneuve. Em outra parte, pelo simples fato de ser uma repetição: o cinema atual é muito vasto e rico em produtos de qualidade para justificar um repeteco desses.
É claro que qualidade nada tem a ver com o assunto. A premiação do Oscar se tornou grande demais para priorizar tais elementos. Estamos agora presos a um ritual anual de campanhas milionárias, festas, premiações precursoras e às vezes até propaganda negativa contra adversários. Narrativas às vezes são mais importantes do que a conquista imediata, indicada ao prêmio e teoricamente a única base de avaliação para o membro da Academia.
Essa característica tradicional acabou trazendo o mesmo destino para Leonardo DiCaprio. A internet, obviamente, não se importa: o ator se tornou uma daquelas raridades semi-mutantes que faz filmes “artísticos” e é conhecido do grande público, angariando torcedores entusiasmados por todo canto e os defuntos memes do Oscar. Uma pena que tenham morrido, já que The Revenant confirma mais uma vez a preferência da Academia pelo esforço e pelo bruto, esquecendo da sutileza. Se alguém tem alguma dúvida sobre isso, a própria distribuidora do filme fez questão de ressaltar as “qualidades” da atuação: artigos publicados sobre o fato de DiCaprio ter comido peixe durante as gravações, sendo ele vegetariano; infinitas propagandas disfarçadas sobre as dificuldades da filmagem; comentários sobre a equipe passando frio em condições extremas. Não se engane: esses elementos foram fundamentais para vários aspectos do filme, mas também foram perversamente usados para carregar a narrativa de DiCaprio simplesmente porque ele se esforçou mais. Ora, que bom que ele se esforçou, mas ainda não vejo qualidades óbvias na performance monocromática do ator. Seus trabalhos realmente brilhantes (Django Unchained, Catch Me If You Can e Wolf of Wall Street) passaram batido, como de costume na Academia.
Passando à categoria de Melhor Atriz, é instantaneamente visível a superioridade feminina no cinema de 2015. Isso ocorreu tanto fora como dentro do círculo de indicados, e quem acabou se beneficiando aqui foi a elegante, fofa e adorável Brie Larson. Sua vitória não me agradou, nem tampouco desagradou (Charlotte Rampling, cadê?). O contrário de Alicia Vikander, que foi fraudada como coadjuvante e, se isso não fosse o suficiente, foi ignorada pelo seu trabalho espantoso em Ex Machina em favor do insosso The Danish Girl.
É motivo de se indignar? Só se você se importa demais com o Oscar. É necessário distanciar-se às vezes desses julgamentos. O problema é que a premiação sempre te alimenta com a quantidade suficiente de coisas boas para te manter ligado.
Nesse ano foram duas coisas em especial. Em primeiro lugar a inesperada vitória de Mark Rylance, um feito de proporções absurdas se considerarmos todo o conjunto da obra. Stallone liderou sua categoria com um misto de nostalgia das bravas e a chegada inesperada de um novo filme de qualidade na franquia Rocky. Rylance é um ator que raramente atua no cinema e não fez nenhuma campanha considerável para seu papel. Foi ele, entretanto, que conseguiu colocar Tom fucking Hanks no escanteio em Bridge of Spies com uma interpretação ao mesmo tempo minimalista e chamativa.
O outro grande prazer do ano foi, claro, a colheita que Mad Max fez nas categorias técnicas. É um atestado ao poder desse filme que, mesmo utilizando-se de um gênero totalmente ignorado pela Academia e sendo lançado no meio do ano, ninguém esqueceu-se dele. Além disso, pudemos apreciar o momento mais fofo da noite, quando a esposa de George Miller venceu seu Oscar de Melhor Ediç… perdão, Montagem, e o marido fez a maior festa.
Nas duas categorias musicais, uma pequena bagunça. Começando pela verdadeira tragédia, a sonolenta Writing’s on the Wall levou o troféu para casa após uma apresentação sofrível de Sam Smith na cerimônia. Do lado das trilhas sonoras originais (infinitamente superiores à obsoleta categoria de Canção Original) tivemos a coroação de uma das maiores lendas vivas do cinema.
Foi um momento emocionante quando Ennio Morricone subiu ao palco, e até perdoo a escolha da trilha sonora de The Hateful Eight a fim de que a Academia não passasse vergonha mais uma vez, deixando o compositor sem um Oscar competitivo. Morricone tem trabalhos infinitamente superiores a esse, mas sabe-se lá se teremos outras chances de ouvir suas trilhas sonoras em filmes que competem na temporada de premiações.
Inside Out levou, merecidamente, o prêmio de Melhor Animação. É inteligível a torcida brasileira para O Menino e o Mundo, mas creio que a vitória da Pixar foi extremamente justa. No lado dos documentários, a escolha mais agradável ao público acabou se consagrando com Amy, deixando o gênio Joshua Oppenheimer de mãos vazias após sua avassaladora duologia (The Act of Killing e, nesse ano, The Look of Silence).
A categoria de Filme Estrangeiro, sempre minha preferida, me causou sofrimento esse ano. A riqueza de conteúdo aqui rivaliza o Oscar como um todo, com 81 longas disputando ferrenhamente por míseras 9 vagas na shortlist inicial. São inúmeros países, culturas e línguas sendo relegados a uma pequena parte da premiação. A vitória de Son of Saul não me incomodou, mas também não me deixou muito feliz. O filme trouxe uma perspectiva nova e original para uma história conhecida do grande público, mas é evidente que a Academia novamente seguiu seus gostos conhecidos com o tema do Holocausto.
E quanto ao ano no cinema em si? Tivemos, como sempre, várias maravilhas. Sou um eterno otimista em relação ao cinema contemporâneo, e nada em 2015 me fez mudar de ideia. Cada vez mais temos vozes novas expressando sua arte através do meio audiovisual. Em breve publicarei minhas listas de Melhores do Ano, e tal característica ficará clara nelas. Antes disso, entretanto, é hora de encerrar os trabalhos na cobertura da temporada 2015 do Oscar Maníacos. Pretendo sempre melhorar o conteúdo aqui apresentado, e aceito sugestões dos meus queridos leitores para que isso aconteça. Até mais!
Atualizações

Li’l Quinquin possui mais de 3 horas de projeção, e nelas o diretor Bruno Dumont certamente cria uma variedade absurda de narrativas. Temos uma investigação criminal sobre um suposto serial-killer, um acompanhamento despretensioso da vida do titular Quinquin (o garoto não faz muito mais do que causar problemas com seus amigos locais e ocasionalmente espionar as atividades policiais) e até mesmo uma plot estranhamente posicionada sobre racismo e bullying. Tudo isso é acompanhado por um festival de esquisitices: metade dos personagens possuem algum tipo de deficiência física ou mental. O longa é permeado por um humor bizarro e ocasionalmente engraçado, e é complicado entender exatamente qual o foco do diretor. Sem dúvida nenhuma é uma obra interessante e única, com personagens inusitados e algumas das situações mais esquisitamente criativas que já vi, mas todos esses fatores não necessariamente se juntam para criar uma obra coesa. Avaliação: ★★★½

The Peanuts Movie me lembrou na hora o maravilhoso Shaun the Sheep, outra animação adoravelmente infantil que conquista o expectador com pura fofura. Infelizmente, essa comparação não foi muito boa para Peanuts. A esperteza do filme da Aardman (que não possui qualquer diálogo) e a conexão emocional que ele cria com os personagens não ocorre aqui. Temos um festival de comédia pastelão e lições de vida que seguem um roteiro previsível, além de uma narrativa colateral envolvendo Snoopy e seu arquiinimigo Red Baron que não acrescenta nada ao filme e interrompe a fluidez da história principal. Mesmo assim, Peanuts é um projeto agradável e charmoso com potencial de agradar grandes plateias. Isso sem levar em consideração os fãs dos quadrinhos, que encontrarão uma adaptação inofensiva e reverente ao trabalho de Charles Schulz. Avaliação: ★★★

É preciso admirar a vontade e a originalidade de Spike Lee em fazer essa bagunça cinematográfica chamada Chi-Raq. O filme mistura uma mensagem contra violência e racismo com um musical que incorpora determinada obra grega da antiguidade e linguagem atual numa mesma salada (surpreendentemente boa). Temos números musicais misturados com momentos da mais pura indignação, todos carregados por uma plot de certa forma hilária: a fim de acabar com a violência de gangues em Chicago, Lysistrata (a estupenda Teyonah Parris) inicia uma greve sexual com todas as mulheres de sua cidade. O movimento se espalha mundialmente (com direito a mulheres brasileiras cantando “Sem Paz, Sem Xana”) e gera uma “crise” entre a comunidade masculina. Infelizmente, Chi-raq tem seus problemas. Atira para todo o lado, é simplista em alguns momentos e não consegue manter um tom ou um fio narrativo coeso. Por outro lado, tem momentos absolutamente hilários e um roteiro rimado que é muito agradável. Chi-raq é um atestado da indignação de Lee com a situação atual do planeta e de seu país. Ele está enfurecido, e isso é perfeitamente transmitido em sua obra. Avaliação: ★★★½






















