Supergirl enfrenta uma poderosa vilã em um episódio que destaca a força e a fraqueza da série.

Como toda produção em seu ano de estreia, Supergirl tem lutado constantemente para consolidar sua identidade. Diferente de outras séries estreantes e ambientadas no mundo de super-heróis e vilões, ela tem todo o peso da mitologia já consagrada do Superman, personagem com várias encarnações diferentes na televisão, cinema e quadrinhos. Por esse exato motivo tal fase de experiências com o roteiro e elenco garantiu uma verdadeira gangorra dentro da primeira temporada. A noção do que funciona e do que não funciona é ponto principal de compreensão e que deverá levar os roteiristas de volta para a mesa de planejamento caso a série ganhe sinal verde para uma nova temporada. Dividida entre o que dá certo e o que está fraco, este episódio garantiu bons momentos e outros nem tanto, em um padrão que precisa mudar o quanto antes.

Sempre que um episódio de Supergirl termina eu fico com a impressão de que a série é extremamente multifacetada. Existem divisões dentro de cada episódio que me impedem de criar uma linha cronológica coesa, com trama, vilão e arcos menores. Desde o primeiro episódio o ponto central tem sido o crescimento da Kara como Supergirl. Contudo, enquanto observamos o desenvolvimento de uma heroína, também ficamos à mercê de uma história quebrada. Já tivemos Maxwell Lord, Astra, o exército norte americano, um marciano branco, entre vários outros vilões que poderiam conduzir um arco especifico, mas que foram limitados a um episódio, ou a pequenas sequências sem conexão objetiva. Esse padrão é o utilizado pela equipe criativa liderada por Greg Berlanti, em Arrow, Flash, Legends of Tomorrow e agora Supergirl. Tudo parece importante, tudo soa emergencial, mas com a mesma velocidade que essas tramas surgem, elas desaparecem sem deixar rastros.

O “romance” entre Winn e Siobhan foi outro ponto que não funcionou e soou extremamente forçado, amadorístico até. Não sei exatamente até que ponto aquela interação foi desenvolvimento da personagem novata, ou convenção do roteiro, mas não caiu muito bem ter a moça falando que não estava a fim de conversa, para depois revelar seus segredos de família. Olhando para o crescimento do Winn como personagem, pode ser válido a longo prazo. Já observando através da ótica do bom senso e do que faz sentido, não. A impressão é a de que a série possui personagens demais, mas não consegue condensar tudo em uma jornada só. Claro que o Winn melhorou muito depois que deixou de lado sua faceta subserviente, porém, ele ainda precisa de um pouco mais de “fermento” até que inspire verdadeiramente uma preocupação maior. Sacadas inteligentes, o trabalho para o DEO e piadas bem feitas, como a do Windows Vista, funcionam e deveriam ser exploradas com maior frequência.

É então que outro aspecto dessa constante quebra narrativa da série é exposto. O DEO já garantiu ótimos momentos para a série, como por exemplo a luta entre Kara e o marciano branco, mas também já foi através dele que muita coisa chata e sem sentido aconteceu. O ruim é perceber que a agência só existe porque Alex e J’onn estão lá e que qualquer outra interação entre essas personagens feita fora do cenário claustrofóbico, agregaria um valor maior para o texto.  Só de ter o Winn, um personagem saído de outro núcleo, lá dentro, garantiu um brilho especial para o local. É notável que a série ganharia muito mais se pudesse centralizar sua trama em um lugar só. Até existiu certo esboço de desligar o DEO, através da criação do pequeno centro de operações do Winn, Kara e James, mas o projeto sumiu tão rápido quanto a vergonha da Shioban. O melhor, na minha opinião, seria tirar a agência militar de vez e tentar voltar com o QG. Quem sabe com a irmã mais velha e o pai marciano tentando viver uma vida humana comum, lá naquele mundo da Kara, tudo não melhore? Maxwell Lord, fica a dica.

Já entrando no ponto positivo, foi sim ótimo ter Laura Vandervoort mais uma vez interagindo com a Supergirl, dessa vez como a vilã Índigo. O erro e novamente, esse tem se provado o calcanhar de Aquiles da série, foi a limitação em cima da personagem que teve uma motivação bem rasa.            Non permanece inexpressivo e sem um destaque maior. Entretanto, foi através da Brainiac 8 que conseguimos ter a verdadeira transposição de um dos momentos mais icônicos para qualquer personagem que voa e tem super-força: A perseguição ao míssil com ogiva nuclear. As lutas entre a Supergirl e a vilã nem chegaram perto da ótima montagem da Kara realmente lutando para desativar aquela arma com potencial devastador. Usualmente produções do tipo extrapolam no quesito força e velocidade logo no começo, ou quando algum vilão tido como o mais rápido e forte aparece. Supergirl nunca transformou sua personagem central em um deus ex machina e por isso consegue criar situações em que fica fácil entender o desafio.

Também não poderia deixar de comentar a respeito da força emocional que a série passa a cada episódio. Já foram inúmeros momentos criados para cativar. Da explosão de emoção da Kara contra o Tornado Vermelho, ao discurso emocionado quando a personagem perdeu os poderes e precisou parar um bandido utilizando apenas a sua coragem e fé. A série expõe seu maior poder quando coloca seu elenco para ser humano. Que a Kara perdoaria sua irmã já era óbvio, mas que utilizariam um episódio sobre solidão para aproximar mais ainda a heroína de Alex e J’onn, foi o melhor. Aquela cena final com as duas irmãs abraçadas em que a Kara sutilmente segura a mão do mentor e o inclui, verdadeiramente, como parte da família, foi simplesmente genial e de uma pureza incrível. E é assim que a série permanece me conquistando semanalmente, com seu coração. Fica fácil fechar os olhos para qualquer desvio citado acima quando você termina um episódio profundamente satisfeito e emocionado. É para isso que eu estou aqui, semanalmente.

Easter eggs e outras informações

– Na fortaleza da solidão foi possível ver o anel da legião, o mesmo que o Flash viu durante sua incursão na força da aceleração durante o episódio Welcome to Earth-2 da segunda temporada.

– O anel da legião é um artefato que permite a quem utilizá-lo a habilidade de voar tanto na atmosfera terrestre, quanto fora dela. Assim como na nona arte o Superman mantém um anel na fortaleza da solidão, ou às vezes escondido em sua mão como um lembrete de seu tempo no século 31. A introdução do item foi em Adventure Comics #329.

– Neste episódio tivemos a participação da atriz Laura Vandervoort, que interpretou a Kara Zor-El em Smallville. Sua introdução foi no primeiro episódio da sétima temporada da série, mas ela só foi chamada de Supergirl lá na décima e última. Em Supergirl Laura interpretou a vilã Índigo.

– Nos quadrinhos a personagem surge como Brainiac 8 e depois assume a identidade de Índigo. Ela também começa como uma antagonista e é enfrentada pela Justiça Jovem e os Jovens Titãs. Após ter a memória danificada e limpada pelo laboratório S.T.A.R. a antiga vilã se tornou aliada do time Outsiders, formado por Arsenal. Sua primeira aparição foi em Titans/Young Justice: Graduation Day #1, de 2003, como Brainiac 8. Depois de reformada em Outsiders Vol 3 #25, de 2005.

– No caminhão do começo do episódio é possível ler ‘Plastino Chemicals’, uma homenagem ao artista de Superman, Al Plastino.

– Foram feitas menções ao filme Office Space e ao fracassado sistema operacional Windows Vista.

– A chave gigante da fortaleza não é uma invenção, ou exagero da série. Na verdade, na nona arte ela é do tamanho do Superman. Em Homem de Aço existe algo parecido, mas ela é preta e pequena.

– Levando em consideração que a Índigo realmente é azul e tem o cabelo avermelhado, a série conseguiu fazer um bom trabalho com a caracterização da personagem. Comparações entre ela e a Mística existirão, mas pelo menos Laura fez uma Mística melhor que a Jennifer Lawrence.

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