Um episódio competente, divertido e importante para o futuro de Arrow.

Fazia um bom tempo que Arrow não me surpreendia, pelo menos não de forma positiva. A introdução do Andy foi a responsável pelo meu primeiro descontentamento com a atual quarta temporada da série. Banalizar a morte é uma das piores características dos quadrinhos. Um aspecto que eu pensei não precisar ver nas séries, já que atores vêm e vão, ao passo que desenhos não têm prazo de validade, ou novos trabalhos para fazer, basta a decisão de um artista. Ao contrário do meu maior medo Arrow mostrou boa capacidade de criar uma história competente para Diggle e seu irmão. Da mesma forma que Lendas do Amanhã me mostrou realmente o porquê de terem trazido Sara do caixão, ela encaixa perfeitamente naquele time.

Arrow sabe escrever episódios, é só parar para lembrar a segunda temporada e os ótimos momentos do primeiro e terceiro ano da série, este último de forma mais espaçada, mas existente. O problema com a série é o crescimento do universo em que a produção se encontra. Flash, Lendas do Amanhã, a equipe que também precisa se concentrar em Supergirl e possivelmente na criação de outras produções – Sabia da possibilidade de um live action para Vixen? Depois de mais de setenta episódios é comum ver um pouco de desgaste. Só que este décimo primeiro capítulo na saga do Arqueiro Esmeralda mostra a capacidade de um roteiro bem escrito e dosado.

Amanda Waller foi a verdadeira personificação do orgulho. Sua passagem por Arrow sempre veio carregada de um ar soberano e repleto de desdém. Porém, vê-la sendo assassinada de forma tão fria foi igualmente chocante e triste. E quando eu falo triste estou me referindo ao fato de não tê-la na série novamente, talvez apenas através de flashbacks – uma ferramenta utilizada e que raramente acerta na dosagem. Sendo chato uma única vez com este arco: Só achei um pouco de descuido a cabeça de uma agência como a A.R.G.U.S. não ter desativado todos os acessos do recém-morto agente que teve o olho roubado, mas tudo bem vamos fingir que a prepotência da diretora a impediu de imaginar o cenário em que sua fortaleza seria invadida por um grupo mercenário – Um erro que ela pagou com a vida. Pequenos detalhes de lado, a morte da personagem pode ter uma conexão direta com os planos da Warner para o Esquadrão Suicida na telona, um sinal apontado desde a confirmação da produção do filme. Assim que o nome foi mencionado, lentamente os personagens envolvidos em Arrow foram sendo riscados da equação.

Seria muito interessante ter a Lyla substituindo Waller, algo que daria um novo panorama a ser explorado por Diggle e seu envolvimento com o Arqueiro Verde. No geral a história dos irmãos demonstrou tudo o que a série precisa fazer e que está evitando ao máximo. Divergir a cena para um personagem secundário é uma maneira excelente de se criar um filler, mas apenas quando a evolução é integrada a história criada. John já é uma parte fundamental do time Arrow, alguém competente e capaz de fazer muito, além de transbordar maturidade – até quando não está sendo muito sensato. Acrescentar Andy a dinâmica familiar do Diggle é o tipo de atitude que coopera para a diversidade de tramas da série, muda o que já estava cansativo e impõe novas sequências para o ciclo. Também é válido dizer que Andy é um desertor da equipe do Dahrk e no bolão da “morte do ano” qualquer um pode entrar na roda, até mesmo ele, ou alguém próximo.

Do lado da Felicity também consegui ver uma luz no fim do túnel. Existia muito espaço para depreciação, questionamentos, pranto e ranger de dentes, mas os roteiristas permaneceram justos ao desenvolvimento da personagem e escolheram levantar perguntas através de uma alucinação. Indo além, me senti satisfeito até mesmo com as cenas entre o casal. Oliver e Felicity funcionam e é bom quando a série nos lembra do motivo para que um dia eu tenha torcido para que eles se tornassem realidade. O humor mais leve do Oliver, os momentos de intimidade, é bom ter um protagonista mais leve e distante do “tudo é culpa minha”. Achei justo com o desenrolar de uma possível paralisia definitiva. Também aplaudo a maneira que os roteiristas decidiram mencionar a tal “para sempre” situação da Felicity. Como o próprio Oliver disse, já vimos muita coisa impossível para acreditar em algo escrito em pedra. É um jeito dos produtores afirmarem que sabem o que se passa nas nossas cabeças, pelo menos às vezes.

O tema geral de A.W.O.L. é o de lidar com o passado através de duas maneiras bem similares, apesar da abordagem diferente para cada uma. Ao recontar a história de Diggle e seu irmão durante o alistamento, a corrupção inicial do Andy e a relação entre irmãos, a série dá um passo em direção a criação de uma nova e interessante história para seu coadjuvante. Também é neste episódio que vemos o potencial que Laurel tem e o quão prejudicial a existência de Flash é para a série mãe. Durante o treino de Oliver e Laurel a criação da cena é a que melhor exemplifica a missão de um personagem secundário, dar o suporte. Só que o diálogo rapidamente perde o controle e entra no fantástico, tirando o foco daqueles personagens. Como é que qualquer humano comum vai competir com uma viagem no tempo? Laurel é a melhor pessoa para aconselhar o Oliver, eles já namoraram e dividiram um passado bem trágico. Contudo, o foco volta para Flash em um diálogo praticamente intragável.

A.W.O.L. não é a proeminência dentro do livro de roteiros de Arrow, mas com certeza é melhor do que muita coisa apresentada ultimamente. Como um episódio centralizado no desenvolvimento de histórias para Felicity e Diggle ele foi além do esperado e extremamente competente. Em um universo expandido e compartilhado é essencial ter um grande controle do material.  A Marvel está aí prometendo algo que não está disposta a entregar, do outro lado temos a DC e a Warner, repetindo personagens enquanto as séries (já consolidadas) precisam se curvar a necessidade dos filmes. Ter esse tipo de experiência, perceber que Arrow está perdendo personagens e com certeza deve ter várias ideias barradas por causa dos filmes e outras séries da casa, me fez aproveitar ainda mais a escrita firme e decidida deste décimo primeiro episódio.

Easter eggs e outras informações

– A.W.O.L. é um termo que significa ‘ausente sem permissão oficial’.

– O codinome da Felicity, Overwatch, é também o nome de um livro escrito por Marc Guggenheim, produtor executivo de Arrow. Segundo o autor, porém, este nome foi dado de acordo com sugestões da internet.

– General Joyner é uma menção ao Tom Joyner, escritor da DC Comics.

– A organização Shadowspire é conectada diretamente as revistas do Exterminador/Deathstroke. Sua primeira aparição foi em Deathstroke #53.

– Segundo Oliver o nome Oráculo não poderia ser da Felicity, porque já existe alguém utilizando a alcunha. Quem o utiliza na nona arte é Barbara Gordon, ex-Batgirl. E como Chloe Sullivan, musa inspiradora para a criação de praticamente uma personagem por série da DC CW já patenteou o Watchtower, sobrou o sofrível Overwatch – Podiam ter ligado para o Cisco, que com certeza está morrendo neste momento após ouvir o codinome.

– Acredito que a menção a Oráculo foi mais uma quebra da quarta parede do que uma verdadeira possibilidade futura para Arrow.

– Os escritores do episódio, Brian Ford Sullivan e Emilio Aldrich, apareceram no episódio, as fotos dos agentes desaparecidos da Shadowspire, John Le e Tim Sullivan pertencem aos roteiristas.

– “Eu tenho certeza de que existe um assassino lá fora que aprecia a sua falta de iniciativa”. Mais Laurel, por favor.

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