O nascimento das Lendas do Amanhã.

Vou dizer para vocês que eu estava um pouco receoso antes de começar a assistir ao primeiro episódio do novo spin-off da DC CW*. Não tive medo, porque basicamente a equipe por trás de Lendas é a mesma de Arrow e Flash, um time que já provou ser capaz de começar boas histórias – Manter já é outro ponto e não entraremos em maiores detalhes, não aqui, não agora. A principal preocupação, contudo, era conseguir ver um futuro para a produção, anunciada como um arco fechado dentro de uma temporada aparentemente única, mas não totalmente protegida e blindada da ganância dos executivos da Warner. Se der muito certo imagino que não desejarão mudar o time que está ganhando. E apesar de alguns tropeços e um excesso de explicações, muito do que aconteceu me agradou bastante. Não ousarei dizer que é a melhor coisa em termos de heróis da DC na televisão, mas com atenção e cuidado poderá facilmente disputar seu lugar ao sol no panteão de vigilantes mascarados – neste caso sem máscara mesmo.

A começar pela trama da série, que não deve ser surpresa nenhuma para quem acompanhou Flash, Arrow e o episódio duplo crossover ‘Legends of Today’ e ‘Legends of Yesterday’. O futuro está dominado por um vilão imortal, Vandal Savage, ao melhor estilo apocalipse futurista. Para conseguir impedir o desfecho trágico do planeta e da humanidade um mestre do tempo se encarrega de recrutar oito heróis menores e pouco relevantes para mudar o passado. Não existe algo mais aprofundado, a missão é destruir todos os pedaços do Savage, antagonista que tem tudo para ser ótimo. O que diferencia a série é exatamente sua proposta de unir personagens pouco conhecidos, mas cheios de personalidade. Sem esquecer a cereja no topo do bolo: um elenco totalmente competente e equilibrado.

Com certeza a melhor sacada de Lendas do Amanhã foi ter escolhido Arthur Darvill para interpretar um time lord master renegado e viajando no tempo para cumprir sua missão. O papel casa perfeitamente com o ator que ficou conhecido através de seu papel em Doctor Who, como o carismático Rory. Carisma, aliás, é algo que não falta ao Darvill. De longe ele foi o mais explorado dentro destes quarenta minutos, mas também não é surpresa nenhuma, afinal todos os outros personagens já haviam sido apresentados em uma das veteranas. O que faz de Hunter um personagem interessante é a sua dubiedade. O cara roubou a tardis nave/máquina do tempo e só teve sua “falácia” desmascarada porque um caçador de recompensas o está perseguindo. Gosto de heróis moralmente cinza e já que estamos falando de um conjunto de excluídos, não teria como escalar um líder melhor.

Gosto bastante de todos os personagens, mas me preocupo pouco com Martin Stein e sua contraparte. A presença dos dois garantiu ótimas frases e boas piadas, mas não elevou o meu interesse em querer mais da dupla. Arrisco dizer que dentre todos, eles estão em último lugar. Stein serve para cumprir a cota de informações a respeito de ciência e outros tópicos acadêmicos, ele realmente é importante. Contudo, Jax demonstrou exatamente o porquê está ali, para engrossar a fileira de superpoderes. Dizer o contrário é até complicado, já que durante quase todo o episódio ele esteve isolado na nave, ou drogado. Me perdoem se minha descrença para a relevância do membro mais jovem das Lendas do Amanhã ainda é muito forte, mas a primeira impressão é a que fica.

Por outro lado, se a dupla Nuclear não me agradou, ainda temos a Canário Branco para melhorar o dia. Sara é ótima e consegue exalar muito controle e confiança, um traço bem distante da personagem que encontramos em Arrow, perdida e sem rumo. Preciso dizer também que meu coração aqueceu quando a vi com a irmã, Laurel, lutando lado a lado e mostrando que existem formas de se contar uma história com duas personagens mulheres no universo de Arrow e Flash, sem a necessidade de incluir um homem no meio. Também é através de Sara que temos uma bela cena de luta, detalhe que conta pontos positivos para a série e para Glen Winter, diretor do episódio piloto. Para ser totalmente honesto a melhor parte foi poder acompanhar o trio Canário, Capitão e Onda Térmica.

Já não posso, porém, me mostrar tão animado assim para os problemas dos gaviões, uma dupla difícil de engolir. A introdução do filho da encarnação passada foi um ótimo toque, capaz de balançar a dinâmica de disparidade que Kendra impõe sobre o relacionamento, mas não me deixou tão feliz quanto os roteiristas pretendiam. O perigo mora exatamente nestes dois personagens, já não muito bem conduzidos no passado. Com certeza eles receberão um destaque maior, afinal, além de Hunter eles são os únicos com conexão direta e intima com o vilão. Espero uma evolução satisfatória, mas já meio preocupado.

É fácil traçar um paralelo entre Lendas do Amanhã e outra produção baseada em histórias em quadrinhos e que fez bastante sucesso em 2014: Guardiões da Galáxia. Uma equipe de anti-heróis com uma missão nobre, mas altamente disfuncional, com um propósito honesto, mas com métodos questionáveis. A própria trilha sonora escolhida para a cena de Sara, Onda Térmica e Capitão Frio no bar é um exemplo bem forte da inspiração retirada para a produção de LoT. Trilha que não impõe a dramaticidade de um hit como Hooked on a Feeling, mas ajuda bastante a dar um tom cômico para uma cena de violência. Em ambos os casos estamos encarando um grupo pouco conhecido pelo público, mas com um charme particular.

Entrando no aspecto negativo o episódio piloto peca ao ser carregado de muitas explicações e diversos discursos de exposição da trama principal. Nós temos Rip Hunter mencionando seu plano para o conselho do tempo no futuro e novamente para o time no presente/passado. A história do Gavião Negro e da Mulher Gavião é repetida duas vezes em quarenta minutos e com as mesmas cenas exibidas no crossover entre Flash e Arrow, além de vários momentos em que o plano é mencionado pelos personagens. Este detalhe foi o único que me incomodou. Não julgo que tenha sido a melhor forma de tratar um episódio que é uma ramificação de outras duas séries já consolidadas. Se a proposta de incluir os personagens em Arrow Flash era o de preparar o público para a estreia, a mão não deveria ter pesado tanto assim neste ponto.

Ainda é cedo para dizer se Lendas terá o mesmo retorno que Flash e Arrow, mas já posso garantir que estes quarenta minutos me empolgaram bastante. Acima de tudo a proposta da série é sim interessante e com potencial gigantesco, como a participação de personagens saídos do passado/futuro e que dificilmente conseguiram destaque se não fosse pelo dispositivo da viagem no tempo. O melhor de tudo é que talvez, e um grande talvez jogado aí dentro, a série não se apoie tanto no que está acontecendo em Star City e Central City, deixando o espaço livre para que estes heróis menores realmente se tornem lendas e não apenas mais uma promessa.

Easter Eggs e outras informações

Marc Guggenheim é produtor executivo de Lendas do Amanhã e também está escrevendo uma HQ atualmente, centralizada no personagem Jonas Quantum. Logo, o nome do filho do Rip acaba soando como algo mais importante do que realmente deveria.

– Gideon é o nome da inteligência artificial que controla a nave do Hunter e foi criada pelo Barry Allen, o Flash. Na segunda temporada da série do Corredor ela foi dublada por Morena Baccarin.

– A primeira aparição de Rip Hunter foi em Showcase, de 1959. Quem trouxe o personagem de volta aos holofotes foi Geoff Johns, o mesmo por trás de Flash.

– Waverider: a nave e máquina do tempo recebe o nome de um personagem capaz de viajar no tempo.

– Foram feitas menções a Star Wars, com Darth Vader e Boba Fett, este último um caçador de recompensas.

– Nos quadrinhos o Gavião Negro e a Mulher Gavião já moraram em St. Roch, a cidade em que conhecemos o Dr. Aldus Boardman.

– O personagem Chronos, o caçador de recompensas, tem uma história mais complicada nos quadrinhos. Lá ele iniciou sua jornada como vilão do Átomo. Na linha pós Flashpoint o personagem foi um agente da agência A.R.G.U.S., responsável por descobrir mais a respeito do Gladiador Dourado, um herói que veio do futuro.

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