Quando participei de uma confissão.

O documentário de seis episódios da HBO, lançado em 2015, só chegou ao meu conhecimento após o meu off-topic de Making a Murderer da Netflix (leia aqui). Histórias parecidas, mas com o nível de inocência completamente diferente. Enquanto senti revolta em MaM, em The Jinx a sensação que tinha era medo. Horror a Robert Durst, herdeiro de uma das empresas do ramo imobiliário mais conhecidas dos Estados Unidos, mas principalmente, a diferença entre julgamentos de classes sociais distintas. Enquanto Steven e Brendan, sem recursos para batalhar contra o sistema judiciário, foram erroneamente encarcerados, Durst, dono de uma fortuna imensa, podia jogar dinheiro ao alto que conseguia se desvencilhar de qualquer homicídio e esquartejamento crime que cometesse.

Robert Durst sempre aparentou ser um cara estranho, sem muita empatia. Excêntrico é palavra que muitos os descrevem. Discordo. Louco é a melhor palavra que define esse senhor. O motivo de ser assim? Acredito piamente que sua família é o ponto chave disso tudo, afinal, que estranho aquela história do suicídio da mãe. Qual pai, conscientemente, leva o filho para ver a sua progenitora minutos antes de se jogar para a morte? Esse é um ponto citado apenas no primeiro episódio e quem não garante que tem mais lenha nessa fogueira? Mas o documentário era sobre o filho problemático.

Foi interessante acompanhar a entrevista de Bob para Andrew Jarecki, diretor do filme Entre Segredos e Mentiras – que conta história de Robert e Kathie Durst – e deste documentário. Responder todas aquelas perguntas, sobre a obscuridade que é a sua vida, e não demonstrar nada. Um erro que Bob cometeu, desde o princípio foi: ele contou realmente o que fez com as suas vítimas. Quando ele descreve o que o possível assassino fez, eu imaginava – acredito que muita gente também – que era a sua confissão, mas projetada para outra pessoa desconhecida. Fico feliz pela grande burrada que ele fez, afinal, esse documentário serviu para levar o verdadeiro culpado – OI PESSOAL DE MANITOWOC – para a cadeia.

Kathie Durst, primeira esposa, Susan Berman, melhor amiga, e Morris Black, vizinho. Todos eram pessoas próximas a Bob e morreram. As duas mulheres não conseguiram justiça a curto prazo, apenas suspeitas recaiam sobre Durst. Enquanto Black teve uma morte dolorosa e horripilante. Mesmo com a confissão de Robert, a justiça não foi feita. E quero frisar que, durante este julgamento, foi a única vez que vi Bob expressar qualquer emoção, neste caso, o alívio.

Sempre ficou óbvio, desde o início, que Robert havia matado sua primeira esposa. Acredito que não há dúvidas sobre isso. Achei que pudesse não ter sido, logo no início, pelas mãos do herdeiro, e sim, por outra pessoa contratada por ele, mas ao confirmar que inventou um álibi para a polícia, tudo ficou bem claro na minha cabeça. O mais interessante, se é que posso usar esta palavra, foi a polícia que, sequer fez uma investigação decente sobre o tal ~ desaparecimento ~ de Kathie. As verdadeiras detetives deste caso foram as amigas da esposa. Se não fossem por elas, e também pela família, talvez o caso estivesse enterrado até hoje.

Ao longo do tempo, o caso de Kathie foi reaberto e quem apareceu na jogada foi a melhor amiga de Bob, Susan Berman. Cogita-se a ideia de que a escritora foi a verdadeira mente pensante para conseguir um álibi para Robert, no caso de sua esposa desaparecida. Infelizmente nada pôde ser provado, porque mais uma pessoa teve sua vida ceifada. Susan morreu com um tiro na nuca e, mais uma vez, Bob permaneceu sob a mira da polícia. O corpo de Berman foi descoberta pela polícia através de uma carta, nela dizia o endereço de um local e a palavra cadáver, fora o erro em Beverlly Hills.

Robert decidiu fugir, desaparecer do mundo, sabia que estava na mira da polícia mais uma vez. Raspou a cabeça, sobrancelhas e disfarçou-se como mulher. Essa segunda persona não durou por muito tempo e Morris Black, vizinho, mal sabia que estava diante de um assassino. Sua vida não durou muito, teve uma morte horrorosa. Não se sabe ainda qual a causa da morte, mas a polícia acredita que tenha sido um tiro na cabeça – única parte do corpo de Black não encontrada. Mesmo confessando o homicídio – alegou legítima defesa – e o esquartejamento, Robert, surpreendentemente foi inocentado de todas as acusações. O cara confessou que fez picadinho do ~ amigo ~ e nada acontece. MEU DEUS, COMO ACREDITAR NISSO???

Durante entrevista concedida ao documentário, Robert falava sozinho durante as pausas na gravações. Em uma dela, quando estavam tratando sobre o caso de Morris Black, ele solta “eu não menti intencionalmente”. Ou seja, entendi que essa história de legítima defesa era balela, sempre foi na verdade, mas ali estava a constatação que o júri, totalmente ignorante, despercebeu. O cara é maluco!

Toda essa entrevista, com ele contando, hipoteticamente seus crimes, me deixavam enojada e perguntando por qual motivo esse homem ainda estava solto. Sim, ele se aliou as pessoas certas, mas também tinha dinheiro para conseguir uma ótima defesa e sair impune. Isso foi evidenciado na época do desaparecimento de Kathie. O pai e irmão de Robert ajudaram a criar uma defesa sólida, mas o importante: possivelmente a família Durst sabia o verdadeiro destino da senhora Durst, mas foi para o saco afim de não destruir a reputação da família e empresa. Seymor e Douglas, pai e irmão respectivamente, podem ser cúmplices no caso de Kathie.

Por falar em família, o documentário também mostrou que o irmão mais novo de Robert e, atual presidente das Organizações Durst, tinha medo do big brother e aumentou a sua segurança, fora uma medida cautelar para manter Bob longe de si. E ele tinha total razão em fazer isso, caso não houvesse essa preocupação, Douglas seria o próximo na lista de Robert, mas confesso que não ia achar de um tanto mal isso não, até porque Douglas devia saber o paradeiro de sua primeira cunhada, porém não é o laço familiar que os protege e sim, o dinheiro e prestígio.

A parte derradeira, a mais comovente – para quem era próximo das vítimas – e chocante do documentário inteiro surge durante a etapa de edição. Encontraram uma carta de Robert endereçada a Susan, com a grafia muito parecida com a que enviaram a polícia de Beverly Hills, sem contar no erro primordial da grafia. Ali estava uma prova cabal de que Bob era o verdadeiro assassino. A produção foi atrás de um especialista em documentos para se certificar, antes de indagar Robert sobre a carta, que as duas cartas foram escritas por ele.

Algumas autoridades, e advogados, foram ouvidas pelo documentário. Duas dela, o advogado de defesa de Robert e uma promotora do caso de Kathie, receberam as cartas e as reações são distintas. A promotora viu ali, na sua frente, uma chance de ouro – desgraçado! – de, finalmente, conseguir justiça, enquanto o advogado viu o erro que o seu cliente cometeu ao torna-se disponível para entrevista. Naquele momento foi nítido, pelos dois, que o cerco fechou para Robert Durst.

Mesmo com as evidências na frente de Robert, ele negou que escreveu a carta endereçada a polícia. E essa produção, que esperta, juntou somente o endereço e perguntou a ele se saberia dizer, já que uma delas ele não havia escrito, qual era a sua verdadeira grafia. Não soube dizer. Toda essa última entrevista ocorreu normalmente, Bob não se alterou, mas dá pra perceber o seu ligeiro desconforto com a descoberta, mas juro para vocês, estava esperando ele avançar em Andrew e o matar. Tenho certeza que ele pensou a mesma coisa, e deve pensar até hoje, na listinha negra do Durst ele entrou.

E aí vem todo o clímax nos últimos minutos: Robert e sua mania de falar sozinho – nunca mais faço isso na vida – simplesmente falou consigo mesmo no banheiro: “O que diabos eu fiz? Eu matei todos, é claro!” BOOOM, a confissão que todos esperavam e que só foi percebida pelos produtores dias depois, durante o processo final de edição. Não existe maneira melhor de terminar esse documentário com a confissão. Fique com uma vazio no peito, mesmo que nenhuma das vítimas consigam a verdadeira justiça – talvez Susan – foi importante encerrar a dúvida de quem verdadeiramente tirou a vida dessas pessoas.

Depois que assisti ao documentário fiz uma pequena pesquisa sobre a situação de Robert Durst. De acordo com o que li, no dia da exibição do último episódio de The Jinx, o FBI o prendeu – AEEE. Sabe-se que a produção enviou as autoridades a confissão muito antes de ir ao ar pela HBO. No dia 23 de dezembro do ano passado, foi divulgado que no verão deste ano o julgamento de Durst pelo homicídio de Susan Berman será realizado. Quem sabe ainda resta esperança para Kathie encontrar a sua paz.

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