O fantasma do Natal passado, o fantasma do Natal presente e o fantasma do Natal futuro.

Luther mal voltou e já acabou. A curtíssima temporada do drama policial britânico chegou ao fim entrelaçando histórias. E tal qual Um Conto de Natal, de Charles Dickens, fantasmas do passado, do presente e do futuro vieram assombrar o Detective Chief Inspector John Luther.

Comecemos pelo presente. No episódio anterior vimos um assassino canibal assombrar Londres a ponto de fazer com que Luther voltasse de sua licença. E aqui temos o elo mais fraco das três histórias que o episódio abordou. No melhor estilo Dr. House, e com direito a citação a David Bowie, Luther “diagnostica” o assassino com a Síndrome de Cotard, uma doença de fundo psicológico que faz com que a pessoa passe a acreditar que está morta. O fato de o assassino estar doente retira um tanto do mistério em torno dos assassinatos e faz com que eles se tornem apenas randômicos. Afinal, agravado por seu estado mental, Steven Rose apenas observava pessoas e queria delas aquilo que ele não possuía. Na minha visão, o episódio perdeu um tempo considerável no assassinato do casal e em mostrar Steve atraindo o filho deles para a casa dos pais. Tanto que a polícia sequer visitou a cena desse crime. No fim, todo o arco dos assassinatos só serviu para que a DS Lane vingasse a morte de seu ex-parceiro, a partir de uma atitude moralmente discutível, tornando-a, assim, mais próxima de Luther. Aliás, essa atitude está diretamente relacionada a outro fantasma que atormentou nosso querido detetive. Após se livrar da “prisão” imposta por Luther, o gangster George Cornelius põe a cabeça do policial a prêmio. No entanto, este fantasma acabou sendo quase um Gasparzinho, dada a incompetência dos hitmen que tentaram capturar Luther. As cenas em que Luther enfrenta aqueles que vão ao seu encontro para matá-lo serviram quase como um alívio cômico, só que involuntário.

Partindo do cliffhanger do episódio passado, temos o fantasma do passado. Descobrimos que a misteriosa mulher que aborda Luther ao final do episódio se chama Megan Cantor e se diz ser uma vidente. É óbvio que toda essa história não dava para engolir. Alice Morgan se comunicando do além através de uma vidente não seria condizente nem com a série nem com a trajetória da personagem (além do que seria uma espécie de confirmação de morte). No entanto, a mensagem trazida por Megan (Stacey has the owl) acaba nos brindando com o melhor caso dessa curta temporada. O assassinato de Jonathan Black era um fantasma que atormentava Luther desde seu tempo de Constable (um oficial de patente mais baixa), no início de sua carreira. Desde a interação com a familiar da vítima, passando pela interpelação à provável suspeita e a resolução do caso – ok, relevemos o fato de Luther ter reconhecido Megan, ou melhor Sarah Roberts, na foto – tudo nesse plot relembrou os bons momentos da série. Especialmente se pensarmos que Luther só conseguiu resolver o caso burlando a lei e forjando evidências, mais ainda temos uma forte lembrança dos bons tempos de Luther.

Tudo nesse caso foi permeado, e até solucionado, através da presença de Megan/Sarah. A menina que testemunhou o assassinato de seu colega volta para cobrar Luther uma antiga promessa. E é nesse entrelace com o fantasma do passado que temos o fantasma do futuro. Megan, obcecada pela proteção que Luther a prometeu, vinha espionando o detetive durante seu recesso e monitorando seu envolvimento com Alice. O plot twist aqui até é bem amarrado, especialmente se lembrarmos o episódio anterior, em que Megan estava na casa de Luther, no entanto acaba sendo enfraquecido por conta da própria personagem. Não tivemos tempo suficiente para um pleno desenvolvimento de Megan e por mais que ela pareça mesmo uma psicopata, obcecada por Luther, é difícil crer – como o roteiro deixa em suspenso – que ela tenha sido a responsável pela morte de Alice. Aliás, também não pareceu crível ver Luther dizendo I’m coming for you quando ele podia muito bem ter resolvido tudo ali mesmo.

Assim, Luther encerra sua breve incursão nesta quarta temporada. No entanto, dado o cliffhanger ao final é possível dizer que ainda veremos Idris Elba de sobretudo e gravata vermelha, desfilando seu sotaque londrino na fotografia escura de Luther. Aliás, este final ficou com mais gosto de quero mais, do que de closure. Além disso, por mais que o DCI Luther tenha dito que the dead don’t come back, eu não duvidaria que ainda possamos ver Alice Morgan uma vez mais. O final em aberto pareceu uma boa conveniência para quando Ruth Wilson tiver uma agenda menos atribulada. E torço muito para que isso aconteça e que possamos ver mais de Luther. De preferência em hiatos menores.

Artigo anteriorAs 15 Melhores Séries de 2015
Próximo artigoChildhood’s End Season 1