Star Wars chegou para se tornar mais uma incógnita na corrida do Oscar.

Já estava na hora de fazer minhas primeiras previsões para as categorias técnicas do Oscar. Esse ano as coisas estão mais disputadas do que de costume. Talvez o maior motivo seja que tenhamos três fortes concorrentes aos prêmios principais com potencial alto para prêmios técnicos. Mad Max, The Martian e The Revenant são presenças praticamente garantidas em Melhor Filme e Melhor Diretor, o que torna a competição para os prêmios “menores” extremamente acirrada. Isso sem falar em Star Wars.

A grande especulação da semana é se o novo capítulo da saga conseguirá uma indicação a Melhor Filme. A resposta da crítica (*), com 81 no Metacritic e 95% no Rotten Tomatoes, é muito boa e fica auxiliada por uma bilheteria monstruosa que não para de quebrar recordes. Será que o hype influencia a Academia?

(*) Não que eu faça parte da “crítica”, mas meu texto opinativo sobre o novo filme está no final dessa coluna.

Por enquanto minha resposta é negativa. Star Wars com certeza fará uma boa exibição em algumas categorias técnicas, sendo as apostas mais seguras: Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som e Trilha Sonora Original. Mais do que isso envolve ultrapassar filmes estabelecidos na corrida há um bom tempo, com indicações a prêmios importantes e campanhas já em andamento.

Esse não é o maior motivo, entretanto, A competição entre filmes blockbuster e de ficção científica está incomumente acirrada esse ano. Mad Max e The Martian já se estabeleceram firmemente nas categorias principais, e fica difícil imaginar que os votantes da Academia abrirão espaço para mais um filme desse tipo, que claramente não é o que eles gostam. É importante lembrar que a votação para Melhor Filme envolve o preenchimento de apenas 5 espaços, e não 10. Estará a Academia disposta a abandonar seus favoritos a favor de Star Wars? Em 2010 tivemos dois filmes de ficção científica (Avatar e District 9) na categoria principal, mas naquele ano os votantes deveriam escolher 10 filmes.

Não é apenas isso: o sistema de votações agora é preferencial. Isso significa que os 5 escolhidos por um votante são organizados por ordem de preferência. Nesse caso, é indispensável que o filme seja o primeiro ou segundo colocado para pelo menos 300 votantes a fim de ser indicado a Melhor Filme. Ser indicado na categoria principal não envolve apenas aparecer em uma quantidade grande de votos, mas necessariamente ser a primeira ou segunda escolha dos mesmos.

Mesmo assim, tudo é possível nessa corrida. O histórico de Star Wars foi piorando com o passar do tempo, mas agora parece que a franquia reacendeu o amor da audiência. Veremos. Enquanto isso, vamos analisar as categorias técnicas!

Melhor Cinematografia

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1. Emmanuel Lubezki, The Revenant

2. John Seale, Mad Max: Fury Road

3. Edward Lachmann, Carol

4. Robert Richardson, The Hateful Eight

5. Roger Deakins, Sicario

6 a 10

Todo mundo nessa lista tem pelo menos 1 indicação ao Oscar. Temos 6 estatuetas aqui, posicionadas ao lado das incríveis 12 indicações sem vitória do lendário Roger Deakins. Isso torna um pouco difícil entender como um campo tão competitivo pode facilmente repetir as vitórias de 2015 e 2014. Lubezki tem tudo para levar o terceiro Oscar consecutivo após o estupendo trabalho realizado em The Revenant. Não há uma crítica ao filme que não se derreta em elogios para a cinematografia, e pelos trailers o trabalho parece realmente ser algo nunca antes visto na história do cinema. Mesmo assim, é bom tomar cuidado: todos os outros trabalhos nessa lista foram muito elogiados e carregam nomes de peso. De fora temos o poderoso Kaminski e suas eternas colaborações com Spielberg, além do trabalho de Dariusz Wolski em The Martian.

Melhor Design de Produção

1. Carol

2. Mad Max: Fury Road

3. Brooklyn

4. Bridge of Spies

5. Crimson Peak

6 a 10

O ramo de design de produção na Academia sempre prefere filmes de época. Foi assim nos últimos quatro anos, e agora em 2016 temos Carol, um longa que atende todos os requisitos da categoria com facilidade. Entretanto, não há nada decidido. Mad Max é um dos maiores perigos aqui, já que o filme tem chances de arrebatar várias categorias técnicas. Um competidor mais inusitado é Crimson Peak, que provavelmente teve os sets mais elogiados do ano com uma mansão inteira construída para abrigar sua trama. The Danish Girl e Cinderella são boas apostas alternativas: lembrem-se, aqui é costumeiro que filmes sem qualquer peso na corrida principal consigam uma indicação.

Melhor Figurino

1. Carol

2. Brooklyn

3. Cinderella

4. The Danish Girl

5. The Revenant

6 a 10

Essa categoria é ainda mais direcionada a trabalhos de época, e a presença da Disney aqui é invejável. Ano passado tanto Into the Woods quanto Maleficent entraram no páreo, e agora a presença de Cinderella é praticamente garantida, principalmente porque a indicada aqui seria Sandy Powell. A figurinista já tem 3 Oscars no bolso e também compete por Carol, que é a meu ver o favorito nessa categoria. Mad Max tem chances de entrar, mas não é um favorito. Fiquem de olho em The Hateful Eight.

Melhores Efeitos Visuais

1. Star Wars: The Force Awakens

2. Mad Max: Fury Road

3. The Revenant

4. The Martian

5. Avengers: Age of Ultron

6 a 10

Esse é o lar de Star Wars, mas outros 3 competidores a Melhor Filme abarrotam a categoria de possibilidades. Aqui especificamente tivemos uma shortlist com 10 títulos divulgada pela Academia, que além dos longas acima citados inclui Jurassic World, The Walk, Ex Machina, Tomorrowland e Ant-Man. O reboot da franquia dos dinossauros é a maior ameaça. The Walk é uma possibilidade após vários elogios dirigidos à sequência final de equilibrismo, mas o filme ficou tão esquecido na corrida que fica difícil saber se haverá uma ressurreição.

Melhor Trilha Sonora Original

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1. Ennio Morricone, The Hateful Eight

2. John Williams, Star Wars: The Force Awakens

3. Carter Burwell, Carol

4. Michael Giacchino, Inside Out

5. Thomas Newman, Bridge of Spies

6 a 10

Essa será a quinquagésima indicação do lendário John Williams ao Oscar, um recorde absoluto. Sua sexta vitória também poderia acontecer esse ano, mas temos outra lenda no pedaço. Ennio Morricone até hoje não ganhou uma estatueta competitiva, e seu trabalho parece estar mais chamativo do que nunca nessa colaboração com Tarantino. É um western, é uma homenagem aos filmes clássicos, será exibido em 70mm e tem uma trilha sonora de Morricone. A nostalgia será alta, e aqui Star Wars fica pra trás por não ser uma composição totalmente original. Carol também é uma ameaça para a vitória, mas o compositor Carter Burwell conseguiu a façanha de compor todos os filmes dos irmãos Coen e nunca ser indicado até hoje. Talvez a Academia não goste mesmo dele. Fora das minhas previsões temos duas trilhas extremamente merecedoras que infelizmente não atendem muito o gosto dos votantes: Mad Max e Sicario. Por último, é bom avisar: a trilha sonora de The Revenant foi considerada inelegível por ser composta por mais de uma pessoa. Curiosamente, o mesmo aconteceu ano passado com o outro filme de Iñárritu, Birdman.

Melhor Edição

1. Mad Max: Fury Road

2. Spotlight

3. The Big Short

4. The Martian

5. The Revenant

6 a 10

Sejamos sinceros, qualquer vitória aqui que não seja Mad Max é uma vergonha. Mesmo assim, temos o provável vencedor de Melhor Filme ameaçando aqui, talvez a única categoria técnica na qual Spotlight será indicado. Uma das incógnitas é The Revenant. Parece que o filme utiliza as mesmas técnicas de edição invísivel de Birdman, algo que deixou o filme em “plano-sequência” de fora dessa categoria ano passado. Não faz muito sentido: a edição existe, ela só está escondida.

Melhor Edição e Mixagem de Som

1. Mad Max: Fury Road

2. The Martian

3. The Revenant

4. Star Wars: The Force Awakens

5. The Hateful Eight

6 a 10 (Edição)

6 a 10 (Mixagem)

Edição de som envolve a criação de efeitos sonoros: tiros, explosões, cortes, etc. Sons que não foram gravados durante a filmagem e são desenvolvidos pelos editores de som. Já a mixagem de som é um trabalho de balanceamento. O mixador deve mesclar diálogos, som ambiente e efeitos sonoros de forma coesa e inteligente. O diálogo está inaudível? Culpe o mixador.

No caso dessas categorias no Oscar, o que normalmente vemos é uma correlação muito próxima entre uma e outra. É o mesmo ramo da Academia que escolhe as duas categorias, e talvez a única diferença discernível entre elas seja a preferência da Mixagem de Som por musicais. Supostamente isso é porque a mesclagem das músicas com os outros sons é mais difícil ou chamativa. Alguns anos atrás Les Miserábles ganhou o Oscar de Mixagem de Som sem sequer ser indicado a Edição. Como não temos nenhum filme do tipo esse ano, mantive minhas previsões idênticas para ambas as categorias.

Melhor Maquiagem e Penteados

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1. Mad Max: Fury Road

2. The Revenant

3. Mr. Holmes

4. Black Mass

5. The 100-Year-Old Man Who Climbed Out the Window and Disappeared

6. Legend

7. Concussion

Essa categoria sempre divulga uma shortlist de 7 títulos, sendo que apenas 3 são indicados no final. Aqui é basicamente um trabalho de escolher os filmes mais chamativos nesse quesito. Fiquem de olho no filme com nome extremamente longo do qual ninguém nunca ouviu falar: se chegou até aqui, algum motivo tem.

Bônus: Melhor Filme Estrangeiro

1. Son of Saul  (HUNGRIA)

2. Mustang  (FRANÇA)

3. A War  (DINAMARCA)

4. Labyrinth of Lies  (ALEMANHA)

5. Embrace of the Serpent  (COLÔMBIA)

Saiu a shorlist com 9 títulos e ela enterrou oficialmente as esperanças do Brasil no Oscar 2016. Além dos cinco títulos acima, que eu considero os mais prováveis indicados, temos os seguintes filmes: The Brand New Testament da Bélgica, The Fencer da Finlândia (apareceu do nada no Globo de Ouro e se repetiu aqui), Embrace of the Serpent da Colômbia, Theeb da Jordânia e Viva da Irlanda. Consegui prever 4 dos 9 filmes na shorlist, e mais que isso é bem difícil. Foram 81 filmes submetidos e as surpresas sempre acontecem nessa categoria. É de certa forma triste ver o ótimo ano do cinema na América Latina ser quase completamente ignorado a favor de filmes europeus. Eu até poderia comemorar a presença da Jordânia se não tivesse achado Theeb um longa pouco criativo e decididamente ordinário.

Na verdade, todos os meus filmes favoritos da lista de submissões foram ignorados (Arabian Nights, Que Horas Ela Volta?, Goodnight Mommy e A Pigeon…), e o único outro que assisti até agora na shorlist foi Labyrinth of Lies, uma isca de Oscar com sérios problemas de falta de vergonha na cara. Espero que os outros 7 títulos que ainda não conferi sejam satisfatórios.

Atualizações

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Star Wars: The Force Awakens representa o alívio de fãs da saga criada por George Lucas após o desastre das prequels. J. J. Abrams conhece o universo de Star Wars e dirige de forma extremamente competente um “soft reboot” que mistura elementos novos e antigos na fórmula da trilogia mais amada de todos os tempos. A tarefa é hercúlea, e deixa atores como Oscar Isaac (um dos mais talentosos da atualidade) e Gwendoline Christie mal representados, já que o filme tem vários itens para abranger. Por outro lado temos um núcleo central espetacular. John Boyega impressiona como um stormtrooper que decide largar o emprego, demonstrando um talento incomum para comédia. Ele só não é a estrela do filme pois o brilho de Daisy Ridley ofusca a todos: a inexperiente atriz é um dos achados mais preciosos dos últimos tempos, com magnetismo e carisma invejáveis. Do lado negro da força Adam Driver constrói um vilão surpreendentemente tridimensional. O novo elenco e sua interação com os veteranos leva The Force Awakens ao brilhantismo junto a uma cinematografia inspirada que foge do lugar-comum, mas é nesse ponto que o enredo do filme falha. As semelhanças com A New Hope são presentes do começo ao fim e fatigam o expectador. O episódio VII estabelece um futuro extremamente promissor para a nova saga, mas por enquanto se recusa a fugir dos padrões pré-estabelecidos pelos seus clássicos antecessores. Avaliação: ★★★½

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Taxi é o vencedor do Urso de Ouro, prêmio mais importante do festival de Berlim. O longa é de Jafar Panahi, e aqui é necessária uma explicação. O diretor iraniano já comandou vários filmes aclamados desde os anos 90, mas sua exploração de temas controversos lhe trouxe uma série de problemas com o governo do Irã. Panahi já foi preso diversas vezes, em certas ocasiões junto com sua família. Mais recentemente, em 2010, ele foi proibido de dirigir, produzir ou entrar em contato com qualquer tipo de filme por um período de 20 anos, além de ser sentenciado ao cárcere residencial. Mesmo assim, Panahi continuou a enviar seus longas para festivais internacionais de forma clandestina, este sendo o terceiro. Taxi foi filmado com o diretor assumindo o papel de taxista e circulando pelas avenidas de Teerã, encontrando todo tipo de pessoas. O longa mistura documentário com ficção, mas não cai na tentação de ser um protesto vociferante contra o governo iraniano. Em sua maior parte vemos conversas entre o diretor e seus passageiros, sendo a própria sobrinha de Panahi, que não deve ter mais de 9 anos de idade, o principal destaque. O tom é leve e bem-humorado, e as críticas chegam de forma sutil e elegante. Afinal, a própria existência de Taxi é um poderoso ato de desafio, com Panahi arriscando sua vida para continuar a fazer o que mais ama. Temos aqui uma das mais tocantes mensagens de amor ao cinema envelopada em um projeto simples e desafiador. Avaliação: ★★★★

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Sicario é o novo projeto do aclamado diretor canadense Denis Villeneuve, estrelando Emily Blunt, Benicio Del Toro e Josh Brolin. Conhecido por criar universos obscuros e sombrios, o cineasta se supera aqui ao nos oferecer um retrato brutal da guerra contra as drogas na fronteira dos EUA com o México. Auxiliado por uma das cinematografias mais espetaculares do ano (coordenada pelo mestre Roger Deakins) e uma trilha sonora absolutamente horripilante de Jóhann Jóhannsson, o filme acompanha com crescente tensão o trabalho de Kate Macer (Blunt), uma investigadora de desaparecidos que se envolve com os personagens de Brolin e Del Toro na caça ao maior traficante de narcóticos do México. Sua visão de moral e justiça é violentamente contorcida quando ela se depara com os métodos suspeitos desses dois personagens e tenta descobrir o que exatamente está acontecendo. Del Toro habita território familiar, mas o faz de forma brilhante ao oferecer um contraponto sinistro para a relativa inocência de Blunt. A atriz supera aqui todos os seus trabalhos passados ao nos entregar a vulnerabilidade e indecisão de sua personagem. Sicario nos mostra um mundo sem esperança, habitado por personagens exaustos e quebrados. Algumas das cenas de ação mais tensas do ano ajudam a acelerar o coração do expectador, mas em todo resto o longa é lento e inexorável, como uma serpente enroscando-se cada vez mais firme em sua vítima. Devo dizer que sou grato por me tornar uma delas. Avaliação: ★★★★½

Nos Cinemas

In the Heart of the Sea (MC 47/RT 42%) provou ser o flop que todos estavam esperando. O filme de Ron Howard abriu com 15 milhões de dólares, caiu quase 70% na segunda semana com a chegada de Star Wars e provavelmente dará prejuízo para a Warner. Não faço a mínima ideia de porque o estúdio tirou o filme do início do ano e o colocou na temporada de premiações. FLOP.

The Big Short (MC 81/RT 86%), por sua vez, foi uma aposta certeira da Paramount. Acabei de colocar o filme nas minhas previsões para Melhor Filme, e a estreia na bilheteria parece corroborar minha aposta. Foram espetaculares 700 mil dólares em apenas 5 salas de cinema, um dos melhores lançamentos em circuito limitado do ano.

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