Uma série que aprende com os próprios erros.

Chegamos ao fim desta fantástica temporada com um episódio que cumpriu o que era esperado. Não foi um episódio épico, como o da tempestade, mas apresentou tudo o que era necessário para fechar a temporada com qualidade elevada. Foi bem interessante ver de novo os dois POVs contando a mesma história, o que nos mostra que não foi a estrutura que falhou na primeira temporada, mas sim a execução. Da forma como a história foi apresentada, foi extremamente útil a sobreposição dos pontos de vista.

“I still love you

I still want you

I still need you

Don’t hang up and say goodbye”

Primeiramente, vemos Noah e Alison cada vez mais afastados e enfrentando ainda mais dificuldades para manter seu relacionamento vivo. O convite para ir à França e o anúncio de que ela trabalharia o resto do ano no restaurante serviram para estabelecer o clima de tensão necessário para os acontecimentos seguintes, mesmo que cada um tenha acontecido em um POV diferente, o que é tranquilamente justificável, visto que um era mais importante para Alison e o outro para Noah.

Mas o tom mais obscuro realmente cai sobre o episódio quando Alison conta sobre a paternidade de Joanie. Seja no diálogo na escada ou durante a performance de Scotty, os sentimentos transbordaram na tela, especialmente na parte de Noah. A ambiguidade do personagem não permitiu que a empatia pelo momento se perdesse. Em seu discurso, ele não desabafa apenas em relação àquela situação, mas fica claro que ali vinha debruçado um caminhão de emoções que vinham se acumulando durante todo o percurso do relacionamento dos dois.

A cena do atropelamento, no POV de Noah, foi um susto e tanto, ainda mais naquele momento de Helen e Noah na estrada, ao som de uma música incrivelmente sugestiva. Por falar nisto, San Francisco Days (citada antes no texto) caiu como uma luva para o momento de Noah, seja em relação a Helen, que agora temos uma noção mais clara do porquê de sua ajuda ao ex, ou a Alison que, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelos dois, parece que nada quebra a parceria do casal.

“Oh mother, tell yor children

Not to do what I have done

Spend your lives in sin and misery

In the house of the rising sun”

Cabe aqui uma menção à atuação de Colin Donnel. Scotty foi muito importante para a trama, principalmente nesta finale, e Donnell conseguiu imprimir o tom sombrio necessário para a despedida do personagem. The House of the Rising Sun não falava apenas sobre família, como ele disse. A canção se encaixou perfeitamente com a vida de Scotty e sua trajetória durante a série, e foi mais uma das tantas cerejas que The Affair conseguiu colocar no topo do bolo que foi esta temporada.

Toda a sequência da cena do crime conseguiu costurar tudo o que ainda estava deixando dúvidas a respeito da morte de Scotty. É extremamente relevante ver o quanto o triângulo Noah-Alison-Helen está entrelaçado neste plot e agora há muitas possibilidades para a próxima fase. Mas o mais importante é ver que, mesmo com vários caminhos deixados para o futuro, não houve sequer um tema sem fechamento. As perguntas deixadas a partir de agora são resultados das respostas entregues nesta finale.

A confissão de Noah no tribunal me pegou totalmente de surpresa. Porém faz com que a suavização impressa no personagem nos últimos episódios faça mais sentido. Se a série mantivesse o tom pesado nas atitudes de Noah, não se justificaria o seu sacrifício em nome de Alison, ainda mais considerando que Joanie não é sua filha biológica. Acredito que, na próxima temporada, ainda nos apresentarão muita novidade a respeito disto.

E assim se encerra uma temporada brilhante, que conseguiu fechar todas as portas que abriu durante sua trajetória, deixando, ainda, boas possibilidades para o próximo ano. É muito bom ver que a série atinge enfim uma regularidade, conseguindo superar a boa temporada de estreia. Fomos presenteados, neste ano, com uma produção impecável, que conseguiu consertar todos os erros do ano passado, e agora a expectativa fica nas alturas para 2016.

Alguns outros olhares:

Minha única reclamação sobre o episódio é sobre a inconsistência entre os POVs sobre como Alison fala sobre a paternidade de Joanie para Noah. Este foi um ponto em que os dois deveriam lembrar com clareza.

Por outro lado, as discrepâncias em relação a como Noah e Alison viram outras coisas, como o vestido e o quarto dela, e também a cerimônia de casamento de Cole e Luisa fizeram todo sentido dentro do contexto.

Já está na hora da série deixar de ser taxada como “aquela das cenas soft porn”. The Affair já provou por a+b que é um excelente drama e tais cenas não alteram em nada sua qualidade.

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