Esqueça o debate entre comédia e drama. Transparent não precisa de rótulo para se provar como uma das melhores séries da atualidade.

Essa review contém spoilers de todos os episódios da segunda temporada de Transparent.

A jornada de Transparent durante o hiato entre a primeira e a segunda temporada foi mais interessante do que podíamos imaginar. Vencedora de 5 Emmys, indicada a mais 6, vencedora do prêmio de Melhor Série de Comédia no Globo de Ouro… Jeffrey Tambor ganhou todos os prêmios possíveis e imagináveis, sendo um necessário alívio após de anos e mais anos de dominação de Jim Parsons, cujas vitórias já estavam me trazendo ódio.

Poderia ter isso apenas isso, mas não foi. Transparent acabou se inserindo num movimento de reconhecimento da transsexualidade que atingiu várias esferas do entretenimento. Caitlyn Jenner, Tangerine, The Danish Girl, Laverne Cox e sua indicação ao Emmy por Orange is the New Black. É interessante, então, que nessa segunda temporada a série não parece mais tão engajada nesses aspectos. Maura já se abriu para seus filhos e eles todos já aceitaram sua mudança de sexo. É hora de explorar outros assuntos.

Esse pensamento faz total sentindo no contexto da série, mas acaba deixando certos aspectos da experiência transsexual pouco representados. No final das contas, Transparent é sim uma série com elementos cômicos proeminentes, e isso dificulta a entrada da criadora Jill Solloway nos assuntos mais pesados relacionados ao tema. Estou falando de transfobia, violência e crimes de ódio, e no geral das dificuldades enfrentadas por pessoas trans todos os dias.

Esses tópicos realmente desaparecem de cena na segunda temporada. Enquanto Maura trafega de uma festa para outra e tem como maior dificuldade a descoberta de sua sexualidade, é difícil esquecer-se do quão fácil sua vida está sendo em comparação à de outros membros da comunidade transsexual. Em um momento iluminado Transparent reconhece isso, durante a briga entre Maura e Devina. Após a primeira tecer comentários maldosos a respeito do companheiro recém saído da prisão de Devina, esta joga-lhe na cara informações nunca antes reveladas pela série. Ela é uma ex-prostituta e portadora de HIV. Maura é sim membro de uma minoria, mas sua experiência não representa aquela normalmente encontrada por transsexuais ao redor do mundo.

Talvez por isso que nessa segunda temporada tivemos a inclusão de uma sequência de flashbacks que certamente pegou todo mundo de surpresa. Desde o primeiro episódio acompanhamos os ancestrais da familia Pfefferman que moravam em Berlim nos anos 30, e sua história atinge tons sinistros conforme vai se desenvolvendo. É tudo baseado em fatos reais: o instituto de pesquisa sobre sexo realmente existiu, e o personagem interpretado por Bradley Whitford, Magnus Hirshfield, é uma figura histórica. O fato de termos outro membro da família Pfefferman que é trans pode parecer conveniente demais (*), mas serve a seu tema. A posterior invasão nazista em 1933, que é retratada na série, também existiu. A biblioteca de Hirshfield foi queimada, o instituto destruído e tanto homossexuais como transsexuais foram enviados para os campos de concentração. Uma necessária lembrança de que a comunidade LGBTQ enfrenta problemas muito mais sinistros do que aqueles comumente retratados na série.

(*) Existem alguns artigos discutindo a hereditariedade no meio LGBTQ, mas não tenho conhecimento de causa e prefiro me abster da discussão.

Voltemos ao assunto principal, entretanto. Transparent é sim uma série sobre transsexualidade, mas seu escopo, principalmente nessa temporada, é outro. Esse objetivo já se mostra na primeiríssima cena da temporada, um plano sequência de quatro minutos que me deixou de queixo caído. Nessa cena (representada na capa dessa review) vemos a família Pfefferman por completo em apenas um frame, e não há aqui preocupação em mostrar qualquer personagem de forma individual. Mais pessoas vão sendo adicionadas ao grupo e a câmera continua a mostrar todas elas em meio a uma balbúrdia ensurdecedora. Transparent é sobre uma família e todos os seus componentes.

É nesse passo que a série devenvolve as histórias individuais de cada Pfefferman. Gostei mais de algumas do que outras, mas o que nunca falta em Transparent são momentos de pura beleza. Nessa temporada, especificamente, eles foram mais intensos do que nunca. A série ficou mais engraçada e mais triste ao mesmo tempo, sendo que ambos seus extremos foram mais longe do que no primeiro ano.

A trama de Maura é uma das mais interessantes da temporada. Jeffrey Tambor arrecadou o Emmy e o Globo de Ouro por sua atuação, mas aqui o ator consegue melhorar sua performance e alcançar níveis estratosféricos. O conforto dele dentro de Maura faz com que ele suma dentro da personagem. Isso é inclusive algo necessário para o desenvolvimento da série. Maura já tem mais experiência dentro do mundo e está muito mais confortável consigo mesma, algo que Tambor representa com perfeição desde o primeiro episódio da segunda temporada.

Essa clareza, entretanto, não se transfere para o nível sexual. Maura reata seu relacionamento com Shelly, mas hesita em comunicar-se sexualmente com sua ex-esposa. Isso felizmente não a impede de masturbá-la na banheira, em uma cena absolutamente fantástica.

Maura por fim abandona sua velha companheira e vai morar temporariamente com Devina. É com a chegada do seu companheiro encarcerado que o problema realmente se revela. O personagem é atraído por mulheres trans e não cansa de transmitir seu amor para Devina. Maura observa a amiga e percebe que, mesmo tendo mudado de sexo com sucesso, não conseguiu resolver sua vida sexual.

É nesse ponto que outro quesito interessante entra em jogo. Por algum motivo eu não imagino Jeffrey Tambor como alguém velho, mas o ator tem mais de 70 anos de idade. Maura também, e esse fato surge na segunda temporada. Em certos momentos Transparent é tanto sobre sexualidade para transsexuais como para idosos, e é aqui que a personagem de Vicki (interpretada pela lendária Anjelica Huston) entra em cena para criar uma das cenas mais poderosas dessa temporada. As duas inicialmente apenas dormem de conchinha, e com lentidão determinada vão conhecendo o corpo uma da outra.

Ali passa por um arco semelhante nessa temporada, mas sua inabilidade de pousar, frase que a própria Maura usou para descrevê-la na primeira temporada, acaba trazendo uma espiral de acontecimentos repetitivos que se espelham também na trama de Sarah. Ali reata sua amizade com Syd (*), torna-se lésbica, engata um relacionamento com Syd, abandona Syd, experimenta uma conexão com uma professora universitária muito mais velha e decide também não ficar com ela no final da temporada.

(*) Syd é interpretada fofíssimamente por Carrie Brownstein. A atriz é criadora da série Portlandia, além de ser guitarrista e vocalista da banda Sleater-Kinney, que é basicamente a banda de punk rock mais importante dos anos 90. Ela chuta bundas na guitarra e acabou de lançar com as companheiros um dos álbuns mais aclamados de 2015, intitulado No Cities to Love.

A montanha-russa experimentada por Sarah talvez seja ainda maior. Ela casa-se com Tammy, imediatamente se separa dela, brinca um pouco com o fornecedor de drogas de Josh, quase volta com Tammy e, no final da temporada, parece voltar com o ex-exposo Len.

Esse tipo de narrativa, que também me irritava em Six Feet Under, tem seus problemas. Syd, por exemplo, é simplesmente abandonada no meio da temporada. Eu sinto que uma série tem muito mais a explorar sobre um personagem quando ele se relaciona intimamente com outro personagem do que quando ele mantém-se à deriva, e é isso que torna o arco de Josh tão poderoso nessa temporada.

Seu relacionamento com Raquel é algo que se desenvolveu no decorrer da primeira temporada e cria raízes nesse segundo ano. Com essa relativa estabilidade conseguimos entender melhor os personagens e a relação deles um com o outro. Há mais espaço para Transparent respirar e estabelecer a narrativa dos dois.

Essa narrativa não envolve apenas Josh e Raquel, mas também o filho de Josh com Rita que foi descoberto no season finale da temporada passada. Colton é um personagem adorável que infelizmente se envolve no furacão da família Pfefferman e sai ferido. Raquel também acaba se ferindo, e o motivo é algo que sempre se repete em Transparent: a dificuldade que os Pfefferman têm para assumir compromissos. Raquel perde seu bebê em estágios iniciais da gestação e decide imediatamente ter outro. Josh quer “respirar” e “dar um tempo”. Ao mesmo tempo que entendemos a decisão de Raquel em abandoná-lo, somos atingidos pela poderosa atuação de Jay Duplass. Sua dor é real, e sentimos que todos os traumas passados do personagem poderiam ter sido resolvidos entre ele e Raquel.

O que Transparent nos ofereceu além disso nessa temporada? Algo inesperado para uma comédia independente de 30 minutos: virtuosidade técnica. A série ficou mais bonita, e isso fica provado logo de cara com o primeiro episódio da segunda temporada e, na minha opinião, o melhor de todos. Abarcando um acontecimento contido (o casamento entre Tammy e Sarah), a série aproveita para adotar um look diferenciado e adequado ao acontecimento. O branco domina, e é envelopado por dois planos sequência indescritivelmente lindos que iniciam e encerram o episódio.

A aura etérea que domina essa cena é de uma epicidade inigualável. A câmera trafega pelos quartos do hotel nos quais cada Pfefferman está hospedado, revelando-nos informações importantes sobre cada personagem. Por fim, temos uma conexão visualmente impactante com os flashbacks da temporada. Nesse caso Transparent não se contenta com o visual, e usa de seu já estabelecido tato musical a fim de utilizar uma canção belíssima que reaparece em alguns momentos da temporada para evocar os acontecimentos em Berlim.

A sensibilidade de Transparent para criar seus momentos mais emotivos é talvez minha característica favorita da série. Outra forte competidora é a química entre os Pfefferman, algo que segue forte nessa temporada. Quando eles estão juntos nós compramos a ideia de que esse grupo de atores desconexos formam uma família. A maior ênfase nos aspectos cômicos que essa temporada dá ajuda a criar cenas de puro deleite, nas quais simplesmente acompanhamos a convivência tranquila de Maura, Shelly, Josh, Ali e Sarah.

O que, afinal, podemos extrair de Transparent nessa segunda temporada? Tivemos o amadurecimento de alguns personagens (Maura e Josh), enquanto outros ainda parecem estar à deriva. Tivemos a apresentação de um ambicioso flashback que, apesar de ter pouco tempo para se desenvolver, nos mostrou um dos lados mais sombrios da luta LGBTQ. Tivemos várias participações especiais, mostrando a força de Transparent após uma primeira temporada espetacular.

É possível que eu ainda tenha aqueles 10 primeiros episódios da série como mais especiais, mas digerir algo como Transparent requer um pouco mais de tempo. A obra de Jill Solloway ficou mais intensa, mais elegante e mais madura. Estamos diante de um clássico moderno em processo de construção. Entre logo nesse redemoinho.

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