Você está satisfeito?
Antes de começar o texto analisando a série, alguns fatos sobre minha pessoa:
1 – Nunca estive em um relacionamento propriamente dito (que implique exclusividade na questão afetiva/sexual);
2 – Amo (tipo, muito) filmes e séries onde as relações (principalmente amorosas) são colocadas a provas de fogo (alô, Closer e Apenas Uma Noite);
3 – Os atos que vão contra a (aparente) natureza das pessoas me fascinam demais. É o meu lado psicólogo frustrado.
Dito isso, digo sem medo nenhum que, se você der uma chance para Satisfaction (que iniciou sua 2ª temporada este mês), não vai se arrepender nem um minuto.
Sobre o que é a série? De forma bem simples, sobre a felicidade. Mais precisamente, sobre a falta dela. Sobre como as oportunidades que perdemos nos moldam de um jeito que parece nos empurrar por uma chance de tê-las novamente.
Na trama principal, está o casal Truman, Neil e Grace. Ele é o típico exemplo de conquista do “sonho americano”: casa confortável, emprego rentável, mulher, filha. Mas algo está faltando nessa equação que, para muitos, resulta na felicidade. E após um episódio desencadeado pelo stress num avião, a vida de Neil – e por consequência, de toda sua família – se transforma quando ele flagra a mulher transando com outro homem.
Mas não qualquer homem: um acompanhante pago. E o próprio Neil se aventura pelo mundo do sexo por dinheiro quando decide embarcar em sua versão da jornada de autodescoberta, fazendo paralelo com Buda abandonando sua família para encontrar o significado de sua existência.
E é essa busca de Neil por um sentido na sua vida e pela melhoria do seu casamento que ganha contornos mais delicados nas figuras de Simon, o acompanhante que a esposa de Neil vinha encontrando há seis meses, e Adriana, cafetina de luxo.
Todos os diálogos de Neil com estes personagens trazem à tona questionamentos que ele empurrava para o fundo de sua mente: o que é a verdadeira felicidade? O que mede a conexão de um casal? Sexo sem amor implica traição em um casamento de 18 anos? Mas o que ele nunca pensou foi que, se ele tem essas dúvidas, sua esposa também pode ter seus próprios questionamentos.
E Grace não só possui muitas dúvidas como questões mal resolvidas. Na fala do próprio Simon:
A vida de Grace é entediante, mas ela não é”
Com a filha às vésperas de ir para a faculdade, Grace vê nisso uma nova oportunidade de revitalizar sua paixão pela profissão que abandonou para ser mãe em tempo integral: designer de interiores. Ao perceber que muito vinha faltando em seu casamento, Simon aparece como uma materialização de todas as oportunidades que ela abandonou quando era mais jovem, e isso é visível na transformação que ela inicia nesta temporada e que promete ser intensificada na próxima.
Falando em transformações, não existe maios agente da mudança em Satisfaction do que Adriana. Toda sua figura transpira sensualidade e aventura, e a tensão sexual dela com Neil (e Grace…) é um dos maiores trunfos da série. A atuação de Katherine LaNasa é um deleite para o espectador, uma força que faz com que os personagens gravitem ao seu redor.
Destaco ainda o episódio 6, Through Exposure, de longe o melhor da 1ª temporada. Ao colocar a situação da mulher que recebe um acompanhante pago pelo próprio marido (paraplégico) para cumprir a missão que ele já não pode, temos aí o centro de toda a série, a discussão sobre as relações, sobre o que seria certo e errado para duas pessoas que se amam. A própria fala do marido paraplégico define o pensamento que muitos têm atualmente:
Amor só leva o casal até certo ponto antes das necessidades atrapalharem”
Neil questiona que o sexo não é, necessariamente, o verdadeiro barômetro de um casamento. Esse indicador seria medido pelo diálogo, pelo nível de confiança que uma pessoa deposita na outra ao jurar estar sempre ao lado dela na saúde e na doença. Infelizmente, é mais fácil falar do que agir.
Um ponto curioso também é a presença da Flor de Lótus na abertura e em alguns momentos da temporada (como a tatuagem que Adriana faz em sua convidada e no grupo que hackeia o servidor no trabalho de Neil).
O símbolo da Lótus está ligado às divindades hindus Vishnu e Lakshmi (não coincidentemente, marido e mulher). Vishnu também é conhecido como Preservador, e integra o Trimurti¸ um conceito do Hinduísmo que personifica as forças de criação (Brahma), manutenção (Vishnu) e destruição (Shiva); já Lakshmi é a deusa da prosperidade (material e espiritual – outra dualidade abordada pela série). Também pode-se aplicar o simbolismo budista da Lótus, que representa a pureza de corpo, fala e mente: a flor, símbolo de toda essa pureza, nunca encosta a água que habita, por mais imunda ou lamacenta que ela esteja. É a iluminação manifestada na natureza, flutuando acima das águas negras do apego e do desejo.
Como disse Neil, quando grandes mudanças acontecem em sua vida, grandes mudanças acontecem em você.
Você está satisfeito?















