Um bom filme.

Os estúdios investem milhões na feitura do filme e uma significativa quantia em publicidade e pré-screenings para tentar definir o tom que o filme deve ter, a duração e outras coisas mais. “Ponte dos Espiões” (Bridge of Spies, 2015), nova parceria de Spielberg e Hanks, tem já em seu título o chamariz principal: espiões. A publicidade passa isso, os trailers (um dos quais você pode ver ao final do texto), os pôsteres…. Tudo remete a um thriller de espionagem. Pois bem, fiquem avisados: “Ponte dos Espiões” não é um filme de espionagem, é um filme sobre persistência.

Baseado na história real de James B. Donovan, um advogado de seguros do Brooklyn que se vê envolvido no imbróglio do acidente do avião U-2, um dos primeiros aviões espiões do EUA. Donovan (Tom Hanks) é escolhido por sua firma de advocacia para defender Rudolf Abel (Mark Rylance), suposto espião soviético. No clima da perseguição ao comunismo o julgamento já estava com o destino traçado, porém Donovan resolve seguir as regras defendendo seu cliente com unhas e dentes, mesmo que isso traga total caos a sua vida pessoal e sua família. Calha que alguns anos depois Francis Gary Powers (Austin Stowell), piloto americano escolhido para sobrevoar com o U-2, é derrubado pelo exército soviético, dando início assim a uma corrida dos dois lados para realizar uma troca de possíveis detentores de informações vitais, na qual Donovan vai tomar um papel chave na mediação. O que complica ainda mais é a prisão de um estudante americano pela polícia da (recém-formada) RDA.

Quando falo que o filme é sobre persistência é porque Donovan consegue realizar um feito hercúleo: mediar a soltura de dois reféns, em posse de duas grandes potencias “inimigas”, em troca de somente um. E aqui Tom Hanks aproveita para carregar o filme de quando aparece até os frames finais com o típico letreiro informacional clássico do cinema hollywoodiano. Donovan por trás daquela aura de figura carismática, é na verdade um ótimo estrategista. Ao “enrolar” URSS, RDA e os próprios EUA, ele não somente consegue o que quer como tudo dentro das margens da lei. E Hanks com seu carisma marca registrada consegue entregar um bom personagem, porém sem o brilho de um Capitão Miller ou de um Forrest Gump. É uma atuação competente e só. Alguns coadjuvantes têm até mais brilho, caso de Mark Rylance, que faz um personagem totalmente crível, misterioso e cativante. Outros tantos bons atores acabam sendo relegados a segundo plano e aparecem aqui ou acola, de acordo com o que a trama pede (Amy Ryan, Eve Hewson, Sebastian Koch, Mikhail Gorevoy…).

Porém o roteiro à seis mãos de Matt Charman e dos Irmão Coen (sim, aqueles de “Fargo”) tem um que de maniqueísta quem nem Spielberg consegue salvar. Não que o filme seja ruim, longe disso, é exemplo de bom cinema, mas não consegue passar nada mais do que arroubos de emoção durante sua exibição. Tem seus momentos de brilho (a sequência de perseguição inicial sem falas, a aula sobre a bomba, o abate no muro de Berlim…), pontos altos que se destacam, mas nada que leve o espectador ao delírio. Em certos pontos é até burocrático demais, se tornando um tanto enfadonho para o público mais voraz de intrigas e reviravoltas a cada 15 minutos. A fotografia de Janusz Kaminsky (parceiro habitual de Spielberg) continua um primor, algumas sequencias como a da chuva são de encher os olhos e remetem aos filmes noir e thrillers de espionagem. Porém a trilha de Thomas Newman não acompanha, passa quase despercebida, comparada à mão pesada de John Williams.

Com uma tríade de nomes de peso (Spielberg/Coen/Hanks) o filme é quase uma presença confirmada nas indicações (e talvez premiação) do Oscar 2016.  No final é a persistência do público que junto com a de Donovan salva o filme. O filme tinha tudo para ser um dos novos clássicos de Spielberg com Hanks, mas acaba sendo um filme bom. Não ruim, nem ótimo, bom. Vale o ingresso e o tempo gasto. Mas que poderia ser muito, mas muito melhor.

 

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Fox Filmes do Brasil

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.