O conceito do multiverso explorado em um excelente episódio.
The Flash sempre conseguiu lidar bem com a mitologia do Corredor Escarlate, fazendo uma ótima transposição dos quadrinhos para a televisão. No final da primeira temporada ao cruzar a linha entre as dimensões e incluir o conceito do Multiverso, eu confesso que fiquei preocupado. Para trabalhar linhas alternativas, mundos paralelos e outras terras é preciso um comprometimento gigantesco entre os roteiristas e a continuidade da série, sem que sejam necessários sacrifícios que afetem o sentido e o bom andamento da trama. Ora, nós já sabemos muito bem como a CW gosta de trabalhar agressivamente com seu material, Arrow foi usada e abusada na primeira temporada de Flash, tudo para cativar e conquistar fãs de ambos os produtos. O lado ruim foi que a série do Arqueiro verde teve sua sanidade temporal oferecida aos deuses da velocidade e muita coisa caiu no “não entendi direito, essa cena se passa quando?”.
Já em seu segundo episódio e com a introdução de Jay Garrick, ou como é conhecido no Brasil, Joel Ciclone, chegamos a conclusão de que a série está (inicialmente) preocupada em criar uma história coesa e compreensível. O lado didático de Flash of Two Worlds foi gritante. Tanto que eu nem preciso criar aqui algum tipo de explicação sobre o que é o multiverso, ou as diversas terras existentes. A série já o fez por mim. Esse lado mais simplista demonstra que a produção não estará preocupada em criar momentos e conceitos de difícil compreensão, o que é bom. Com o complexo as chances de se estragar tudo fica bem maior. Uma realidade alternativa, uma Terra 2 e a possibilidade de personagens diferentes, mas com o mesmo rosto é tudo o que precisamos saber no momento. Sem é claro deixar de comentar que a Crise nas Infinitas Terras fica cada vez mais próxima de acontecer e me parece que também será um tema abordado por Lendas do Amanhã.
Outro ponto que me fez gostar bastante deste segundo episódio foi a maneira mais madura e adulta que o Barry se comportou. Era de se esperar que após um ano “dormindo” com o inimigo, ele se comportaria com um pouco mais de cautela. O que eu não entendi bem foi como todo mundo recebeu de braços abertos o novo visitante. O importante é que o Barry, o mais afetado pela traição do Wells, não se mostrou disposto a aceitar qualquer um sem antes um comportamento frio e calculista, cientifico. Não é uma mudança brusca, ou uma personalidade nova, mas condiz bem com a trajetória da série, mas só para o Flash e o Joe, os amiguinhos ainda estão bem permissivos, o que não faz muito sentido, a não ser que o sentido tenha sido burlado para criar uma dinâmica de conflito.

Eu vivi para testemunhar o dia em que a Iris foi mais coerente que a Caitlin em um episódio de The Flash. Iris quase não teve participação na enganação do Wells (exceto na primeira linha temporal paralela), seu contato foi breve e já com o cara assumindo seu lado sombrio. Por isso eu até entendo ela ter questionado a forma com que o Barry decidiu se comportar. Seu lado melhor amiga e não interesse amoroso coopera muito mais para a história e nem tem como reclamar da sua existência, por enquanto. Já Caitlin não foi lá tão interessante. O foco do episódio foi querer transformar todo e qualquer momento entre ela e Jay, em algo com segundas intenções. A mesma personagem que estava sofrendo pela morte do marido uma semana atrás já aparece fazendo piada sobre exame corporal completo e boa forma física. O que não é um problema, ela tem o direito de comentar o que quiser, mas alternar um flerte inocente com um momento de história triste e depressão não favorece a personagem, não é?
Outro personagem que começou a ter uma conexão mais forte e um potencial maior para uma história envolvente foi o Cisco. Cisco só tem funcionado até o momento como um alivio cômico e uma irritante fonte de nomes para vilões e heróis. Brevemente na primeira temporada conseguimos ver um lado diferente, mais humano e menos clichê, que culminou em sua morte pelas mãos do Reverso. Neste ano com a descoberta dos poderes os roteiristas poderão ir além da já desenhada personalidade do personagem. Se nos quadrinhos o Cisco tem o poder de criar vibrações poderosas, na série ele consegue de alguma forma navegar nestas ondas. A escolha por um poder passivo salienta a minha teoria de que este ano será mais sentimental, já que algo ativo despertaria um comportamento de alegria e diversão, não é tão interessante assim.
Apresentando muita força, a segunda temporada de The Flash começa a criar um contorno mais forte e poderoso. Zoom, as terras paralelas e os 52 buracos de Central City deverão continuar como a trama mestra deste ano, o que alimenta a sede do procedural, com o caso da semana, mas também desenvolve o conceito de personagens saídos de outras dimensões, enriquecendo a mitologia da série. Já do lado amoroso e sentimental, parece que Patty Spivot vai conseguir dar uma balançada no mundo do Barry. E se você se preocupa com os amores predestinados pelas histórias em quadrinhos, saiba que em uma delas o Barry namora a Patty. A verdade é que mesmo usando um vilão genérico, desenvolvendo um poder que quase não será utilizado e sem revelar muito a respeito do vilão, The Flash conseguiu entregar um ótimo episódio, cheio de mitologia e promessas.
Easter Eggs e outras informações
– 52 Rachaduras criadas pela singularidade, aquela velha menção aos Novos 52.
– Patty Spivot tem uma história bem rica. Em sua primeira aparição ela surge como uma amiga e companheira de trabalho do Barry, para depois acabar indo embora de Central City por não ter seu amor correspondido – É a linha em que o Barry se casa com a Iris. Já em Flashpoint Patty assume a identidade de Hot Porsuit e termina indo para o futuro, lá ela ajuda o Kid Flash (Bart Allen), mas morre. Nos Novos 52 o Barry mantém um relacionamento com a Patty e nunca se casa com a Iris.

– Este episódio remonta uma cena clássica da Era de Prata dos quadrinhos, em que o Barry e o Jay dividem a capa, no número #123. O nome do episódio também é o mesmo: The Flash of Two Worlds.
– Foi no primeiro crossover entre Jay e Barry que o conceito do Multiverso foi explicado, nos quadrinhos e na série.
– Terra 2 é a casa do Jay Garrick, que mantém várias similaridades com a Terra 1 do Barry. E de lá que veio a Sociedade da Justiça, a equipe de heróis da Era de Ouro dos quadrinhos.
– A identidade do Zoom ainda é um mistério, mas nada nos impede de teorizar um pouco, certo? A era de ouro dos quadrinhos tem um Flash Reverso, saído das páginas do Jay Garrick. Edward Clariss é doppelganger do Jay e conhecido como ‘O Rival’, ele vem acompanhado por um relâmpago azul. Outra teoria quanto a identidade do Zoom é Azul Cobalto, vilão e irmão gêmeo do Barry Allen (na série poderia ser a versão Terra 2 do Barry). Também existe um clone do Barry, chamado Pollux, que usava roupa azul.
– Outra teoria é a de que o Flash da outra realidade seja o Flash Negro, uma espécie de morte para os velocistas.
– Patty estudou na Universidade de Hudson. Outros personagens da DC também passaram por lá, como: Dick Grayson (Robin/Asa Noturna/ Agente 37) por um semestre, Martin Stein e Jason Rusch (onde desenvolveram o F.I.R.E.S.T.O.R.M.), Crystal Frost, Louise Lincoln e Duela Dent.
– O presídio Blackgate já apareceu em Gotham e na série de games Batman Arkham.
– Foi feita uma rápida menção a transmissão de TV feita pelo Arqueiro Verde em Arrow.
– Os irmãos Mardon – Mago do tempo 1 e mago do tempo 2 também foram citados por Patty.
– Estufa Woodrue é uma referência a Jason Woodrue, que já apareceu em Batman & Robin, onde foi interpretado por John Glover.
– Guerra das Américas faz referência a uma série de 2004, chamada Jack & Bobby, do produtor executivo de Arrow e Flash, Greg Berlanti. Um dos escritores dessa série foi Marc Guggenheim, showrunner de Arrow.
– Temos um Harrison Wells na Terra 2, ou seria o mesmo da Terra 1, que arrumou um jeito de sobrever ao suicídio de seu antepassado? Só o tempo dirá.















