Quantas saudades!

É notável perceber a força do universo concebido por Jim Henson ao criar The Muppets. Exatas seis décadas após a sua primeira aparição (ainda como um excerto menor do Sesame Street) e o grupo de personagens, recuso-me a usar termos como “marionetes” ou “fantoches” para designá-los, ainda possuem força para encabeçar uma série própria e, mais do que isso, atrair uma base de fãs antigos que se anim. Por outro lado, uma análise mais apurada entrega um dado um tanto pessimista: desde a morte de seu criador, foram poucas as experiências com os Muppets que conseguiram fazer jus às clássica série e aos filmes (excetuando-se apenas o excelente filme escrito e estrelado por Jason Segel), o que faz pairar a grande dúvida sobre se a nova série seria apenas mais uma experiência frustrada de emular a genialidade que o universo outrora possuiu. Mas estou me adiantando.

A nova série The Muppets se mostra inicialmente interessante ao trazer uma tentativa de trazer uma roupagem diversa daquela existente The Muppets Show. Seria fácil apostar em um novo show com todo o formato já existente, mas Bill Prady (co-criador de The Big Bang Theory, argh!) e Bob Kushell optam por introduzir um mockumentary patrocinado pela (adivinhem!) ABC dos supostos bastidores do talk show Late Night with Miss Piggy. Entretanto, se esta tentativa inicial se mostra louvável (mesmo que não seja particularmente inovadora), a execução acaba por ser deficitária e entregar um episódio que possui como único trunfo ter protagonistas tão amáveis.

De certa maneira, mesmo com o novo formato, tudo se mostra familiarmente nostálgico (o que seria em tese um bom sinal), com participações especiais interessantes (Elizabeth Banks, Tracy Andersen, Tom Bergeron e a banda Imagine Dragons) e humor que intercala entre o inocente e o adulto. Entretanto, ao mesmo tempo se tem a impressão que os realizadores entenderam o que em tese a série deveria possuir e não conseguiram efetivar as ideias que possuíram, um erro de certa forma escusável (reconheço a complexidade do humor dos Muppets) e que, felizmente, pode ser sanado pelo tempo, mas ainda assim uma falha desse episódio inicial.

Se o humor se mostra um erro menor, talvez o grande problema do piloto seja justamente o de não entender corretamente a personalidade de cada um de seus personagens (e mesmo que possa parecer estranho, os Muppets são figuras reais e tridimensionais dentro de um universo absurdo).  Miss Piggy e Fozzie Bear, por mais que possuam elementos intrínsecos de suas personalidades, como a inocência deste ou egocentrismo daquela, não deixam de parecer meras caricaturas ao passo que Kermit (aparentemente, deixou-se de traduzir o nome dele para Caco enquanto eu crescia) se mostra  como uma figura completamente diversa daquela que os fãs antigos estão acostumados e mais se parece com um líder autoritário do que com a autoridade confusa que foi concebida durante cinco décadas (e mesmo que saibamos que em momentos de estresse sua personalidade se mostra mais autoritária, as atitudes do personagem não se mostram coerentes). Sim, o objetivo é obvio de tentar mostrar que, por trás das câmeras, nem sempre é como parece, não fosse a existência de diversos filmes em que se pode ver que “por trás dos bastidores” todos os Muppets são exatamente aquilo que parecem, tentando se construir uma tentativa de drama a partir de atitudes inverossímeis.

Toda esta reflexão leva a um questionamento pessoal: Seria justo julgar uma série de comédia pela qualidade de seu piloto? Ao se analisar exemplos recentes, vê-se que algumas das melhores comédias dos últimos tempos (como Parks and Recreation, Community ou até mesmo The Office) possuíram pilotos de qualidade sofrível, enquanto ótimos pilotos (Modern Family como o melhor exemplo) podem se transformar em séries que acertam inicialmente e não saem do seu lugar comum. The Muppets acerta ao conseguir fugir do seu lugar comum e erra em como o faz, mas justamente por isso pode vir a se tornar uma série que dentro de alguns episódios conseguirá entender aquilo que se propõe e se tornar uma excelente comédia.

Mesmo com seus problemas, The Muppets consegue matar as saudades dos fãs e os fazer rever estes seus amigos tão inusitados. Vai ser justamente a forma como se evoluirá com esta abordagem que poderá o transformar em uma boa série ou em mais um mockumentary genérico, porém tendo os Muppets como protagonistas. É comumente dito que não se deve julgar um livro pela capa, ensinamento que é impossível de ser dito errado, mas é impossível se entrar em uma livraria e não se usar a capa do livro como a primeira impressão. Utilizando a metáfora, a capa de The Muppets, mesmo que não possa ser considerada de todo ruim e tendo alguns elementos interessantes, também não consegue se mostrar como boa. Esperemos, desta forma, que o livro consiga nos surpreender positivamente!

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