Esta season finale colocou Mr. Robot entre os 1% dos 1% definitivamente.

A saga de Elliot vem sendo aclamada por público e crítica desde o vazamento do seu piloto, mas sempre houve uma parte dos espectadores que esperavam o momento em que a série iria derrapar, afinal nenhuma obra está isenta de cometer deslizes. A prova desta torcida agourenta era a insistente comparação do piloto com os episódios subsequentes, que só cessaram com eps1.7_wh1te-r0se.m4v. Evidente que o piloto foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso da série, mas ele carregava consigo algumas premissas perigosas, como a possibilidade de casos da semana isolados e da estereotipagem dos coadjuvantes (quem não pensou que a Angela seria somente o interesse amoroso de Elliot?). Agora, com este arco inicial devidamente concluído e através da empolgante entrevista de Sam Esmail sobre a produção e futuro da série (veja a matéria aqui), afirmo sem medo de errar, Mr. Robot está entre os 1% dos 1% de todos os tempos (in my opinion…).

Este fechamento de arco, entretanto, não significa que todas as respostas foram dadas. Pelo contrário, acabamos o finale recolhendo todos os pedaços de cérebro espalhados pela sala. O encontro de White Rose com Philip Price na cena pós créditos abre uma gama de possibilidades impensada. Num primeiro momento, o roteiro nos faz acreditar que o Dark Army sempre esteve trabalhando em conjunto com a Evil Corp, mas eu tendo a acreditar que a mega corporação está a um patamar abaixo do seu CEO e a sua derrocada fez parte de um plano maior. R.I.P., Evil Corp!

Até mesmo o protagonismo de Elliot é colocado em cheque, uma vez que descobrirmos que ele era somente mais um títere dos planos dos Iluminatis onipresentes e foi usado, assim como tantos outros, para causar esta desestabilização financeira mundial. Convenhamos, saber de antemão de uma crise dessas, levaria à oportunidades monstruosas! Por enquanto, podemos somente especular, mas não seria estranho ver o foco da série completamente mudado para a segunda temporada, uma vez que a própria FSociety tornou-se menos interessante ao descobrirmos que ela não foi a articuladora principal da operação.

Quanto ao ciclo de descobertas de Elliot, está devidamente encerrado nesta finale, com as tão esperadas cenas dele mesmo se agredindo. Entretanto, o apagão de três dias, mostrou o quanto ele é dependente do seu alter ego, que a partir de agora passa a ter o seu status quo alterado, ganhando ainda mais em importância. Aliás, foi extremamente ousado excluir o espectador do momento exato em que o ataque é realizado, assim como “esconder” o segundo personagem mais amado no último episódio do ano. Eu tinha certeza que esta temporada acabaria exatamente como acabou Clube da Luta, ou seja, com a execução do plano, deixando toda a repercussão para a temporada seguinte. Melhor assim!

Decepções a parte (ou não), este salto temporal no escuro foi o responsável pelos grandes cliffhangers da temporada – “onde está Tyrell?”, “o que aconteceu nestes três dias?”, “quem gravou a cena de Elliot se jogando nas pedras?”, “como ele foi parar naquele estacionamento?”. Alie todas estas perguntas ao enigma da casa dos Illuminatis e, principalmente, quem estaria batendo na porta de Elliot na última cena e já temos ansiedade suficiente para guardar pelos próximos nove meses.

Sobre esta cena específica, confesso que fiquei morrendo de medo de ser o Tyrell batendo na porta, recuperando a cena do final do episódio anterior, fazendo com que tudo o que passou com Elliot tivesse sido um novo delírio. Felizmente, foi um pensamento passageiro, pois ele interagiu com toda a FSociety e as palavras do Romero – “Estou preocupado porque o nosso líder sumiu de novo” não deixam dúvidas que ele retornou de fato ao parque.

Contudo, se o Tyrell do passado está descartado, nada impede de ser ele mesmo esclarecendo o que lhe ocorreu, mas as possibilidades são inúmeras: Darlene, querendo entender o que está acontecendo; Gideon, vindo fazer um acerto de contas, depois que Elliot destruiu sua empresa; Angela, para se consolar com seu amigo, depois dos trágicos acontecimentos do dia; Lenny, para buscar o cachorro ou ainda, Krista, para contar a conversa que teve com seu ex-amante. Enfim, da forma como tudo acabou amarrado ao protagonista, é extremamente difícil (e prazeroso) fazer uma aposta.

Para encerrar a cobertura deste ano, destaco duas cenas memoráveis neste finale: a Angela na loja de sapatos e o Mr. Robot na Times Square.

Angela teve uma trajetória estranha durante estes 10 episódios. Num primeiro momento, deu a impressão se seria somente a paixão secreta do melhor amigo tímido, que namora o bonitão do grupo para, no final, ter um final feliz com o protagonista. Ao tomar as rédeas da chantagem do Dark Army e destruir a carreira de Ollie, ela se mostrou muito mais interessante do que se previa, ainda que o seu senso de justiça/vingança exacerbado tenho sido um pouco irritante, mas foi isto que lhe proporcionou a grande virada. Mesmo de forma reticente, sua ingressão na Corporação mostra uma mudança de direcionamento, que a levará, provavelmente, a se tornar uma nova alpinista corporativa e isso fica evidente na conversa de trinta segundos com o vendedor de sapatos. Parece que, naquele momento, toda a sua dúvida se esvai…

Já a cena da Times Square, que na minha concepção existiu somente na cabeça de Elliot enquanto ele esteve inconsciente na lanchonete, vem com um discurso poderoso, que definitivamente espanta a fama de Christian Slater de afunda-produções e o coloca como (mais) um grande destaque da série. A inflamado discurso de Edward Alderson sobre o que é real é um soco no estômago (eu chequei metade das ações mencionadas) e é impossível não pensar o quanto estamos vivendo um mundo ilusório.

Para que fique imortalizado nesta coluna, segue o impactante discurso na íntegra:

Is any of it real? I mean, look at this. Look at it! A world built on fantasy. Synthetic emotions in the form of pills. Psychological warfare in the form of advertising. Mind-altering chemicals in the form of… food! Brainwashing seminars in the form of media. Controlled isolated bubbles in the form of social networks. Real? You want to talk about reality? We haven’t lived in anything remotely close to it since the turn of the century. We turned it off, took out the batteries, snacked on a bag of GMOs while we tossed the remnants in the ever-expanding Dumpster of the human condition. We live in branded houses trademarked by corporations built on bipolar numbers jumping up and down on digital displays, hypnotizing us into the biggest slumber mankind has ever seen. You have to dig pretty deep, kiddo, before you can find anything real. We live in a kingdom of bullshit. A kingdom you’ve lived in for far too long. So don’t tell me about not being real. I’m no less real than the fucking beef patty in your Big Mac.

E assim, novamente agradeço a vocês pelos inúmeros comentários, elogios e críticas nestes dois meses. Foi uma cobertura sensacional e o engajamento de vocês foi o grande responsável por isso. Eu me despeço, conversando com o meu peixe, que está na janela, claro.

Até ANO que vem!

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Alexandre Bonfá
Apaixonado por HQ´s há mais de 30 anos, eu me sinto realizado com essa avalanche de séries de Quadrinhos da atualidade. Tá achando pouco? Ano que vem vai ter o dobro!