O terror psicológico moderno sendo sensível, estiloso e saudosista – e aterrorizante.
Dark doom, honey. I follow you”
O terror é um gênero em crise há certo tempo, tão desacreditado que as apostas para sucesso de crítica e de público quando surge um novo são muito baixas. Terror dificilmente é levado a sério – não só pelo público, que sente orgulho em dizer que “não sentiu medo algum” durante a exibição de um pertencente à categoria, como pelos roteiristas e produtores, que sequer demonstram lapidar o material entregue aos fãs desse gênero renegado. É fácil se perder em velhos truques, uma vez que os clichês foram instalados e reinventados há décadas, mas não é fácil pensar fora do que a zona de conforto lhe proporciona — e nem sempre o resultado é bom. Também não é uma tarefa difícil desdenhar de uma trama que poderia ser muito bem executada, quando baseada em algo tão estranho quanto original, perdendo-se dentro de si e partindo para o óbvio. Não é o caso de It Follows. O filme, aliás, está no grupo seleto das grandes surpresas que tivemos nesses últimos tempos no gênero que compreende, porque, antes de tudo, é um filme bom.
It Follows chega na era que tornou “stalker” um termo comum e stalkear uma arte. Falar sobre perseguição hoje soa irônico, porque no hoje perseguimos e somos perseguidos; somos alcançáveis e podemos alcançar quase todos. O celular que vai ao bolso e que às vezes rouba a percepção dos olhos sobre todo o resto é como um chip, se você repensar seu modo de uso. Desde a cama, dormindo ao nosso lado, à cama novamente, quando o colocamos para carregar finalmente, somos adeptos da localização – adeptos de sermos localizados. A internet colocou a perseguição, o fanatismo com o alheio e a obsessão por terceiros mais praticável, mais difícil de se livrar. Debater esse tema usando como pano de fundo a fuga de algo, quando todos nós estamos presos ao todo, é intrigante. Jay lida com o perigo da perseguição, de estar exposta, mas, no fim do dia, depois daquele tweet ou daquele post, não estamos todos expostos e perseguidos?
O filme segue a história de uma jovem que, após ter relações sexuais com um rapaz com quem tem saído, começa a ser perseguida por algo. Algo que aparece na figura de conhecidos, mas com traços não tão naturais, e um caminhar sem pressa, como se o algo soubesse que alcançará seu objetivo no tempo certo. Limitando-se a essa trama, mas não parecendo limitado em nenhum momento, o longa preenche o restante de silêncios psicológicos e questionamentos implícitos e pontuais. Um mal que persegue aparentemente após o sexo, como um vírus presente para o resto da vida, mas que descansa depois de passado a outra pessoa, poderia ser uma história para um terrir ou um terror que falha em ser dramático e acaba piada de si mesmo. Aqui, entretanto, a seriedade está de acordo com o bizarro e presente na medida certa.
A necessidade da figura feminina como protagonista, questionando o corpo e cada ação que deveria fazer com este, mostra-se necessária para acrescentar à trama debates que não são trazidos à tela, mas que se escondem em sua fotografia neutra e aberta. O filme trabalha muito com nossos sentidos, brincando com nossos olhos quando quer e como quer. Desenrola-se como aquela música que ouvimos pelo fone e que toca seu instrumental barulhento para nosso ouvido direito, e o cantor berrante destina sua voz ao esquerdo. Isto é, em suas cenas, se dedicarmos percepção, reparamos que mais de uma coisa está acontecendo, mesmo que ela não tenha tanta importância quanto o foco principal. A cinematografia é dedicada e não se prende aos cenários bonitos e pacatos, usufruindo de uma visão detalhista, como se cada objeto em cena tivesse importância. Os planos abertos são sufocantes, o que soa irônico, e há um jogo com panorâmica muito presente (quase repetitivo) que combina bem com esse aspecto. Em alguns momentos a panorâmica engatinha dentro do filme por provocação, opondo-se a nossa pressa dos fatos, nossa impulsividade. Nosso ritmo grita urgência o tempo todo, principalmente para os filhos das grandes metrópoles, mas o desenrolar das cenas debocha de tudo isso.
Ainda nesse sentido, o filme lembra muito o clima dos antigos pertencentes à mesma tribo de terror psicológico, mas lançados há décadas. O visual (parabenizo aqui novamente o trabalho de cinematografia) retoma isso quando traça para suas personagens figurinos que relembram, e remontam, o ambiente de outras épocas. Há um contraste com o moderno e contemporâneo, o que deixa a história transitando entre esses dois tempos, revelando um paradoxo dentro da mitologia que tão delicadamente cria. Os itens modernos também podem ser uma clara alusão às metáforas do filme, como se o diretor pontuasse “preste atenção, estamos usando esse contexto nostálgico, mas estamos falando de problemas modernos, sigam as pistas.” O que nos remete aos clássicos de suspense/terror também está na composição da trilha sonora e nas personagens. O perturbador tema principal remete muito a Halloween (1978, John Carpenter), assim como algumas cenas e a construção da personalidade da protagonista, seus gestos, seus silêncios. A escolha da atriz para interpretá-la foi perfeita, sabendo deslizar suavemente entre o conter e o demonstrar em suas expressões. No cinema, é mais do que necessário atores que saibam transmitir emoções com os olhos e sem muitas frases. A expressão corporal e compor muito com o mínimo são essenciais.
Corrente do Mal (não vamos debochar do título nacional, porque o original também não é um prodígio, e lançar qualquer filme com “Ele Segue” não parece uma boa ideia) é bem dirigido principalmente. O trabalho da direção, muito competente em juntar tantos recursos para pincelar com calma e precisão esse conto psicológico, é visto em diversos momentos e elogiável em todos. Do uso da câmera lenta ao transportar à tela um roteiro tão intrigante e bem construído, David Robert Mitchell é hábil e dono do próprio material. Fica bem claro que ele também escreveu o roteiro quando analisamos o filme depois de assistido. Não há exagero de sustos, por mais que eles existam, nem dose exagerada de maquiagem e efeitos visuais. Presentes, estão sempre no fundo, andando, não tomando a frente de boa parte do terror que acontece na tela – aquele que se passa na cabeça de sua personagem principal.
Tudo na película parece bem pensado, com motivo para existir tanto na mente de seu criador, quanto no universo da história: o caminhar lento da câmera que se aproxima como quem sussurra e nos obriga a chegarmos mais perto para ouvirmos um segredo, a estranha falta de nudez nos momentos em que ela seria justificável (a nudez está presente mais como representação “natural” do ser que se rasteja ainda preso em sua espécie do que no sexo e na vontade de ser sensual; não há qualquer tentativa de ser sensual). Algumas personagens secundárias parecem mal utilizadas e não tão bem formuladas, mas creio que isso seja um fato proposital.
It Follows é incômodo, agonizante. Não há a figura de um fantasma ou assassino específico para nos apegarmos, então o medo que nos provoca é pelo algo representado em tantos rostos e corpos. Esse algo brinca tanto com nossa mente que às vezes esperamos que ele apareça e nos decepcionamos quando não – quase torcemos para uma nova cena de perseguição. Algumas cenas são tão criativas quanto se pode esperar de um terror que se arrisca a ser original (destaco a da praia e a sequência da piscina), enquanto que a duração do filme não incomoda – afinal ele tem apenas noventa minutos. Senti que estava vendo a adaptação de algum conto ou romance pela forma de contar de forma tão lapidada sua história de terror.
Lastimavelmente chegando ao cinema nacional com atrasos, o filme merece uma conferida no cinema com uma boa companhia ao lado. Nada contra quem gosta de ir sozinho (até conheço alguns amigos que vão), mas há muito para ser debatido, entendido, cavado. O filme tece bem sua teia, mas deixa a conclusão conosco. No embalo e clima de The Babadook, mas com suas diferenças, vai agradar aos fãs deste por saber atiçar nossa criatividade para traçarmos finais e explicações por nós mesmos. Não se engane, e já aviso, o título não se refere à criatura no filme, mas a si mesmo – metalinguagem para poucos. It Follows vai te seguir pelas ruas escuras quando estiver voltando para casa do cinema.
ps: o texto começa com um verso de I Follow Rivers – Lykke Li. Além da escolha óbvia pelo título, escolhi por conta do clipe, que recomendo a quem nunca tiver visto.
ps2: It Follows está há tanto tempo disponível por aí que boa parte das pessoas já deve ter visto. Que tal aparecer nos comentários para debater comigo sobre as metáforas do filme e seu final?












