Reino Unido: a foto do “antes” dos Estados Unidos.

Mais conhecido por sua participação em Community e como repórter e apresentador interino do The Daily Show, o britânico John Oliver é um comediante com uma verve jornalística como pouco se vê, principalmente no Brasil. De aparência inócua e visual comportado, o apresentador do Last Week Tonight traz uma crítica ácida e sem censura sobre os assuntos que estiveram em voga durante aquela semana, ao mesmo tempo em que discute com mais profundidade temas de alta relevância jornalística.

Por ser um show da HBO, Oliver tem liberdade para esticar a Primeira Emenda da Constituição Americana ao máximo, misturando a comédia cáustica das stand-up comedies com a crônica política e comportamental dos jornalísticos mais tradicionais. O resultado é o melhor e mais bem produzido “vlog” que você verá em um bom tempo, melhor até que programas com hosts muitíssimo mais consagrados (como John Stewart e Stephen Colbert, in my opinion).

Essa introdução foi necessária para que você que nunca viu nada do Last Week Tonight possa pegar o bonde andando sem cair. É possível, no entanto, que você já tenha assistido a algum segmento do programa, especialmente um em que John Oliver comenta algo sobre o Brasil ou da sua cruzada pessoal contra a Fifa (“um sindicato criminoso internacional que eventualmente organiza jogos de futebol”!!!), amplamente divulgados pelos facebooks da vida. No entanto, são nas histórias menos comentadas, na maioria das vezes concêntricas à cultura e sociedade estadunidense, em que os tesouros são normalmente encontrados.

A estrutura do programa é bem fixa: três segmentos secundários e um principal, o que garante uma cobertura bastante heterogênea de temas a cada semana. Isso também significa que eu não vou conseguir exaurir os temas abordados em cada episódio neste espaço, mas espero que os leitores possam assistir ao show e discutir e criticar as minhas observações sobre os temas.

Esse foi um dos episódios mais fracos da temporada em matéria de relevância jornalística, especialmente para as audiências internacionais, pois pouca coisa realmente interessante aconteceu durante a semana.

John Oliver sempre começa o show com o aviso de que os segmentos anteriores ao tema principal (e algum eventual microtema ao final do programa, como o bizarro space geckos), são um tipo de recapitulação rápida da semana, e como tal, estão sujeitos à pauta dos noticiários. Isso é típico dos jornalísticos humorísticos, e também é uma tremenda bola de ferro que segura parte da importância que certos episódios poderiam alcançar, pois para fisgar a fagulha do humor presente nas notícias, às vezes é preciso usar notícias bem mais ou menos,  que foi que aconteceu nesta semana.

Afeganistão: é o ‘só a pontinha’ dos conflitos internacionais. Nós entramos rápido demais, vamos mais fundo do que queríamos no começo, e saímos muito mais devagar do que dissemos que iríamos”

O primeiro segmento tratou das notícias referentes às negociações de paz entre o Taliban e o governo do Afeganistão, que deu um passo para trás com a notícia de que o líder do Taliban, o mulá Mohammad Omar, morreu na semana passada. A questão principal aqui foi a ignorância do governo estadunidense relativos aos meandros da política afegã, especialmente em relação ao Taliban, que deveria ter importância geopolítica suficiente para que os EUA não fossem surpreendidos com a notícia durante negociações de paz com o inimigo contra o qual conduz uma guerra que já avinagrou faz muito tempo.

A situação piora com o fato de que o Taliban teria escondido a morte do líder por mais de dois anos. A ignorância americana sobre o seu inimigo foi o que fomentou as piadas do comediante britânico nesta seção, como quando citou a detalhada ficha do governo dos EUA sobre o mulá Omar, com apenas três ridículas informações, que incluíam a cor dos cabelos – preto, a altura – alto(!) e a nacionalidade (um doce para quem adivinhar), adornadas com a foto de um mendigo tirada com uma tekpix. Foi um segmento engraçado, mesmo que a parte informativa tenha ficado em vigésimo plano. Bem melhor que a segunda parte, que nem no humor conseguiu se segurar.

Boas notícias na Chechênia – uma frase tão comum quanto: ‘cara, tomara que hoje eu sente perto de um bebê’”

Essa seção foi inspirada em uma notícia kardashianesca, contando a história de três mulheres chechenas que deram um golpe em membros grupo terrorista Estado Islâmico, dando a entender que viajariam da Chechênia para a Síria para se casarem com os homens do grupo, mas que estavam sem dinheiro para a viagem. Os homens enviaram o dinheiro e ela desligaram os celulares.

Foi um plot bocó, e acabou se tornando um dos piores segmentos do programa. A pior parte desta história foi a sentença de que isso teria sido “a melhor coisa que alguém fez pela humanidade nessa semana”, e eu fiquei pensando em como deve ter gente que não deve ter entendido a ironia da frase. É sério, textões de facebook tem origens bem identificáveis.

Reino Unido: a foto do ‘antes’ dos Estados Unidos”

Para compensar, um trecho inspirado em uma outra notícia de tabloides, mas com desdobramentos sensacionais na parte do humor. Um vídeo de câmera escondida publicado pelo The Sun mostra um dos mais eminentes parlamentares britânicos, o Lorde John Sewell, cheirando cocaína com duas prostitutas em sua casa, usando um sutiã laranja e abrindo o coração.

Se a situação já não fosse bizarra e surreal o bastante, as barbaridades que o Lorde Sewell fala no decorrer do vídeo são um prato cheio para qualquer comediante, e John Oliver parece se divertir imensamente comentando as opiniões “extremamente educadas” do Lorde, ou o fato de Sewell ter tido a “dignidade” de virar o porta retrato com a foto da esposa para baixo antes de cheirar cocaína nos peitos de uma das prostitutas. É o parlamento brasileiro fazendo escola.

America: terra dos livres, lar dos bravos e inventora da comida chinesa”

As histórias principais do Last Week Tonight têm, muitas vezes, temas centrados em situações relevantes apenas ao espectadores dos Estados Unidos, e o segmento principal dessa semana não foi diferente. Aliás, esse foi um dos temas mais localizados da história do show, e também um dos mais desinteressantes.

Muitas das escolhas de pauta do programa têm apelo universal, mesmo que os temas contem histórias muitíssimo específicas, mas infelizmente não foi o caso da história principal do programa deste domingo. Você pode tentar entender que matérias que tratam das idiossincrasias legislativas enfrentadas pelos cidadãos dos Estados Unidos servem como conhecimento, mas elas são tão úteis para ampliar a nossa compreensão de mundo quanto o segmento das moças que deram um golpe no ISIS.

A história é sobre a cidade de Washington DC e a falta de representatividade do Distrito de Columbia no congresso e na definição dos gastos orçamentários. Com população e PIB maiores do que muitos estados dos EUA, é bizarro que os cidadãos de Washington tenham tanta representatividade quanto um panda do zoológico da cidade, não tendo direito ao voto legislativo, restando apenas a escolha do prefeito da cidade (vide House of Cards) e o dever de pagar impostos.

Apesar desse problema democrático parecer megaimportante para a população de DC, pensando bem talvez não seja. Parece algo muito “white people problems” se comparado com outras histórias infinitamente mais impactantes já retratadas no programa, como o desperdício de comida, as manufaturas de roupas que se utilizam de mão de obra escrava, e mesmo a matéria principal da semana passada, um retrato do sistema penal injusto e brutal que os Estados Unidos comete com o seu cidadãos, que condena a décadas de prisão pessoas que cometeram um erro de momento (e muito disso é visto no Brasil também).

O encerramento do programa foi outro erro da pauta, com um coral conduzindo uma daquelas canções engraçadinha sobre as incoerências já citadas. Foi um programa meio chato e bastante burocrático, com um final “nhenhenhem”. Isso já foi feito algumas vezes no programa, e denota que o time de roteiristas do show pode estar precisando tomar um lactopurga para a próxima semana.

Enfim, é uma pena começar os reviews deste programa maravilhoso com um episódio ruim, mas eu tenho fé em John Oliver.

P.S.: Comentários sobre o review e sobre o programa são bem-vindos. Vamos construir debates juntos daqui pra frente!

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