The Brink é a história de uma crise. Não compartilha com a esmagadora maioria dos sitcoms modernos e passados o formato de episódios fechados, pequenas crônicas que tem como alicerce fortes personagens. É uma estratégia ousada, visto que a informalidade e o “descompromisso” são sempre altamente relevantes para atrair espectadores, quando se trata de uma comédia. Essa estrutura, porém, é também uma grande âncora, pois impede a renovação de plots, eventuais shifts criativos, e o aperfeiçoamento daquilo que é apresentado no início da história. ‘Baghdad, My Ass’ deixa claro que esse é o maior defeito de The Brink: aquilo que vimos no piloto é aquilo que vemos agora, e é tudo que teremos até o fim dessa temporada.

O núcleo das Forças Aéreas nesse terceiro episódio é exemplo máximo da inconsistência da série e do preguiçoso roteiro de Roberto e Kim Benabib. Se no episódio passado Zeke e Glenn protagonizaram um momento de leve satisfação cômica, essa semana foram tratados como personagens descartáveis, em uma arrastadíssima resolução para o processo que sofreram devido ao incidente do episódio anterior. Explico em duas linhas: para evitar embaraços diplomáticos, Zeke e Glenn são inocentados por seus superiores, e discretamente aconselhados a futuramente mentir sobre o ocorrido. Pronto. Mas os irmãos Benabib gastam um terço desta meia hora resolvendo e alongando ao máximo esse evento, com se não houvesse mais rumo para esses personagens, e, além de tudo, não fazem a menor questão de amenizar essas cenas com aquilo que todos nós esperamos: comédia. Não há nada, literalmente nada de interessante nessas parcelas do episódio.

Alex Talbot, por absoluta falta de opção, é quem garante algumas (poucas) boas (decentes) piadas em ‘Baghdad, My Ass’, mas que perdem força quando contextualizadas na Islamabad mal retratada. Grande parte do bom aproveitamento de Jack Black aqui recaí no desconhecimento cultural de seu personagem. Em certo momento, para descer de um ônibus, Talbot exclama “Shakira! Shakira!” como quem pede licença, e em outro, cumprimenta Rafiq com dizeres em outra língua, mas é logo alertado: “that’s hebrew”. Isoladas, são piadas divertidas, e casam perfeitamente com o perfil humorístico de Jack Black, mas não provocam riso algum em The Brink, pois a série limita-se à “zombação”, e não explora, por exemplo, a cultura paquistanesa, ignorada e muitas vezes manipulada para o bem correr da história, como é o caso da família de Rafiq, inteiramente americanizada. Claro, é argumentável que pessoas fluentes em inglês e ligadas à embaixada americana “sofram” certo sincretismo, mas não acredito ser o caso, já que só um lado dessa dupla faceta cultural é elaborado. O Paquistão, onde metade da série se passa, é instrumentalizado, e, portanto, piadas referentes ao país – ou, em maior âmbito, à cultura oriental – surgem pobres, sem embasamento.

É também tanto notável quanto lamentável a falta de timing cômico em todos os três episódios. Boas tiradas e piadas com potencial são tão comprimidas no meio do diálogo que é fácil deixa-las escapar, enquanto longas passagens são frequentemente repetitivas e cansativas, como a que Alex e Rafiq procuram apressados por um número de celular, anotado na capa de uma revista no escritório da embaixada, e durante a qual ambos berram fucks e craps para todos os lados, como se isso bastasse para tornar a situação engraçada. Não é, infelizmente, um caso isolado, mas sim uma boa amostra daquilo que recheia grande parte das cenas.

Quanto a Walter Larson, seu núcleo nos EUA segue na sombra de Veep, já que todas as boas piadas nesse episódio remetem diretamente ao tipo de humor da produção de Iannucci (Why can’t anyone go to war in the Caribbean for Christ’s sake? poderia facilmente ter saído da boca de Ben Cafferty). Mas são, como já dito anteriormente, mal arranjadas, dando espaço para um humor fácil, que consiste, por exemplo, em estampar, pelo segundo episódio seguido, um pinto gigante na tela, e limitar a piada a isso. A liberdade de imagem proporcionada pela HBO já gerou incontáveis debates quanto ao uso de nudez na televisão, e a maneira com que The Brink lida com essa liberdade, como se fosse obrigada a aproveitá-la todo episódio, tem trazido muito mais prejuízos do que lucros para a série.

É difícil manter a fé para o resto dessa primeira temporada, e nesse terceiro episódio The Brink deixou de ser uma série simplesmente diferente do que dela era esperado, e tornou-se algo pior: uma comédia monótona, que não se arrisca e nem diverte, sem argumentos, sem novidades. Essa ainda é, porém, a nova produção da HBO. Dos irmãos Benabib. Com Pablo Schreiber. Com Jack Black. Com Tim Robbins…Então quem sabe?

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