Uma aula sobre como tratar de um tema difícil para as mulheres valorizando a perspectiva feminina.

A Titin’ And a Hairin’ (“Peitinho” – que tradução singela!) é um episódio difícil. Muito difícil. E digo isso no melhor sentido possível. Tratando de um tema pesadíssimo com muita sensibilidade e bom gosto, o episódio centrado em nossa queridíssima Pennsatucky marca a temporada pelo nível altíssimo de capacidade de nos envolver. Não por acaso, A Titin’ And a Hairin’ será lembrado por mim como o episódio de Orange Is The New Black que me levou às lágrimas.

Pennsy é provavelmente a personagem mais fascinante de todas as habitantes do presídio de Litchfield. Não há dúvida alguma de que ela é um ser humano terrível em muitos aspectos, mas seu desenvolvimento conseguiu agraciá-la com tantas camadas que foi capaz de, neste ponto da série, conquistar nossa empatia absoluta e instantânea com a história da caipira.

Tiffany cresceu em uma região de cultura conservadora e retrógrada – e, como qualquer lugar com gente assim -, permeada por muita libertinagem às escondidas. Entender esse contexto é essencial para compreender como é possível uma pessoa tão religiosa – por ter crescido em um lugar que respeita tradições – é capaz de se prostituir, se viciar e acabar ir parando na cadeia, mas também é importante para a compreensão da personalidade preconceituosa de Doggett, aquela que tem claríssima rejeição a negros e homossexuais (ao ponto de sua primeira reação ao deparar-se com um homem que a tratou com respeito ter sido a pergunta “Você é veado por acaso?”).

Mas mais importante do que a maneira como Doggett trata as minorias é a maneira como ela enxerga o sexo feminino e, consequentemente, como ela se vê na condição de mulher. Pennsy se prostitui por um pacote de bebidas e não enxerga o sexo como algo para ser apreciado pelas mulheres. Pra ela, a vagina é meramente uma moeda de troca: o homem gosta, se aproveita dela, e a mulher recebe algum bem material como benefício por estar cedendo seu corpo aos prazeres do parceiro. Quando descrevemos a situação desta forma, fica clara a sensação de prostituição envolvida, mas a verdade é que, ainda que implicitamente, essa lei derivada do machismo e do patriarcalismo dominantes na nossa cultura regula uma parte considerável das relações entre os dois gêneros na sociedade atual.

Mas antes que eu entedie vocês com todos os clichês feministas possíveis (mas que não deixam de ser verdade e merecem ser abordados especialmente em uma série como OITNB), vamos direto ao ponto, e o ponto é que conhecer o amor e, mais importante, conhecer um homem que cuidou dela – tanto em termos de integridade física como de prazer sexual – mudou totalmente a concepção da caipira sobre a vida. Pennsatucky descobriu o que significa ter sua condição de mulher exaltada e valorizada.

A cena em que os dois veem uma cena de filme pornô consegue ter sucesso absoluto em mostrar os dois lados da moeda: a primeira, e mais óbvia, levar um pouco de conhecimento sobre o sexo e sobre si próprio e suas limitações (ou falta de, talvez). A segunda, e mais implícita, é o tom crítico com o qual a cultura da pornografia é explorada na série, enfatizando o sentimento de posse e de onipotência do homem em relação ao corpo feminino.

Todas as lições aprendidas por Pennsy porém, se esvaem quase instantaneamente quando ela é estuprada. Diante de sua fragilidade, ela volta a se sentir uma serva, e decide simplesmente não reagir. Em um paralelo com o presente, esse se tornaria um comportamento padrão da personagem, que pode ser percebido também na devastadora cena em que ela é novamente estuprada, desta vez por Donuts.

Há, no presente, uma diferença crucial: as lágrimas. Pennsatucky estava começando a ter fé nos homens e nos relacionamentos novamente, apenas para ser “posta em seu lugar” pelo carcereiro e relembrar sua “real função como mulher” (aspas monstruosas aqui, por favor). Mais do que a violência física sofrida, o nível de violência psicológica que o segundo estupro significou para Tiffany é avassalador.

Dizer que eu esperava que esse estupro aconteceria seria muita presunção da minha parte, mas já estava bem claro que Donuts não era um homem que merecia confiança desde a cena do episódio anterior em que ele humilha a detenta, obrigando-a a agir como cão para marcar sua posse sobre ela. Ao meu ver, um homem que vê a mulher como posse acaba sendo um potencial estuprador – o que obviamente não significa que ele se tornará um estuprador real, significa apenas que é importante manter o radar ligado para certos tipos de comportamento e, como todo cuidado é pouco, vale a pena fugir de um cara que te manda pegar algo no chão que nem cachorro.

Enquanto isso, no núcleo dos stalkers, quase morri de rir quando a série esclareceu que Lolly não é nada além de uma doida varrida (Crazy Eyes morreu de inveja do nível de maluquice). Três reviews atrás, eu comentei que estava tudo tão óbvio que dava pra desconfiar, mas nos dois últimos episódios acabei caindo na onda da série e acreditando que a doidinha era uma infiltrada.

Parabéns à edição, aliás, que se mostrou ágil na criação de uma sequência tensa que alternava entre as tretas de Alex e Lolly, de um lado do banheiro, e Gloria e Sophia, do outro. E, que me desculpem as trans, mas sou #TeamGloria nessa história toda. Já está mais do que provado que o filho de Sophia é o capeta e que o outro é só um aprendiz de diabinho que não tem nada a ver com a mudança do moleque. Ok, ser BFF de Aleida não ajuda nem um pouco a causa de Gloria, mas isso só torna a história toda ainda mais interessante, porque temos contra Sophia uma pessoa meramente desprezível e preconceituosa aliada a outra que tem motivos reais para estar com raiva da cabeleireira. Aleida é a pior aliada que Gloria poderia escolher, pois sua homofobia tende a nos afastar da possibilidade de defender a latina. Só agora, quando a situação dos adolescentes ficou bem clara, é possível enxergar de maneira imparcial essa história toda.

Mas, ainda que toda a treta com Lolly tenha sido uma mistura de paranoia de Alex com uma peça pregada pelo destino, nada justifica o que Piper está fazendo com a namorada. Você ferra a pessoa, faz ela ir presa pra ficar junto com você, pede em namoro, e, quando ela está na pior, sai correndo pra se meter com outra? Mas que absurdo! Tô revoltadíssimo com isso, e já ansioso pra ver estourar na cara dela a revolta das calcinhas, liderada por Flaca, reivindicando reajustes e direitos trabalhistas. Observação: morri de rir com Red, que para a nossa alegria está voltando a ficar feliz e realizada na cozinha, vendo Piper e Stella se pegando no cubículo e dando meia volta. Stella tem razão quando diz que não devemos estar em um relacionamento por obrigação, mas o mínimo que se deve à outra pessoa é o respeito e a consideração que são traduzidos em uma conversa honesta antes de sair enfiando a língua nos outros.

A Titin’ And a Hairin’ entrou para o meu rol de episódios épicos de OITNB e, ao lado de Finger In The Dyke e The Chickening, integra o meu Top 3 da história da série. Este episódio nos ajuda a entender inclusive a reação quase apática de Doggett quando o guarda a agarra sob a árvore: estávamos diante de uma mulher corroída pela marca permanente do estupro. E, só pra não correr o risco de a discussão ir para o lado errado: sim, foi estupro, ainda que Doggett não tenha reagido e ainda que ela tenha dado bola para Donuts. Aqui, na vida real, muita gente culparia a detenta pelo ocorrido, por ela ter dado mole para o cara – sim, isso existe, e existe muito mais gente conivente e “favorável” ao estupro do que nós somos capazes de perceber. Não posso, na condição de reviewer, cair na besteira de publicar um texto justificando o injustificável e negando o óbvio, porque isso é, sim, ser a favor do estupro, ainda que indiretamente, ainda que inconscientemente.

O principal diferencial de Orange Is The New Black em relação ao uso de cenas de estupro é: aqui, o único objetivo é valorizar a mulher através de uma categórica crítica social e do foco absoluto na perspectiva feminina. Não existe nenhuma outra razão plausível para que um estupro ocorra na ficção (muito menos na realidade, obviamente, em que essa comum prática é um dos maiores absurdos da nossa sociedade) – os agentes ativos desses atos de violência contra Doggett são, inclusive, completamente irrelevantes como personagens. Isso, pra mim, é um uso extremamente sábio, consciente, correto e necessário de cenas de estupro. E não, não estou criticando Game of Thrones, que eu nem assisto, e sim trazendo para Orange Is The New Black a discussão que foi levantada pela HBO e mostrando minha posição sobre as cenas de estupro neste nosso caso. E, neste nosso caso, a única coisa que posso fazer é aplaudir essa série de pé.

Observações:

– Chocado com Morello psicopata usando o novo flerte para se vingar de Christopher. Aliás, vale dizer que o primeiro cara com o qual ela conversou nesse episódio finalmente é a representação perfeita do tipo de cara que eu sinto que toparia esse tipo de correspondência: basicamente um maníaco.

– O culto dos normangélicos continua bacana de acompanhar, e a sapateada na cara que Soso deu em Leanne foi bem merecida. Soso, aliás, me intriga mais a cada episódio. Adoro a personagem, mas o risco de a nova psicóloga da prisão ter criado um monstro ególatra ao inflar a autoconfiança da oriental é imenso.

– Pobre Crazy Eyes! É verdade que seu papel nesta temporada não é nada além de uma alegoria secundária (ou talvez terciária, eu diria) na série, mas sua insegurança para lidar com o sexo é de uma pureza tão bela de assistir!

– Melhor arco: o presídio inteiro torcendo e gritando enquanto acompanhava o julgamento de Judy King como quem acompanha os jogos da seleção brasileira (quando a seleção brasileira sabia jogar futebol, claro). Pena que a vadia não foi parar em Litchfield.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.