Foi se o tempo em que os primeiros meses do ano eram conhecidos como a “época das vacas magras” e 2015 é a maior prova disso. Algumas das produções que receberão o título de “uma das melhores do ano”, com certeza foram ao ar durante a mid-season.

Mais uma vez o Série Maníacos juntou sua equipe para selecionar as preciosidades que você pode ter perdido e listamos 5 das melhores estreias para você aproveitar e conferir antes de chegar a fall-season em setembro e sua grade ficar completamente atribulada.

Os critérios são simples: apenas novas séries que estrearam entre janeiro e abril de 2015 e que foram renovas para novas temporadas.

5. Bloodline (Netflix) – Por Henrique Haddefinir

A chamada vinha da seguinte forma: Dos criadores de Damages… E nosso cérebro tratava de se adiantar a restringir nossas memórias das aventuras das advogadas aos anos um, dois e três. É difícil ter que admitir, mas Damages foi só danos dali pra frente (com perdão do trocadilho). Então, sob a tutela da Netflix, os caras tiveram a oportunidade de planejar um novo trabalho, carregado de drama, estética e sem esquecer da marca que os tornou respeitados no meio: o suspense.

Bloodline já mereceria estar nessa lista por conta de seu elenco incrível. Kyle Chandler e Linda Cardellini são nossos velhos conhecidos das séries de TV e se isso já não fosse motivo suficiente, Sissy Spacek fortalece o casting com sua experiência no cinema. A história é bastante básica: uma família respeitada de um paraíso turístico interiorano é obrigada a lidar com segredos e tensões do passado, depois que a ovelha negra dessa linhagem volta para casa. Exatamente como em Damages, há um grande evento anunciado logo no primeiro episódio e veremos como a trama chegou até ali no decorrer da temporada. Também como em Damages, nosso envolvimento com a série e os personagens é quase instantâneo. Nesse tipo de dramaturgia, a confiança nos criadores tem que ser absoluta, já que a revelação final não está baseada no quê, mas no como.

O melhor acerca da série está no que não se percebe na superfície. Quando o filho-problema retorna, traz consigo a confrontação definitiva. Aquela vida aparentemente perfeita é provocada com deboche e cada um dos membros da família desmorona de dentro pra fora, num processo psicológico realmente admirável. Toda família tem seus problemas, mas o diferencial de Bloodline está na maximização brutal das consequências.

4. Togetherness (HBO) – Por Alexandre Bonfá

A HBO tem tido muito êxito nas suas comédias nichadas e, depois de atingir em cheio o público gay e o público nerd, com Looking e Silicon Valley, respectivamente, o alvo da vez foram os telespectadores maduros, carentes de uma dramédia humana e real, que evita as saídas fáceis e as piruetas fantasiosas. Se você tiver na faixa dos 35+ e não for muito bem-sucedido, certamente conseguiu se imaginar na pele de um dos quatro protagonistas.

Todos eles convivem com o fracasso, seja de forma explícita, como o gordinho careca, solteirão e falido, que mora no sofá da casa do amigo ou, mascarada, como o mesmo amigo casado, com dois filhos, bem empregado na indústria cinematográfica e, aparentemente com uma situação financeira estável. Uma vez que o roteiro é extremamente simples e prosaico, a série se impõe nas atuações inspiradas dos protagonistas, em especial Steve Zissis, que deve levar alguns prêmios por dar vida a Alex Pappas, e, principalmente Melanie Lynsey e a difícil tarefa de se tornar infiel.

O mais curioso em Togetherness é a distinção de previsibilidade entre o que se espera de uma obra de ficção versus o que acontece na vida real. Quase todo o desenrolar da trama é extremamente factível se comparado com o que acontece no mundo fora das telas, porém, estamos acostumados aos “finais felizes” fabricados de última hora e, por isso, a série nos atinge amargamente com uma cruel dose de realidade.

3. Empire (FOX) – Por Henrique Haddefinir

Imagine que você está em casa zapeando pela TV e passou por reprises de Smash e Glee. Meio avesso a musicais, você se pergunta se o motivo não é porque todos eles sempre parecem cômicos e afetados demais. A resposta seria não, o cinema tem um monte de musicais dramáticos pra todos os tipos de pessoas. Mas, a questão é que nas séries de TV o renascer do gênero é bastante recente e acabou bastante preso ao apelo com a audiência gay friendly. Poxa, mas você que não curte divas cantando e queria ter uma chance também… Pois sim, Empire é a série pra você, querido amido.

A ideia é ótima, precisamos admitir. Se tem uma coisa que tem movimentado o cenário musical norte-americano é o hip hop e o R&B. Dramas familiares são um filão desde que The Sopranos estreou e musicais são vendáveis segundo o histórico iniciado por Glee. Juntando tudo nessa receita, temos um sucesso certo. Empire é um drama musical sobre cultura negra, num momento em que todo o cenário pop mundial já se rendeu a ela. Isso torna o programa quase infalível, sobretudo porque toda sua produção musical (orquestrada pelo Timbaland) é muito correta e muito segura.

A história começa com o patriarca, dono da gravadora Empire, anunciando que por causa de uma doença degenerativa, passará o trono para um de seus herdeiros. Ele tem três filhos, mas apenas dois são artistas. Quando colocamos a sinopse assim, a série ainda ganha uma vantagem: ela tem um quê de Revenge, com reviravoltas e saídas megalomaníacas pra ninguém botar defeito. O passado de crimes da família acaba permitindo muita coisa e só a presença da personagem Cockie já vale uma olhada no show. A mãe dos herdeiros da gravadora é construída com um charme e deboche que são simplesmente irresistíveis.

2. Daredevil (Netflix) – Por Diego Antunes

É muito fácil salvar Demolidor, mas muito fácil mesmo. Uma série que carregou o estigma de filme questionável e que tinha muito a provar, foi a primeira da parceria entre Marvel e Netflix. Foram treze episódios, com Charlie Cox demonstrando exatamente o porquê havia sido escolhido para encarnar o defensor da Cozinha do Inferno. Muito sangue, ossos quebrados, fraturas expostas, a adaptação foi diferente de tudo o que a Marvel Studios havia apresentado em seu universo cinematográfico e unificado. Sua maior vantagem foi a liberdade oferecida pela plataforma de streaming, possibilitando momentos memoráveis, como a cena no corredor, ou a execução do irmão russo mais velho, em que Wilson Fisk usou nada além da porta do próprio carro para finalizar seu até então aliado. Nada disso teria sido possível na ABC, casa da Disney na TV.

Os coadjuvantes também ajudaram a transformar Demolidor na melhor adaptação de um personagem saído dos quadrinhos para a televisão. Muita mitologia, uma conexão suave com os filmes e uma identidade própria, que definitivamente elevou o nível de qualquer outra série, ou filme que surgirá no futuro. Se antes tínhamos na DC o ‘Cavaleiro das Trevas’ para demonstrar uma pegada mais pesada para um super-herói, hoje também temos um representante da Marvel, o Demolidor. Você pode ter todos os preconceitos possíveis para as chamadas “séries de super-heróis”, mas saiba que dar uma chance para Demolidor é sim mandatório. Matt Murdock, Wilson Fisk, desenvolvimento de mocinho e vilão de maneira exemplar, inimigos surgindo de todos os cantos e o tão pedido ar sombrio para a Marvel fizeram de Demolidor uma das cinco séries que salvamos da mid-season 2015.

1. Better Call Saul (AMC) por Aaron Engel

Better Call Saul era, no ano passado, a representação do maior medo compartilhado pelos fãs ardentes de Breaking Bad. Os temores eram vários e tinham fundamentações claras e razoáveis: a destruição do legado de uma série que marcou a história da dramaturgia televisiva com um spin-off de qualidade inferior, a confusão da linha temporal de Breaking Bad, o uso excessivo de um personagem coadjuvante que talvez não tivesse o mesmo desempenho estrondoso no papel de protagonista, a criação de desculpas esfarrapadas para trazer de volta personagens da série principal sem qualquer necessidade, etc. Talvez todos esses medos acabaram auxiliando o retorno estrondoso de Saul Goodman. Quando Better Call Saul provou ser uma série tão criativa e bem construída quanto Breaking Bad, a alegria foi bem maior.

Apesar da jornada de Saul ser preocupantemente similar à de Walter, sua construção é muito mais elaborada. O lendário Heisenberg já terminou o piloto de sua série atolado no mundo do crime, suas motivações simples e bem definidas: sustentar a família após sua morte em virtude do câncer. No decorrer da série essas motivações se complicaram. James McGill, por sua vez, já nasce complicado. Tivemos uma temporada inteira para estudar seu caráter, sua moral e os motivos que levaram à sua transformação em Saul Goodman. Tudo reflete a bagagem criativa que os criadores da série tiveram ao comandar Breaking Bad. Essa obra, por sua vez, deixou de ser uma gigantesca sombra atrás da qual Better Call Saul se esconde para se tornar um empecilho lógico aos desenvolvimentos de sua série filha. Filha esta que se emancipou cedo, muito cedo, e agora como adulta segue firme rumo ao estrelato. Indiscutivelmente a melhor série novata da Mid-Season 2015.

Menção honrosa:

iZombie (CW) – Por Alexandre Bonfá

Com um elenco extremamente carismático, casos da semana criativos e uma protagonista apaixonante, iZombie mostra que ainda existe muito espaço para séries baseadas em quadrinhos. Rob Thomas, conhecido principalmente por Veronica Mars, conseguiu entregar um roteiro equilibrado e cativante, que alternava drama, ação e comédia na medida certa. Tanta competência refletiu numa das maiores audiências da CW e o canal teve que arrumar um timeslot para a série já voltar nesta fall season.

Quanto à adaptação original da obra de Mike Allred – ainda que este fizesse parte da concepção da série – não há grandes semelhanças. Com exceção do humor negro escrachado e do “poder especial” da personagem central de comer os cérebros e absorver as memórias e habilidades das vítimas, toda a história divergiu muito do que se conhecia da HQ da Vertigo. Este, talvez tenha sido o maior acerto narrativo da série, pois o ritmo tresloucado da versão impressa, certamente agradaria um público bem restrito.

A maior virtude da série, enfim, foi a atuação irretocável de Rose McIver, que se desdobrou para encarnar uma personalidade nova a cada episódio, flutuando de um hacker escroto para uma cheerleader, de um oficial do exército para um baterista chapadaço, sempre com muita competência. Com apenas 13 episódios, é uma ótima opção de maratona para este período de summer-season.

E para você? Qual foi a nova série que se destacou no começo desse ano? Compartilhe conosco nos comentários.

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