Como viver às sombras de uma temporada de estreia impecável.
Séries antológicas, como True Detective e American Horror Story, tem suas vantagens e desvantagens em termos criativos. Se por um lado não precisam manter uma fórmula de sucesso e tem o direito de reiniciar histórias a todo momento, por outro precisam sempre se reinventar para não cair na mesmice. Isso é particularmente doloroso quando a trama anterior é tão bem desenhada. É exatamente isso que acontece com True Detective, que precisa deixar para trás o brilhantismo de seu ano de estreia e abrir mão de seus simbolismos para investir em algo completamente diferente. Por esse motivo, The Western Book of the Dead, que inicia a segunda temporada da série, soa tão diferente, embora também tenha amplas qualidades.
Dessa vez, Nic Pizzolatto nos apresenta a um novo detetive, Ray Velcoro (Colin Farrell), que vive problemas com a guarda de seu filho, nascido meses depois de sua esposa à época ter sido estuprada. Esse crime o envolveu com Frank Semyon (Vince Vaughn), que até os dias de hoje ainda mantém laços com o detetive da cidade de Vinci. Enquanto isso, a destemida Ani Bezzerides (Rachel McAdams) luta com seus problemas familiares para se firmar em seu emprego como policial. Assim como Paul Woodrugh, que acaba suspenso da patrulha rodoviária após ser acusado de solicitar sexo oral em troca do perdão de uma multa de trânsito.
Não é por acaso que as premissas e motivações que movem cada um dos personagens sejam tão distantes umas das outras. Pizzolatto busca a todo momento desenvolver cada um deles de maneira separada, como uma forma de isolá-los para cada um possa ganhar tempo de tela suficiente para que suas personalidades sejam estabelecidas. No entanto, isso cria um efeito indesejado em The Western Book of the Dead, transformando o episódio em algo excessivamente segmentado, criando a sensação de que não estamos assistindo sequer a mesma história. Essa escolha criativa não apenas impede que o espectador adquira a empatia necessária com os protagonistas, como também torna previsível que ao final do episódio todos eles se reuniriam de uma forma ou outra.
A única exceção é para o relacionamento entre Velcoro e Semyon, estabelecido desde os primeiros minutos do episódio. Mesmo assim, a forma atrapalhada com a qual a série cria esse laço, através de um flashback invasivo e destoante, não é compatível com a maneira sublime com a qual True Detective viaja no tempo em sua primeira temporada. É evidente a importância de entendermos o porquê de uma pessoa correta como Velcoro ter se envolvido com um criminoso como Semyon, mas isso poderia ser realizado sem a pressa que vemos aqui. Especialmente porque os dois só se reencontram nos minutos finais, criando uma desnecessária confusão narrativa.
Mesmo assim, é inegável que Pizzolatto mostre mais uma vez seu talento na criação de seus personagens. A coragem do showrunner em abandonar tudo que criou em sua primeira temporada para apostar em uma trama menos repleta de símbolos é digna de aplausos. Aliás, ele chega até mesmo a fazer uma pequena piada, ao colocar Velcoro sendo entrevistado em um cenário semelhante ao que vemos Rust na temporada anterior, criando no espectador a sensação de que veríamos algo parecido, para em seguida revelar que se trata apenas de uma conversa como uma advogada sobre a guarda de seu filho. Dessa forma, ele passa uma mensagem de que o que veremos aqui será diferente do vimos no passado. É verdade que Pizzolatto visivelmente sente falta de Cary Fukunaga como diretor. Justin Lin (Velozes & Furiosos, Community) faz um trabalho apenas correto em The Western Book of the Dead, sem a riqueza de linguagem que Fukunaga trazia para a série.
Mas o melhor que True Detective pode trazer é seus personagens. De novo, Pizzolatto evita qualquer tipo de maniqueísmo, criando um protagonista repleto de falhas, ao mesmo tempo em que permite que o espectador se identifique com ele. Seu primeiro diálogo com seu filho, é perfeito para que entendamos quase tudo sobre ele. Ali vemos o cuidado que ele tem com o garoto, assim como o fato de que não o vê o bastante e de que é divorciado. Depois, percebemos seus problemas, como seu envolvimento com Semyon, seu vício com bebidas e seu pouco respeito pelas regras. Tudo isso é entregue com grande competência por Farrell, capaz de transmitir com sucesso as dores de seu personagem.
Como uma espécie de paralelo ao que Velcoro representa, está Ani. Apresentada como uma irmã preocupada, mas que também enfrenta seus demônios, a policial soa como hipócrita em alguns momentos. No entanto, com o decorrer do episódio, percebemos que essa é exatamente a mensagem que Pizzolatto procura transmitir. Seus talentos são genuínos, e sua preocupação com a família é verdadeira, mas ela é tão solitária quanto o personagem que sequer conhece, como podemos ver nos minutos finais, em que ambos surgem em momentos patéticos.
Completando a força policial criada por True Detective está Paul. No caso dele, a série não parece ter um cuidado tão grande, implorando ao espectador que acredite que ele é uma boa pessoa, mesmo ignorando ao máximo a namorada para dirigir sua moto na maior velocidade que consegue. Embora seja aparentemente um personagem importante para a trama, The Western Book of the Dead não dá muita atenção a ele, tornando difícil essa percepção por parte do público. Pelo contrário, passamos grande parte do episódio tentando compreender a relação dele com a história exibida em tela.
Nos minutos finais, no entanto, começamos a entender. Ali, vemos a primeira união dos policiais mais importantes dessa temporada. Todos eles em situação constrangedora. Paul, que encontra o corpo do morto após dirigir na estrada em condições quase suicidas, está lá meramente por ter quase morrido. Ani e Velcoro estão terrivelmente bêbados. A eles se juntará Semyon, uma variável que não tínhamos na primeira temporada, para que, novamente, seres humanos repletos de falhas desvendem um crime bizarro em uma cidade pequena dos EUA.
É verdade que The Western Book of the Dead não é um grande season premiere para True Detective, já que sacrifica sua narrativa em nome da introdução de seus personagens. Mas a qualidade de Pizzolatto em criar personagens continua nitidamente presente. Por esse motivo, podemos afirmar que a segunda temporada tem grande potencial para manter o nível da primeira.















