A gigante das animações está de volta, quem sabe até com uma indicação na categoria principal do Oscar.

Vamos terminar nosso passeio pelos principais filmes de Cannes analisando aqueles que ficaram fora das premiações mas podem se tornar grandes competidores na temporada do Oscar que vem pela frente. Além disso, também irei comentar sobre a exibição de Inside Out no festival, um primeiro sinal extremamente positivo de que os gênios da Pixar estão de volta. Ao final, mais atualizações.

Youth

Direção: Paolo Sorrentino (This Must Be The Place, The Great Beauty)

Roteiro: Paolo Sorrentino

Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Jane Fonda, Paul Dano

Sinopse: Um regente de orquestra aposentado está de férias com sua filha e seu melhor amigo diretor de cinema nos Alpes, quando recebe um convite da rainha para se apresentar na festa de aniversário do príncipe Phillip.

Distribuição: Fox Searchlight

Lançamento: 4 de dezembro (EUA)

Metacritic: 78

RottenTomatoes: Sem nota

O que mais ouvi falar sobre esse longa de quem foi para Cannes: o Oscar vai amar. Não é segredo pra ninguém que a Academia ama filmes que falam sobre ela mesma (Argo, The Artist e Birdman só nessa década), e parece que Youth oferecerá exatamente esse enfoque. Com exceção de Carol, esse é por enquanto o filme mais hypado para as premiações do ano que vem. O último filme de Sorrentino ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e sua primeira incursão na língua inglesa pode render frutos em indicações por atuação. Caine e Keitel são boas apostas, enquanto que uma participação minúscula mas estrondosa de Jane Fonda impressionou a todos e também pode despontar. A distribuição da fortíssima Fox Searchlight só parece reafirmar que Youth será um grande competidor no Oscar 2016.

Trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=SN6mB_31uPA

Sicario

Direção: Denis Villeneuve (Incendies, Prisoners, Enemy)

Roteiro: Taylor Sheridan

Elenco: Elimy Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro, Jon Bernthal

Sinopse: Uma agente do FBI é recrutada por uma operação de elite do governo americano com o objetivo de combater o tráfico de drogas na fronteira entre México e EUA.

Distribuição: Lionsgate

Lançamento: 18 de setembro (EUA)

Metacritic: 83

RottenTomatoes: 87%

Uma hora ou outra Denis Villeneuve irá despontar no Oscar. O diretor está em alta voltagem: acabou de filmar dois filmes de uma só vez com a parceria de Jack Gyllenhaal, engatou um novo projeto com Sicario e já está confirmado para dirigir um novo filme de Blade Runner. As últimas notícias são ótimas, já que a recepção de seu novo longa policial é a melhor desde o indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro Incendies. 

O que se falou em Cannes é que as atuações estão incríveis, mas ninguém está colocando a mão no fogo para dizer que o longa será destaque na temporada de premiações. Sinceramente, eu não gostei de nenhuma das colaborações do diretor com Gyllenhaal (e olhem que amo o ator), mas o buzz positivo me atraiu. Ainda não temos trailers, mas considerando a data de lançamento eles já irão chegar. Fiquem atentos!

Macbeth

Direção: Justin Kurzel (The Snowtown Murder, futura adaptação de Assassin’s Creed)

Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie, Todd Louiso, baseado na obra de William Shakespeare

Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Elizabeth Debicki, Sean Harris

Sinopse: Macbeth, um duque da Escócia, recebe uma profecia de que será o próximo rei do país. Consumido pela ambição e incitado por sua esposa, ele mata seu rei e toma o trono para si mesmo.

Distribuição: The Weinstein Company

Lançamento: 2 de outubro (Inglaterra, sem data nos EUA)

Metacritic: 85

RottenTomatoes: 92%

Com certeza um dos filmes mais aguardados por mim esse ano. Não sei nada sobre a história original (e pretendo manter minha ignorância para aproveitar o longa), mas a dupla de atores principal é simplesmente imbatível. Fassbender é uma das luzes que me fazem gostar da nova franquia dos X-Men, de longe a que tem o elenco mais talentoso dos filmes de super-heróis atuais, enquanto que Marion Cotillard… Prefiro me manter em silêncio, pois sou fanboy dela com força e requintes de fanatismo. O trailer mostra uma obra com personalidade e estilo próprio, algo que ultimamente vem me atraindo muito em meio a uma indústria que controla seus diretores e suas visões pessoais de mundo para oferecer um produto final o mais genérico e brando possível (estou olhando para você, Homem-Formiga).

A recepção de Macbeth em Cannes foi ótima e com os Weinstein no comando as chances de indicações ao Oscar são altas. Resta saber se isso não será um tiro no pé para Fassbender, que irá estrelar a mais-isca-de-Oscar-impossível biografia de Steve Jobs e correrá o risco de dividir votos na Academia. Fãs de Assassin’s Creed, é bom acompanhar: o diretor desse longa irá levar os mesmos atores principais para a adaptação da famosa franquia de games da Ubisoft.

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=y4BNxOWi9Vs

Irrational Man

Direção: Woody Allen (Annie Hall, Hanna and Her Sisters, Midnight In Paris, Blue Jasmine, etc, etc, etc…)

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Emma Stone, Joaquin Phoenix, Parquer Posey

Sinopse: Um homem mais velho se apaixona… Bem, vocês sabem.

Distribuição: Sony Pictures Classics

Lançamento: 17 de julho (EUA)

Metacritic: 60

RottenTomatoes: 50%

Desde 1982 Woody Allen lança um filme a cada ano. Isso gera alguns fenômenos curiosos no mundo dos cinéfilos. Em primeiro lugar, sempre que falamos em previsões para o Oscar é ritualístico reservarmos um espaço para o filme do ano do diretor. Allen sempre lança um, e as chances de prêmios sempre existem: ele é Woody Fucking Allen, afinal. Outro fenômeno curioso é a classificação particular que os filmes do diretor acabam ganhando, considerando o número massivo de lançamentos que ele acumulou ao longo de sua carreira. Tem os bons, os ruins, os mais-ou-menos e outras tantas. Alguns até criam padrões imaginários: em anos ímpares tem filmes ruins, anos pares são os bons, e vice-versa. Às vezes ele solta um peso-pesado que arranca prêmios e indicações a torto e a direito, às vezes seus filmes sequer fazem cócegas na temporada de premiações.

Nos últimos anos o padrão tem sido de filmes “bons” e competidores reais nas premiações em anos ímpares (Midnight in Paris, Blue Jasmine) e filmes “ruins” nos anos pares (To Rome With Love, Magic in the Moonlight). É complicado classificar: eu gostei muito de Magic in the Moonlight, mas isso talvez seja porque não consigo resistir a uma musa chamada Emma Stone. Woody Allen também parece que não, e recrutou novamente a atriz para seu projeto. Infelizmente, o padrão parece ter sido quebrado: Irrational Man repete sua performance ruim com os críticos, pelo menos em Cannes, e depois disso é complicado que desponte na corrida pelo Oscar. É o primeiro flop do ano, embora eu não possa confirmar isso com 100% de certeza. Já o próximo filme…

Trailer:

The Sea of Trees

Direção: Gus Van Sant (Good Will Hunting, Elephant, Paranoid Park, Milk)

Roteiro: Chris Sparling (Buried)

Elenco: Matthew McConaughey, Naomi Watts, Ken Watanabe

Sinopse: Um americano suicida se torna amigo de um japonês, ambos perdidos numa floresta perto do Mt. Fuji. Juntos, eles tentam encontrar uma saída.

Distribuição: Lionsgate e Roadside Attractions

Lançamento: Sem data definida

Metacritic: 20 (HOLY SHIT!!!)

RottenTomatoes: Sem nota

Vaiado em Cannes e com uma nota pior do que todos os filmes da franquia Transformers, o filme do prestigiado diretor Gus Van Sant foi tão espancado por críticos e pelo público do festival que deu até pena. Para mim o resultado é ainda mais lamentável: Matthew McConaughey, meu ator favorito, vinha até então escolhendo seus papéis de forma impecável (com exceção talvez do esquisitão The Paperboy). Sabe-se lá o que existe de tão horrendo nesse longa para justificar as reações tão negativas.

Antes da exibição em Cannes The Sea of Trees era considerado como um possível frontrunner no Oscar 2016, mas esse é um caso em que a recepção é tão ruim que qualquer chance nas premiações é completamente obliterada. De qualquer forma, toda essa polêmica me deixou com uma vontade masoquista de conferir como um diretor aclamado pode errar tão feio assim, sem falar que assisto até comercial de carro com o McConaughey junto (entendedores entenderão).

Trecho:

https://www.youtube.com/watch?v=BTH2SVp-4mI

Inside Out

Direção: Ronaldo Del Carmen, Pete Docter (Monsters Inc., Up)

Roteiro: Pete Docter (Toy Story, WALL-E), Meg LeFauve, Josh Cooley

Elenco: Amy Poehler, Bill Hader, Diane Lane, Phyllis Smith, Richard Kind, Lewis Black

Sinopse: Uma jovem se muda para San Francisco e suas emoções lutam para se adaptar a uma nova vida.

Distribuição: Disney

Lançamento: 18 de junho (Brasil), 19 de junho (EUA)

Metacritic: 89

RottenTomatoes: 100%

A palavra “Pixar” para mim e muitos outros fãs de cinema é algo mágico, símbolo de criatividade, emoção, brilhantismo e puro talento. Infelizmente, já faz algum tempo que o estúdio não impressiona. Os altos patamares impostos pela própria companhia acabaram funcionando contra ela quando o ritmo impressionante de obras originais e brilhantes começou a cair. Desde 2009 não temos uma propriedade original (Brave não conta, me desculpem) e os fãs começaram a se preocupar. Onde estariam os gênios da Pixar? Aqueles que me fizeram chorar copiosamente numa sala de cinema assistindo a introdução de Up! e explodiram meus miolos de emoção com o silêncio tão eloquente e magnífico de WALL-E?

Aparentemente, eles estavam criando Inside Out. O filme foi exibido pela primeira vez em Cannes e teve uma recepção parecidíssima com a de Mad Max: muito entusiasmo e reclamações por não ter entrado na competição oficial. Junto da estreia ao fim do ano de The Good Dinosaur, esse promete ser um ano maravilhoso para a Pixar. Como isso pode se traduzir no Oscar?

Em resumo, é bem improvável que o estúdio saia da premiação em 2016 sem a vitória em Melhor Animação. Metade dos Oscars nessa categoria pertencem à Pixar desde que a Academia começou a premiar longas do tipo em 2002. A verdadeira questão é se Inside Out ou The Good Dinosaur repetirão o feito de seus predecessores Up! e Toy Story 3, arrematando também indicações a Melhor Filme. Se a categoria voltar aos 5 indicados de sempre, como alguns estão noticiando, podem acreditar que isso não irá acontecer. Se a categoria permanecer expandida, também posso garantir que não ganharão o prêmio principal. A Academia é assim mesmo. Deal with it.

Atualizações

– The Tribe é um dos longas que conferi essa semana, e provavelmente uma das experiências mais únicas que já tive no mundo cinematográfico. Com um elenco composto inteiramente de atores surdos/murdos, diálogos na língua de sinais e total ausência de legendas, o longa desafia o expectador a entender o que acontece na tela. Não satisfeito em criar um filme cuja língua é ininteligível para o cinéfilo normal, o diretor ucraniano Miroslav Slaboshpitsky organiza sua obra inteira em uma fila ininterrupta de planos sequência, alguns deles simplesmente inacreditáveis. The Tribe é um mergulho na sociedade daqueles que falam com as mãos, sem a presença de um tradutor. A trama, que envolve um garoto entrando em um novo colégio só para surdo-mudos, é simples e poderosa. O longa é uma experiência obrigatória para o fã de cinema, algo único e jamais feito na história dessa mídia. Não deixem de conferir. Deixem-me ser mais enfático: ASSISTAM LOGO ESSE FILME!!!

Trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=ZeYO_EoHP0k

Gett: The Trial of Viviane Amsalem é outro longa estrangeiro fantástico. Atuado, co-escrito e co-dirigido por Ronit Elkabetz, o filme se passa inteiramente dentro de um tribunal em Israel. Viviave Amsalem quer o divórcio de seu marido, mas as leis patriarcais do país judeu obrigam-na a conseguir o consentimento do mesmo. Um longo processo judicial se inicia, e eu como estudante de Direito fiquei felicíssimo em ver um filme abordando um dos maiores problemas de qualquer sistema judiciário: o tempo. O longa não tem outra locação que não seja a sala de audiências, com letreiros simples informando a passagem dos dias, meses e anos. Elkabetz é um milagre: sua atuação é estupenda e deixaria no chinelo qualquer das atrizes nas categorias do Oscar ano passado. Gett aparentemente é uma sequência de dois filmes anteriores da mesma diretora (em colaboração com sua irmã) que usam os mesmos personagens, mas eu só descobri isso ao terminar de assistí-lo, e conhecimentos prévios não são necessários para apreciar essa obra de arte. Foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, mas ficou por isso mesmo. Não deixem de assistir.

Trailer:

– Eu estava ansiosíssimo para conferir outro trabalho de Alicia Vikander depois da ótima primeira impressão em Ex Machina, e Testament of Youth foi a oportunidade perfeita. Baseado em fatos reais, algo que descobri somente no final, o filme conta a história de Verra Brittain, uma das vozes mais importantes da Europa após o final da Segunda Guerra Mundial. O longa, entretanto, tem seus problemas. O início abraça sem medo todos os clichês possíveis do filme romântico meloso, sendo tremendamente genérico. Felizmente, do meio pro final só melhora, e a atuação magnífica de Vikander conseguiu me manter vidrado mesmo nos momentos mais chatos. Kit Harington tenta, mas ao lado de uma atriz claramente mais talentosa ele só prova que é um intérprete comum, algo que já me irrita há tempos em Game of Thrones. Vikander brilha durante o filme todo e ao final do longa eu já estava considerando uma indicação ao Oscar extremamente justa. Isso que estamos falando apenas do segundo de sete trabalhos da atriz esse ano. Estou fascinado. Uma crítica: você não coloca Dominic West, DOMINIC FUCKING WEST no seu filme e não dá espaço para o ator brilhar. Por que até mesmo os atores mais conhecidos de The Wire não conseguem trabalhos à altura de seu talento?

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=dWcMSoow3v8

Me and Earl and the Dying Girl lança nesse final de semana em circuito limitado, o que significa que as reviews dos críticos que não foram para Sundance chegaram. A recepção foi significativamente pior, principalmente considerando o amor incondicionado que recebeu no festival. O Metascore caiu de 90 para 73, e subitamente o hit de Sundance não parece mais tão poderoso assim. Sem a força da crítica acho difícil o longa chegar ao Oscar: Whiplash e Boyhood, os “representantes” do festival ano passado, tiveram recepções impecáveis (Whiplash com 88 e Boyhood com 100, simplesmente a maior nota da história do site).

– Temos a primeira notícia relacionada à escolha dos filmes representantes de cada país no prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Ironicamente, é a mais óbvia de todas: Son of Saul foi o escolhido pelo comitê húngaro de seleção, numa votação unânime. Esperem a presença do longa no Oscar 2016, é bem provável que seja indicado.

Na próxima coluna, começarei a apresentar a tonelada de filmes que ainda não foram exibidos por nenhum festival, dando prioridade para aqueles que já tiveram trailers liberados. Preparem-se, pois os verdadeiros pesos-pesados começarão a aparecer.

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