Sense8 foi uma das estreias mais esperadas desse ano de 2015, principalmente depois de a Netflix liberar o trailer. No entanto, olhando em retrospecto, talvez esse trailer tenha sido o maior obstáculo da série perante o público. A série foi vendida dentro de uma atmosfera de ação e energia que traiam a lógica da narrativa, que priorizou, na verdade, o desenvolvimento dos personagens e a interação entre eles. Mais importante que a mitologia foi a humanidade e a simplicidade da história sendo contada. Depois de doze episódios, o legado que a série deixou foi de um sentimento de identificação grande com Nomi, Will, Kala, Wolfgang, Riley, Capheus, Sun e Lito. Cada um deles representou um pedacinho de nós mesmos e, assim, celebrávamos e vibrávamos a cada crescimento vivenciado por eles e sofríamos as dores de suas derrotas e tragédias.

Mas Sense8 não quis somente identificação, mais que tudo, ela tinha um desejo de defender suas ideias. E, dessa forma, vimos um projeto televisivo defender todas as bandeiras que eram possíveis comportar em sua narrativa. O feminismo esteve presente desde a divisão de protagonistas: quatro mulheres e quatro homens. Cada um de nós deve ser reconhecido, respeitado e amado como quem, de fato, somos e não como nascemos e esteve lá a voracidade, a beleza e a honestidade de Nomi. Não devemos ter vergonha nem tentar esconder nossa verdade e Lito, a trancos e barrancos, aprendeu a lição. E, se é para sentir prazer e ter liberdade sexual, que as sexualidades não sejam barreiras e sim motores para tal (e o Boticário agradece).

E, por termos acompanhado tantas vitórias e crescimentos nessa primeira temporada, a trama de Wolfgang se destacou nesse season finale. Depois de ter sua personalidade acalorada por seu contato com Kala, o personagem, através da vingança pelo ataque a Felix, entrou em uma espiral obscura, que foi coroada nesse episódio. A prova de como o tom mudou e se agravou é comparar a sequência na mansão com o ataque com a bazuca. Lá, o aumento da violência emanou uma aura cômica, devido à escalada dos armamentos usados. Aqui, a soberba chacina provocada pelo alemão não teve explosão, não teve escape cômico: a tensão era palatável. O momento era sério e isso tornou ainda mais intenso o momento que Wolfgang revela que sufocou e queimou o corpo do pai, revelando a selvageria que guardava dentro de si.

Nesse momento, o personagem superou Capheus e assumiu o melhor desenvolvimento de personagem da temporada. Aqui não tivemos uma jornada de descoberta, mas de aceitação e resignação perante os instintos mais selvagens. E isso ressoa num tema que percorreu todos os personagens: a centralidade da família. Wolfgang foi tão pisado e maltratado pelo pai que acabou espelhando a monstruosidade dele para sobreviver. Como ele poderia requerer o amor de Kala depois desse banho de sangue? Ele somente consegue se enxergar como um mostro e, por isso, fica preparado o terreno do rapaz para uma possível segunda temporada. Wolfgang pode seguir duas jornadas: abraçar seus piores instintos ou encontrar uma redenção própria. Independente do caso, o berlinense foi responsável pela melhor cena de ação da temporada.

Lito transão já tinha encerrado seu arco da temporada, então é claro que ele iria surgir em tela para se despedir causando. Rapaz, como eu ri com ele se apresentando para Will: “Nós transamos”, “Foi muito especial”. Palmas para a canalhice de Miguel Ángel Silvestre. E, já que o caminho levou a Will, não tem como deixar de falar do resgate a Riley. E que espetáculo foi a montagem da longa (muito longa) sequência que começou no aeroporto e se prolongou até a fuga dos estabelecimentos da organização. Foi um trabalho tão complexo e majestoso que tivemos direito a Sun Van Damme se despedindo em alta, Capheus dirigindo a ambulância, Wolfgang fazendo o trabalho que ninguém tem coragem de fazer, Nomi transitando entre seu apartamento e a Islândia e Kala acordando a islandesa do medicamento. De longe, o maior feito técnico da série nesse primeiro ano, essa sequência se tornou um dos momentos antológicos do ano em qualidade técnica de séries de TV.

Mas, em termos de beleza artística e força emocional, o flashback de Riley é imbatível. A luta da islandesa para sobreviver e salvar a filha foi um testamento do poder da atuação de Tuppence Middleton. Finalmente entendemos a razão de toda a depressão sentida pela personagem e é louvável a coesão do roteiro em interligá-la ao tema familiar que perdurou ao longo da temporada. Além disso, a série criou uma rima narrativa: iniciou com o sacrifício de uma “mãe” por seus filhos (afinal, Angelica foi a responsável por ativar as habilidades psíquicas dos protagonistas) e, em seus momentos finais, mostrou o lamento de uma mãe que perdeu a filha, apesar de ter lutando o quanto podia para que isso não ocorresse.

E lembra da mitologia? Então, o legado desse season finale foram perguntas. Agora que Whispers tem acesso a Will, como ficará a segurança do resto do grupo? Conheceremos mais sobre Angelica e a origem de Whispers? O que levou o antagonista a se voltar contra sua espécie? Quanto a história, Kala se casará com Rajan? Qual o caminho a ser percorrido por Wolfgang? Daniela será promovida ao elenco fixo e se tornará a rainha do sensates siriricando pelas ruas desse mundo todo? Qual será o impacto da revelação da sexualidade de Lito em sua vida? Will e Riley já encaminhando o terceiro filho? Capheus conseguirá manter a segurança de sua mãe, agora que é uma figura procurada por uma gangue? Será a proteção de Kabaka o suficiente? Nomi já será a presidenta da ONU? Como ficará a segurança da hacker quando as autoridades voltarem a persegui-la?

Sense8 foi uma bela surpresa. Uma série que conseguiu quebrar as expectativas e, mesmo assim, encantar com a jornada mostrada. Agradeço a todo mundo que acompanhou as reviews. E que venha a renovação!

Artigo anteriorThe Fosters 3×01: Wreckage [Season Premiere]
Próximo artigoThe Muppets | Assista ao novo promo