Em seu terceiro capítulo, Sense8 conseguiu atingir um patamar recompensador de coesão narrativa. Trabalhou melhor a sincronia das situações vividas entre os personagens e abriu espaço para o desenvolvimento de dois personagens até então somente introduzidos. O resultado foi empolgante, mas nada poderia nos preparar para What’s Going On?. Livre da necessidade de apresentar seus personagens, a série se empenhou no desenrolar das sincronias entre as situações vividas por eles, explicou certos aspectos da mitologia e construiu uma atmosfera de tensão latente. Mais que isso, saídas simples driblaram possíveis incoerências passadas e o veredito que fica é: não adianta, eu já me importo demais com os personagens para não sofrer com cada tropeço sofrido, cada decisão a ser tomada e vibrar com cada vitória alcançada.

Assim como em I Am Also A We, Jonas foi uma peça fundamental para que pudéssemos nos situar melhor em relação à conexão dos sensates. Agora sabemos que há dois tipos que resultados através da ligação: visitar e compartilhar. Para visitar, sendo de grupos diferentes, é necessário que tenha havido contato visual entre as pessoas. Isso explica o fato de que Jonas somente se projetou para Nomi e Will, uma vez que foram os dois únicos com que ele estabeleceu um contato mais próximo. Apesar disso, entre os membros do mesmo grupo, as visitas e compartilhamentos ocorrem livremente. Até o momento, acompanhamos mais o compartilhamento entre os personagens e isso foi o que tornou esse episódio tão especial.

Mas antes de chegar ao compartilhamento, vale ressaltar que as relações familiares são um ponto que unem todos os personagens. Wolfgang guarda o despeito e a raiva pelo falecido pai. Kala se fundamenta seu casamento na felicidade dos pais. Will possuiu uma relação conturbada com o pai desde sua infância. Riley guarda carinho e admiração pelo pai. Capheus tenta prolongar a vida de sua mãe de uma forma menos dolorosa. Nomi sofre o desrespeito e a humilhação da mãe que não consegue aceitar e compreender quem ela realmente é. Lito tem que enfrentar a presença do ex-namorado de Daniela e a presença desta em sua vida com Hernando. E Sun lida com a negligência do pai e a ausência da mãe.

Isso é fundamental para nossa identificação com os personagens. Afinal, apesar da grandiosidade da conexão entre os protagonistas, enxergamos um ser humano com problemas comuns é o que nos faz temer a realidade dos problemas por eles enfrentados. E, por nossa identificação com os oito indivíduos estar maior, What’s Going On? se tornou tão tenso. E a grande responsável por isso foi a montagem soberba da série, que atingiu um novo patamar de qualidade. Usando a ideia de compartilhamento intensamente, transitávamos entre o corredor da prisão e o do clube do sexo, saímos de Seoul e retornávamos a Chicago com o coreano sendo falado, pisavam no solo de Berlin e éramos levados para a lama de Nairóbi.

O auge, no entanto, foi aquela sequência com a música What’s Up, que estourou no momento em que as emoções estavam exaltadas na vida de todos os personagens. Nomi indo em direção a uma lobotomia e depois sendo resgatada. Wolfgang enfrentado a lembrança do pai e cantando na frente de todos em um karaokê. Riley descobriu a realização profissional do pai. Capheus se aproximou de conseguir quantidade generosa de medicamentos para o tratamento da mãe. Sun tinha que decidir se iria socorrer a empresa da família ou tomava coragem de se sacrificar pelo irmão. Lito deitava com a realidade da quebra da intimidade de seu relacionamento com Hernando. Will lidava com as descobertas feitas com Jona e com a existência ameaçada de Nomi. E Kala sonhava com o amor que não sentia. Aqui não vimos um espetáculo somente de montagem, mas também de fotografia e coroou a turbulência proposta pelo episódio.

What’s Going On? também foi impulsionado pelo seu elenco. Os olhares apreensivos, aterrorizados e indignados de Jamie Clayton tornaram sua jornada ainda mais urgente e intensa. Doona Bae manteve a austeridade de Sun, uma mulher tão rígida consigo e, por isso, os breves momentos em que ela deixava seus sentimentos transbordarem foram tão únicos. Brian J. Smith trabalhou toda a confusão mental de Will diante de suas recentes descobertas e isso é uma decisão acertada. Mais que mostrá-lo determinado e heroico, é necessário expor suas dificuldades de ter que lidar com a realidade de que sua vida está ligada a outros e, assim, sua vontade de salvar Nomi se torna crível.

E agora ficam as expectativas quanto ao futuro dos personagens. O serviço prestado por Capheus ficou banhado em inquietação, pois foi tudo estranhamente fácil. Além disso, depois de cumprir a primeira missão, conseguirá o rapaz se desvencilhar do crime? Qual será a reação da família de Nomi à escapatória dela do hospital? Agora que Jonas foi levado, quais serão os próximos passos de Will? Ele buscará Nomi? Sun se sacrificará pela empresa do pai? Quais serão as consequências do roubo de Wolfang? Até agora, ele e o amigo estão vivendo um sonho, no entanto sabemos que isso não durará muito.

Sense8 começou a avançar a história de seus personagens e somente ganhou com isso. What’s Going On? foi o capítulo divisor para a série. Ela já mostrou que é capaz de muito mais do que tínhamos visto e que consegue explorar o seu potencial enquanto ressalta suas qualidades. As vidas dos personagens estão cada vez mais sincronizadas e daqui para a frente é torcer para que a trama esquente ainda mais. 

P.S.: Na boa, to nem aí se tá ligado com a trama geral, mas já to shippando Kala e Wolfgang.

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