Tropeços no roteiro não atrapalham a mensagem otimista do filme, mas impedem que a Disney tenha mais um clássico em mãos.
Uma das minhas primeiras experiências com o cinema foi assistindo a Toy Story 2 lá em 1999, ainda criança. Por dias eu fiquei intrigado pelo mundo que vi na tela e que proporcionou horas e mais horas de brincadeiras no fundo do meu quintal. Mas o ceticismo que veio com um melhor(?) entendimento do mundo me impediu de ser encantado mais vezes pela sétima arte. Pelo menos não do mesmo jeito inocente que toda criança se deixa ser. Tomorrowland, que chega nesse fim de semana ao Brasil, traz de volta um pouquinho daquele otimismo esquecido e trocado pelos filmes “sombrios e densos”, agora sinônimos de “realistas” e que dominam as salas de cinema.
Criado por Brad Bird (Os Incríveis; Missão: Impossível – Protocolo Fantasma) e Damon Lindelof (Lost, Guerra Mundial Z), o filme conta a história de dois sonhadores de tempos diferentes: o pequeno Frank Walker de 1964 e Casey Newton (Britt Robertson, Life UneXpected), uma adolescente de hoje que não se deixa abalar pela realidade amarga que a cerca. Quando criança, Frank descobriu Tomorrowland, um lugar secreto onde as maiores mentes da Terra se reuniram na tentativa de fazer uma diferença no planeta sem sofrer a interferência de obstáculos como, por exemplo, a política. Um lugar onde nada é impossível, como deixa claro o subtítulo nacional. Agora, Frank (já adulto, interpretado por George Clooney) e Casey, junto com a recrutadora Athena (Raffey Cassidy, Mr Selfridge), devem voltar para Tomorrowland e consertar esse mundo depois que as coisas desandaram por lá.
Bird faz um trabalho respeitável ao tentar criar expectativa para a chegada a esse novo mundo, mas seu roteiro não nos recompensa pela longa espera; o tão falado Governador Nix (Hugh Laurie, House) – diferente dos vilões oitentistas em que o filme se inspira – deixa bastante a desejar, mesmo sendo possível entender de onde partem suas ideias quanto ao atual estado do planeta e a falta de atitude da humanidade. E por mais divertidas e bem-feitas que sejam as cenas de ação, o clímax apressado e confuso também é resultado de um roteiro que falha na construção da história, deixando pelo caminho furos sobre o passado dos personagens e sobre a própria “terra do amanhã”.

Além dos furos, o principal problema aqui é a estrutura do filme, completamente descompassada. Somos apresentados a dois começos, um contado por Frank e outro por Casey, e é tanto tempo que se perde correndo e lutando contra robôs no nosso mundo, que sobram poucos minutos para que a história engrene de verdade quando chegamos a Tomorrowland. Sobra tão pouco tempo que Casey descobre qual a ameaça criada como consequência dessa terra do futuro e como destruí-la em dois minutos de filme. Em contrapartida, gasta-se tempo demais investindo na subtrama de amor entre Frank e Athena, que tem de ser abordada com muito cuidado para não acabar levantando questões sobre pedofilia, já que Frank tem uns 50 anos e Athena não passa de dez. A sorte é que o elenco mais novo segura as pontas tanto na comédia quanto na parte emocional, porque os veteranos funcionam o tempo todo no piloto-automático. *
*Não posso deixar de comentar o quão legal é ver que o papel de “o escolhido” de um blockbuster dessa escala vai para uma garota independente e cheia de atitude e que o papel de “durão” vai para uma garotinha de dez anos.
Essa falta de ritmo não impede o longa de ainda (tentar) tocar em questões em voga na sociedade atual. Em Tomorrowland, há lugar para pessoas de todas as etnias, sem discriminação por cor ou classe social (que parece não existir nesse mundo utópico). Já na Terra da dimensão em que nos encontramos, o assunto é o aquecimento global e as outras tragédias causadas pelo homem – “como pode um único lugar sofrer epidemia de fome e de obesidade ao mesmo tempo?”, pergunta o Governador Nix em certo ponto. Onde foi que as coisas começaram a desandar aqui? Por que desistimos de um futuro primoroso e abraçamos de bom grado o fim que nos assola? Ainda há tempo para reverter a situação? Todo esse subtexto, infelizmente, é tratado de maneira rasa e acaba sendo deixado de lado, já que esse ainda é um filme para crianças.

Desde a apresentação de seu mundo futurístico – de estética tipicamente clean, mas cheia de vida – à presença de personagens excêntricos, Tomorrowland lembra os blockbusters que dominaram os anos 80 e se posiciona como alternativa aos filmes de destruição e futuros apocalípticos que tomam conta do cinema hoje em dia. O longa trata de esperança em um mundo onde é mais fácil desistir, onde sonhadores são vistos como lunáticos e suas soluções, como fantasias. Falando assim, fica bem claro que, como bom filme da Disney, esse é um filme que busca aquele clássico sentimento de encanto que eu toquei lá em cima. Se Bird e Lindelof conseguiram, de fato, inspirar seu público mais novo, eu não posso afirmar, mas os dois entregam, pelo menos, duas horas de boa diversão descompromissada, mesmo que não acertando o suficiente para tornar Tomorrowland mais um clássico do estúdio.












