Há um sadismo na mente humana que é fascinante e assustador ao mesmo tempo. É possível ver os conflitos africanos, ficar triste pela tragédia e instigado a pesquisar detalhadamente os tipos de mutilação que ocorrem. Podemos assistir a Hannibal enojados com a violência do canibalismo do protagonista e sentindo fome ao ver os pratos que ele cria. Podemos ver Black Jack Randall torturando pessoas, violentando sexualmente e psicologicamente e, mesmo assim, ansiamos pelo próximo momento em que ele surgirá na tela. Wentworth Prison (WP) foi um episódio complexo, no qual, apesar da jornada de Claire em busca do resgate do marido, o que se sobressaiu foi a exposição do modo de pensar do capitão inglês: a forma sádica com que enxerga o mundo e a visão romântica deturpada que tem sobre suas ações.
A história a ser contada nesse capítulo era complexa. Havia a necessidade de retratar a busca da Sassenach e o encarceramento de Jamie. A escolha feita pelo roteiro de dividir a narrativa em dois eixos concorrentes foi acertada. Se acompanhássemos as ações de Claire em prol do resgate do marido, ao longo da primeira metade do episódio, havia a possibilidade de não entendermos a necessidade de urgência em sua busca. Com as histórias se desenrolando em paralelo, a cada segundo que víamos Black Jack e o highlander na cela, ficávamos nervosos diante das atitudes sádicas que o primeiro poderia cometer e, até mesmo, ao final, quando percebemos que o plano de resgate somente poderá ser colocado em prática na manhã seguinte, o desespero toma de conta por sabermos que, até então, Fraser poderá estar morto.
Não somente a estrutura do episódio foi louvável, o lado artístico alcançou a coerência necessária para impulsionar a sensação de claustrofobia e tragédia que o episódio exalava. Não tivemos, dessa vez, as belas imagens das paisagens escocesas, a trilha sonora bela e regional, os cenários ricos e aconchegantes ou os figurinos pomposos. O que vimos foram cenários sujos, figurinos rasgados e ensanguentados, uma trilha sonora soturna e contempladora e as imagens sufocantes, frias e escuras da prisão. Diante disso, a direção de Anna Foerster foi primorosa por administrar de forma segura e incisiva todos esses elementos destoantes do que a série tinha nos acostumado e ter criado uma sensação assustadora de desespero crescente, à medida que a narrativa de desenrolava.
Mas, como afirmado na review anterior, WP era um episódio crucial para o futuro de Outlander. E, felizmente, o receio de que as coisas pudessem sair errado se revelou infundado, porque esse décimo quinto episódio foi um dos mais fortes, intensos e fascinantes da série até o momento. Vale começar falando de Claire. A personagem demonstrou sua bravura e força de vontade em diversos momentos, ao longo dessa temporada, e aqui atingiu seu ápice. Ela protagonizou a conversa com Sir Fletcher, enquanto escondia suas emoções. Entrou na prisão sozinha, mesmo podendo ser estuprada a qualquer momento, como bem colocado pelo guarda. E, mesmo diante de Black Jack e Marley, ela conseguiu se desvencilhar de ambos e colocar uma corrente em volta do pescoço do capitão.
Apesar de tudo isso, ainda houve nas redes sociais, pessoas que acusaram o episódio de machismo pelo fato de ação da inglesa ter piorado a situação do marido nas mãos do capitão. Então vale um questionamento: estamos assistindo a mesma série? Claire conheceu o interior da prisão e o local em que os prisioneiros que não serão enforcados ficam, deixou uma porta aberta para rota de fuga e ainda conseguiu, pela segunda vez na série, derrubar a arrogância e revelar o medo de Black Jack ao contar as informações sobre sua morte. Se ela não tivesse ido à prisão, Jamie sofreria nas mãos de Randall de qualquer jeito. Agora, pelo menos, há a esperança do resgaste. Independente do caso, o que é necessário é parabenizar a atuação de Caitriona Balfe, que esteve magnífica em todos os cinquenta e seis minutos, brilhando principalmente no breve momento em que ela deixa ir à tona os diversos sentimentos na sala de Sir Fletcher.
Tobias Menzies impressionou mais uma vez com seu Jack Black Randal. A profundidade da personalidade do Capitão Red Coat, a briga interna entre o sadismo e o desejo por Jaime e a perseguição dessa fantasia a ponto de interromper uma execução sancionada pelas autoridades superiores foi um belo espetáculo para os espectadores. Os olhares, a tensão e a excitação em subjugar Jamie, vendo as cicatrizes em suas costas e a emoção em finalmente poder ter o escocês para seus jogos violentos e sexuais foram de uma magnitude ímpar. E, tendo em vista a escalada das ações esperada para o season finale, fica a ansiedade e o medo de descobrir até que ponto o personagem será capaz de chegar.
Sam Heughan não ficou para trás e respondeu de forma exemplar. A forma que o medo foi crescendo em seus olhos, beirando o desespero, ao final do episódio, foi de uma sutileza gratificante. E esse era um momento arriscado para o ator diante do personagem, uma vez que todas as cartas poderiam ter o levado para o exagero e o melodrama. Mesmo assim, mais que choros e gritos, Heughan optou pelo olhar e as expressões de dor e hesitação. Uma escolha acertada, que foi compartilhada pelos outros dois protagonistas.
Outlander preparou o terreno para um season finale dramaticamente intenso e o que nos resta dizer é que estamos felizes e empolgados com essa reta final, que retirou a série do marasmo e recolocou-a no eixo.
P.S.: Outlander terá hiato essa semana e retorna dia 30 de maio.
P.S.: CONTINUE SOMENTE SE TIVER LIDO O PRIMEIRO LIVRO – Até que ponto vocês acham que o episódio final chegará no retrato da tortura e do estupro de Jamie?
P.S.: CONTINUE SOMENTE SE TIVER LIDO O SEGUNDO LIVRO – Vocês acham que eles darão um flashfoward para atiçar a curiosidade para a próxima temporada ou encerrarão no mesmo ponto do livro? Seria interessante ver Claire e Jamie envelhecidos no futuro.
P.S.: Pessoal, se forem comentar sobre qualquer spoiler, favor respeitar que não leu os livros e anunciar o spoiler já no início do comentário.
















