Another brick in the wall…
JONATHAN ARTHUR HANLEY (1946-2001)
A New Person começa de forma igualmente anestesiante e chocante, trazendo a morte banal de um marido pela esposa. Durante o café da manhã, cansada do falatório do marido, a mulher lhe tasca numa panelada na cabeça “apenas” porque ele era um chato. Perspectiva dolorosa a que essa cena nos traz, com a qual nos conseguimos identificar perfeita e bizarramente, já que todos nós às vezes somos chatos e também cogitamos fazer tal coisa com os chatos que cruzam nosso caminho.
Esta morte merecia ser mais explorada, especialmente as motivações da esposa. Embora o quase absoluto silêncio sobre esta morte no decorrer do episódio contribua para a sensação de banalidade e aleatoriedade, acho que A New Person falhou exatamente em relegar uma das mortes mais impressionantes até aqui a uma posição mais apagada que o costumeiro.
Nate e David concluem que precisam de um substituto para Rico, tanto porque o trabalho é pesado como porque eles não são especialistas em restaurações. É aí que entra em cena a esquisitona Angela (Illeana Douglas): uma restauradora funerária tão competente quanto impertinente. Angela é uma típica sincericida. Fala exatamente o que pensa, sem filtro e sem censuras. Ademais, tem o indecoroso costume de trabalhar beeeem à vontade, além de portar um singelinho pingente em formato de cannabis em um colar que repousa languidamente num farto decote.
Se a sinceridade de Angela e sua inconveniência (especialmente em emitir comentários sobre a vida sexual de seus patrões – Ruth incluída) são bons alívios cômicos do episódio, Billy é responsável pelo drama. Temos aqui a inauguração de sua nova exposição fotográfica, ocasião perfeita para reunir Billy, Brenda, Nate, Mama Chenowith (já que o papai não pode estar presente para prestigiar o filho), além de Ruth e Nikolai.
A loucura de Margareth e Bernard Chenowith é algo tão comovente quanto revoltante (ou o contrário – como preferir). Como pode dois psiquiatras serem tão racionalmente insensíveis na criação de seus filhos? É óbvio que “casa de ferreiro, espeto de pau” é uma realidade universalmente verossímil, mas não deixa de chocar. Diante de tais pais, a identificação com o sofrimento de Nathaniel e Isabel Billy e Brenda é quase automática. Ênfase no quase, já que não há como julgar descabida a reação de Nate à sua foto urinando em um muro tirada por Billy.
Ao invés de atenuar seu sofrimento, a inauguração da exposição só agrava o sofrimento de Billy. Não apenas pela discussão com Nate e Brenda, mas sobretudo pela presença de Feinber, o psiquiatra que os analisou quando crianças e autor do livro “Charlotte, Light and Dark”. Billy invade seu consultório, destruindo os arquivos sobre o tratamento de Brenda.
Brenda se abre mais um pouco à Nate, contando mais revelações do passado: o fato de ter sacrificado a ida à faculdade para cuidar de Billy, após sua tentativa de suicídio. Tudo isso para depois ouvir de Margareth que Billy não havia tentado suicídio (e sim, se acidentou ao fazer uma bomba). O grau de manipulação e mentira aqui envolvidos são cavalares e hediondos, o que – somado ao apelo dos pais para convencer Billy a aceitar ser internado – acrescenta bastante dramaticidade ao plot de Brenda.
Outra evolução importante que a trama de A New Person trouxe foi o descuido de Angela, após ser demitida da Fisher & Sons (Nico is back in the house!), de “revelar” à Ruth que David é gay. De fato, toda a trama de Angela foi trabalhada de forma bem orgânica e redondinha, entregando uma participação especial nada avulsa; pelo contrário, que foi bem integrada com o desenrolar da trama central. Six Feet Under não é série de entregar episódio filler, “jamé”!
RIP 1: Illeana Douglas foi indicada ao Emmy de atriz convidada em drama por este episódio.
RIP 2: Reprise de Full House numa manhã de domingo. Quem nunca?
RIP 3: Episódio dirigido por ninguém mais ninguém menos que Kathy Bates. Bom pra vocês ou querem mais?
RIP 4: David num Telesex. Somado ao layout do seu PC, mais uma agridoce lembrança de que estamos no início dos anos 2000.















