Outlander entregou o seu episódio mais completo e balanceado da temporada.
Semana passada, Outlander colocou em prática duas atitudes ousadas. Primeiramente, mudou a narração e o ponto de vista de sua história da Sassenach para Jamie. Segundo, não fugiu do material base e expôs a surra tomada por Claire. Ambas as coisas geraram debates e controvérsias na internet. Prevendo que The Reckoning teria essa reação, esse décimo capítulo inicia com uma cena de sexo em que uma mulher é servida calma e intensamente por seu marido até que ela atinja o orgasmo. Havia, depois do abuso sofrido pela inglesa, a necessidade de a série reafirmar seu feminismo. Mais que isso, após deixar a protagonista com uma participação menor no episódio anterior em serviço do olhar do jovem Fraser, imediatamente a narração e os flashbacks são retomados pela devida proprietária dos mesmos. E, que bela hora fora esse By the Pricking of My Thumbs. Administrando praticamente a galeria completa de personagens de seu universo, Outlander se enveredou pelo romance, pela ação, a aventura e o suspense, potencializando suas qualidades ao máximo e preparando o terreno para um fim de temporada explosivo.
Apesar de ter retornado ao ponto de vista de Claire, By the Pricking of My Thumbs se dividiu muito bem entre ela e Jamie. Quem diria que a mulher forte e com posto de personagem principal poderia assumir a posição de coadjuvante por alguns momentos e sem perder um quilate de seu brilho? O episódio foi carregado com informações, acontecimentos cruciais para o desenvolvimento do enredo e mesmo assim, os mais de cinquenta minutos, passaram em um piscar de olhos. Também, como houve o tratamento de diversos personagens e de várias vertentes da narrativa da série, todas as figuras daquele universo tiveram sua chance e seu momento e, diante dessa imensa cama de gato, foi necessário colocar a Sassenach em uma posição menos preponderante no capítulo. O que vale ressaltar aqui é a sagacidade do roteiro e sua capacidade de coerência em pegar os vários pequenos plots, mesmo que trabalhados separadamente, e fazer com que eles compusessem uma única poesia. Como, se em uma colcha de retalhos, ao invés de focarmos nas costuras, pudéssemos ver os diferentes tecidos irem se transformando um em outro em um constante degradê.
A forma sutil que o show faz com que o enredo avance e o envolvimento que passamos a ter com a história acaba por nos carregar para onde a série quiser, sem esperar nenhuma resistência do espectador. Outlander consegue fazer isso porque é verdadeira. Não precisamos lembrar que o show conta a história de uma mulher que viajou no tempo, tudo bem, não questionamos a possibilidade de isso seja possível. A questão tratada aqui é que, apesar da fantasia trazida pelo enredo, as motivações dos personagens são críveis o suficiente e os elementos complementares também. Para uma série que possui no cerne de sua trama a existência de pedras mágicas, não seria exagero nenhum apresentar um herói invencível. Alguém que tivesse uma força descomunal, fosse incrivelmente hábil com a espada ou não tivesse defeitos em seu caráter. Mas não, Jaime é humano. Ele se fere, ele erra, chora, desespera-se e fica magoado. Ele é como nós. Os roteiristas poderiam muito bem fazer com que o Sr. Fraser eliminasse, sem dificuldade, os rapazes McDonalds. Só que isso o afastaria do público. Do início ao fim da cena de luta, a coreografia foi coerente. Os insultos, a perda de controle partindo do mais jovem dos oponentes, a estocada, os demais adversários chegando com um certo atraso para a luta e culminando com todos chão. Sem golpes mirabolantes, o combate foi rápido, objetivo, em certos pontos, desengonçado e realista.
Da mesma forma que Jamie enfrenta as ameças fora das terras dos Mackenzie, Claire lida com as ameças dentro do castelo. A conversa com Laoghaire foi intensa e serviu para colocá-la em seu lugar. Lembram quando dissemos que a pessoa afastada pode ser muito perigosa? Pois bem. A vingança da garota veio no mesmo episódio. Se não bastasse o mal agouro feito, a jovem Mackenzie ainda teve que armar para que a Sra. Fraser estivesse com Geillis na hora de sua captura. A cara de satisfação da garota arremete ao tapa de Claire, que, cá entre nós, foi dado na hora certa. A afronta era grande demais para ser suportada, porém serviu como combustível para as intenções mais obscuras de sua rival. Mas vale fazer uma ressalva em relação às ações da garota. Outlander é uma série que toma cuidado para humanizar seus personagens e tratar de forma digna as mulheres da narrativa, então essa transformação unilateral e vilanesca de Laoghaire pecou por ter se concentrado demais na vingança pela rejeição de Jamie. Voltando à história, não sabemos se tudo isso poderia ser orquestrado por uma única conspiradora. Sabemos que Collum planejava punir a viúva, não tinha ficado contente com o casamento de Jamie e estava com raiva do rapaz por ter brigado com os McDonalds, mas será que ele se rebaixaria ao ponto de mandar prender a esposa do sobrinho? Collum está com os nervos à flor da pele desde The Reckoning e, em um momento de exaltação, quem sabe qual seria o limite do chefe do clã.
A Sassenach não ficou satisfeita em confrontar Laoghaire e saber que era Geillis que estava por trás da venda do mal agouro e a procurou para tirar satisfação. Eis que somos surpreendidos pelo ritual da bruxa e presenteados pela beleza das cenas e a interpretação de Lotte Verbeek. A semelhança com o ritual das druidas em Craig na Dun foi enfatizada, mesmo assim, não há uma sincronia completa e a própria nudez, a sedução de Geillis e sua entrega à natureza afasta a grávida das druidas. Foi como se a série quisesse mostrar que a escocesa fez com que Claire lembrasse do que tinha visto na década de 1940, entendesse a força do ritual, no entanto, na verdade, havia muita coisa diferente. Não há formas de descrever como essa cena foi bem executada. A fotografia e a expressão corporal de Verbeek criaram uma atmosfera erótica, envolvente e tenebrosa ao mesmo tempo. E essa tensão elevada por Duncan tinha razão: enquanto as mulheres da vila, no futuro, se ocupavam com um ritual de louvor, a bruxa procurava um resultado de “mal agouro”, a morte de Maura, mulher de seu amante.
Após o ritual e conversa com a dissimulada sacerdote da natureza surge mais um elemento a se chocar culturalmente com a viajante do tempo. O bebê changeling é uma realidade na cultura europeia, um elemento presente no folclore de diversos povos. A diferença do que foi apresentado no show é que em alguns locais – os celtas por exemplo – demoravam mais para reconhecer uma criança trocada. Alguns pesquisadores dizem que o mito nasceu através da necessidade de se explicar crianças deformadas ou retardadas. Em alguns casos o contrário também acontecia e as crianças muito inteligentes também eram tidas como a prole de fadas. A explicação de Jaime para o porquê de acatarem a esse costume é satisfatória. Se apegar a mitos e histórias e trazer seus elementos para seu dia a dia é o que define a identidade de um povo. Não deixa de ser cruel, também não deixa de ser o direito daquelas pessoas. O que importa é que Outlander nos proporcionou mais uma discussão sobre relativismo cultural e ainda abriu brecha sutilmente para que relembrássemos que aquele era um momento emocional para Claire, que nunca conseguiu engravidar e trazer um filho ao mundo.
A atmosfera de perigo criada através dos diferentes acontecimentos ficou mais densa a partir da viajem de Jaime e sentimos Claire ficar desprotegida. Ser acusada de bruxa não é a melhor das situações para a Sassenach. Basta nos lembrar de seu confronto com o padre Bain. É claro que o pároco procurará vingança contra a mulher que o humilhou em um assunto que ele considerava de cunho religioso. Com seu marido fora e o descontentamento de Collum em relação a sua posição não lhe sobra nenhum aliado. Veremos como a situação irá se contornar. Mas, antes de ir embora, não poderíamos ignorar a cena soberba e arrepiante da morte de Arthur. O que foi aquela troca de olhar entre Geillis e Dougal? O que foi a elegantíssima transição de Lotte Verbeek de esperançosa para desesperada pela morte do marido? E o momento em que Collum percebe o caso entre o irmão e a escocesa? E o melhor: a forma que Caitriona Balfe expressa em seu rosto e no olhar a descoberta do envenenamento e do teatro da amiga.
Outlander preparou o terreno para um futuro negro em sua história. O que será da Sassenach e da escocesa nas mãos de uma sociedade tão conservadora e mítica? Conseguirá alguma das mulheres ser salva? Só resta dizer que a tempestade chegou e com ela o melhor que a série pode nos oferecer.
P.S.: “Não ela não carrega seu filho, assim como Hamish é meu filho”. A questão de paternidade continua afetando os irmãos Mackenzie.
P.S.: A interpretação de Simon Callow como o Duque de Sandringham foi iconicamente satisfatória. Os trejeitos do personagem e a forma como foi tratada sua homossexualidade (com direito a esforços escrachados para disfarçá-la) caberia até como alívio cômico.
P.S.: Aquele sorriso de Geillis quando Claire questiona a existência de seu marido como obstáculo para sua união com Dougal: puro primor. Que grande atriz, que grande atuação e que venham indicações a prêmios, por favor, deuses de kobol.
P.S.: SE NÃO LEU O LIVRO, IGNORE O QUE VEM A SEGUIR: fez falta o padre Bain sendo atacado pelos cães. Mesmo que já exista uma ação prévia que possibilite sua acusação no próximo episódio, ficou o desejo de ter visto tal cena cômica.
P.S.: SE NÃO LEU O LIVRO, IGNORE O QUE VEM A SEGUIR: uma pena não ter havido a conversa sobre sexo entre Jamie e Hamish.
P.S.: SE NÃO LEU O LIVRO, IGNORE O QUE VEM A SEGUIR: expomos a questão da transformação de Laoghaire, mas não esqueçamos que no livro é igualzinho. A única diferença é que não há a exposição imediata da loirinha quanto ao que tinha feito contra Claire.














