Walkabout é o mais tocante dos quatro primeiros episódios. E mais do que sobre comida ou sobre desespero, é sobre o que acontece quando um milagre e uma maldição andam lado a lado. Sobre a esperança no fundo do abismo que não poderia ter sido encontrada se lá não se tivesse caído. Não de um jeito sentimentalóide ou teórico… ele é sinceramente comovente.
O começo do episódio é bastante humorado (Sawyer sempre com tiradas excepcionais) e pé no chão. O roteiro poderia facilmente inserir monstros ao invés de javalis, mas seguir com a segunda opção foi uma tática de gênio. Lost nos fez esquecer por alguns minutos que a ilha em que os sobreviventes estão presos não é como qualquer outra. É uma ilha de milagres.
O choque de descobrir que o velho Locke era um paraplégico e que voltou a andar depois da queda é elevado à enésima potência. Ao longo de todo o episódio, que foi focado no passado do velho, a direção de fotografia jogou com planos médios – tão vulgares na televisão americana – para fazer com que passasse completamente despercebida a imobilidade das pernas de Locke. A deficiência do velho foi invisível para nós como nunca foi para ele. O melhor plot twist desse começo de série, sem dúvidas.
Sigo não gostando muito do Hurley (que reparei que parece muito ser uma versão obesa do Pirula e agora não consigo deixar de vê-lo assim). Adicione à mistura a Shannon, o Boone e o Charlie e você tem um núcleo quase insuportável. Os trechos de episódio envolvendo os quatro incomodam, pois desperdiçam tempo que poderia ser gasto em mais Sawyer. Eu sei, eu sei. Também começo a achar preocupante o meu fascínio pelo malandro, mas eu ainda sou humano, e um não completamente imune a fanservices.
Por falar nisso, torna-se cada vez mais evidente a inteligência da equipe criativa de Lost. Todas as aparições de Locke no piloto sugeriam que o velho era o sujeito mais calculista da ilha (o que não está completamente errado). Os roteiristas estão desconstruindo os personagens com precisão cirúrgica.
Uma das maiores qualidades fotográficas de Lost se expressou em toda a sequência na selva. A série sabe localizar muito bem os personagens e acontecimentos no espaço visual. É fácil detectar os sentimentos de perigo, grandeza e mistério e as cenas de ação não alienam o telespectador.
Quem será o homem de terno de que Jack teve vislumbres? E até onde vai o senso de fantástico de Lost? Estará limitado ao campo da ficção científica ou poderá ter algum misticismo envolvido? Tomara. Não tem como haver um background cético por trás do que aconteceu com Locke.
O que eu mais apreciava na mitologia de Arquivo X eram as colisões entre o científico e o mágico. Talvez o homem de terno seja um fantasma das últimas pessoas que estiveram na ilha e a transmissão venha do pós-vida, feita por alguém que sequer sabia que estava morto. Talvez seja algo da mente de Jack. Ou talvez sejam simplesmente os famosos Outros.
Lost está mais contida do que eu esperava. Não tivemos nada de tão inverossímil até agora. A transição do ordinário para o extraordinário está correndo de modo gradativo e orgânico. Nem parece ser a série conhecida por viagens no tempo e planos de existência alternativos.
Eu deveria sentir que estou me adiantando ao dizê-lo, mas Lost está sendo uma experiência maravilhosa, tanto de se assistir quanto de se escrever sobre.
Enquanto isso, no indecifrável epílogo da mente…
(?): Locke não contou a ninguém o que viu porque não queria assustá-los ou será que ele tem algum outro motivo?
(.): Que cachecol ridículo o que o Jack arrumou. Parece que o personagem se esforçava para ser chato de todas as maneiras possíveis. Brincadeira, não tenho nada contra o doutor.
(!): Não, Merry, não use drogas!















