A habilidade de superar dificuldades.
Community possui uma facilidade para falar sobre várias coisas ao mesmo tempo. Há uma ambiguidade enorme em cada detalhe, cada fala, e muitas vezes isso pode passar despercebido pelo público em geral. É necessário reconhecer que nem todo episódio da série está comprometido com o humor que faz rir, aliás, propositalmente, diversas vezes isso é colocado em segundo plano.
Reconhecendo isso é possível entender a verdadeira Community que foi sendo moldada diante das adversidades. O real e o fictício foram se misturando ao longo das cinco temporadas, sendo difícil a essa altura do campeonato conseguir separá-los.
E pautado nessa analogia, Ladders, episódio que dá início ao sexto ano da série, nos apresenta a uma nova personagem que é vista pelo grupo como um elemento desestabilizador em Greendale. E isso é engraçado, uma vez que a faculdade comunitária é a representação física do nonsense que ronda Community. Greendale está para a série como a ilha estava para Lost. Tudo o que ela representa para aqueles indivíduos, suprindo cada uma de suas necessidades e ao mesmo tempo criando uma nova realidade para eles, não pode simplesmente desaparecer.
Há uma ligação muito forte com tudo o que Community representa para seus fãs. Chegar até aqui não foi fácil, quem participou da luta desde o princípio é testemunha, e feito Jeff Winger faz questão de batalhar para que tudo permaneça como está. E logicamente Community sabe brincar muito bem com toda essa realidade, num episódio que fala sobre mudanças e até onde elas se fazem necessárias.
E vale lembrar que o histórico de Community carrega consigo diversas mudanças. Do original “Greendale 7” restaram 4. Decisões criativas erradas trouxeram um quarto ano instável, e com ele o sacrifício de oferecer temporadas com apenas 13 episódios. Fica claro como tudo isso fez de Community uma série adaptável, do contrário ela não estaria mais entre nós.
Aqui não faltou referência e auto referência. Abed brinca com questões da série, mostrando para o público que os roteiristas estão atentos a cada elemento. E ele é colocado numa posição oposta daquela que normalmente ocuparia. Frankie passa a assumir o controle das coisas por ali, fazendo com que elas funcionem, o que para alguns é tido como algo perigoso.
Community sabe muito bem como driblar as adversidades. A saída de Shirley é rapidamente explicada, e ainda satirizada nos minutos finais do episódio. A insinuação de que a cada dia o grupo fica mais caucasiano é pontual, e funciona perfeitamente dentro do politicamente incorreto da série. Mas é interessante notar como tudo é facilmente superado quando temos produtores inteligentes por trás daquela que pode ser tida como uma das melhores comédias dos últimos tempos.
As poucas mudanças que ocorreram nessa transição da Community da NBC para a Community do Yahoo! não causam qualquer desconforto. E temos que encarar que esse momento estava sendo aguardado pelo público da série com certos questionamentos, que foram rapidamente sanados após uma estreia de temporada que faz jus àquilo que representa: uma nova era, da velha e boa Community.
Cada coisa em Greendale importa. O passado e o futuro. Cada personagem ali carrega consigo um charme pessoal. Sempre houve cuidado na construção das características deles. E o mesmo já vale para Frankie, que de início aparenta ser normal demais para aquele lugar, porém podemos perceber como ela se encaixa perfeitamente ali quando é rejeitada durante uma entrevista. Greendale atrai para si aquilo que só pode pertencer a ela, e a mais ninguém.
6×02: Lawnmower Maintenance and Postnatal Care
Community utiliza o segundo episódio de seu retorno para se aprofundar nas emoções de Britta e colocar um foco maior em Dean Pelton, que na premiere não recebeu tanto destaque. Acaba sendo um episódio menos dinâmico que seu anterior, mas funciona bem dentro daquilo que se propõe.
É preciso lembrar que Community sempre foi uma série que se desenvolveu a partir de seus personagens. Diferentemente de grande parte das comédias, aqui o que eles pensam, acreditam e sentem é fundamental para o desenrolar da narrativa. Nas primeiras temporadas a sensação predominante era a de que a série não poderia sobreviver sem qualquer um de seus personagens principais. Cada um ali tinha um papel importante dentro do grupo e pensava de uma maneira diferente sobre a mesma situação.
Durante a season 4 isso se perdeu, uma vez que uma carta importante estava fora do baralho: Pierce. E numa tentativa de remodelagem criaram episódios que separavam os personagens em grupos menores, e tentavam desenvolver dois plots desconexos a partir dali. De início o que foi feito aqui pode lembrar aquele quarto ano do vazamento de gás, mas logo a trama principal passa a se sobressair sobre a trama secundária e acertar com piadas interessantes e bem construídas.
O episódio passa a funcionar muito bem quando os pais de Britta entram em cena, a relação entre pais pouco convencionais e a filha revoltada se encaixa perfeitamente no ambiente da série, e a forma como todos parecem estar contra Britta é bem trabalhada durante todo o episódio. E Community, como sempre, consegue trazer diálogos de reflexão, que no fundo satirizam o clichê e trazem consigo uma mensagem cética: afinal, todos vamos morrer mesmo.
E guardo aqui um parágrafo para falar sobre a figura de Dean Pelton. Ele é facilmente um destaque na série, e consegue produzir risos mesmo naqueles episódios que não se comprometem com isso. É hilário enxergar a entrega do intérprete ao dar vida ao mesmo, principalmente quando vemos que o personagem exige isso ao máximo. E aproveitaram desse momento para inserir uma nova figura nessa season 6: Patashnik, que já se encaixou perfeitamente em Greendale, dando espaço para a melhor frase do episódio:
“Eu nunca sairei daqui, não é mesmo?” Winger, Jeff.
Community está de volta. Teve cancelamento, descancelamento, nova plataforma, baixa no elenco, mas nada impediu que o objetivo dos produtores e fãs ficasse mais próximo de ser alcançado. E é muito bom saber que não precisamos mais nos preocupar com audiência ou qualquer escambal que seja. É meus amigos, que ano terrível para ser hater de Community. Terrível.
#Sixseasonsandmovie
Observações:
• Melhor cena de Ladders: Annie na maca dizendo que tudo valeu a pena.
•• O que será que nosso velho Leonard está aprontando?
••• É cedo demais para dizer que já considero Frankie pacas?














