A terceira temporada de House of Cards quebrou expectativas. De início, o que se imaginava é que essa seria o último ano da série e que mostraria a derrocada de Frank Underwood. Na series première, no entanto, o foco em Doug Stamper e a atmosfera mais contida e fria confrontavam o shock value e o impacto de morte da estreia do ano anterior. Ao longo dos doze capítulos seguintes, não emergiram acontecimentos chocantes ou arrasa-quarteirões como a revelação sobre o estupro em rede nacional de Claire ou a chegada de Francis ao posto mais alto da Casa Branca. Não existiu mais um alvo direto contra o qual se voltar e concentrar as ações. As ações certeiras e a segurança de que tudo daria certo, mesmo diante dos mais graves obstáculos, foram esquecidas. A centralidade e o destaque do protagonista foram abafados e as figuras restantes que figuravam em Washington ganharam mais camadas. Mas, talvez, a principal característica tenha sido a ousadia: os roteiristas não se amedrontaram diante da possível resposta do público e tomaram as rédeas do rumo da história, deixando o caminho estabelecido para uma temporada seguinte estrondosa. O questionamento que fica é: essa estratégia de produzir uma temporada de interlúdio foi um tiro no pé ou fez jus ao alto nível alcançado pela série em seus dois primeiros anos?

Dentre todos os prejudicados e derrotados dos últimos treze capítulos, o maior perdedor foi Frank Underwood. Depois de conseguir duas vitórias seguidas e com relativa facilidade, o presidente assumiu a posição que tanto almejava. O que ele subestimou foi a dificuldade de administrar as responsabilidades e os riscos da função. Apesar de seu desejo de não ser somente uma nota de rodapé na história dos Estados Unidos, sua mente pequena, o vício em tratar problemas com soluções em curto prazo, os erros de cálculo militar e as afrontas à própria Constituição do país não conseguiram reverter sua imagem negativa perante a opinião pública. A emergência de Heather Dunbar, com um histórico de justiça e serviço ao povo dos Estados Unidos piorou ainda mais a situação no governo. A quebra das lógicas tradicionais apresentadas no segundo episódio como uma forma de ganhar o apoio da população não surtiu efeito. Até mesmo o escritor contratado para escrever sobre sua história percebeu que ele não era o protagonista de sua história, cuja corresponsabilidade de sucesso tinha sido dividida com a esposa, amada e aclamada por quem se opunha a ele. Mesmo sem ter colocado a derrocada de Frank como o foco da temporada, indiretamente o roteiro mostrou os primeiros passos para a queda do presidente. E o que ficou para o quarto ano são perguntas: quão baixo ele cairá? Quem assumirá seu legado de poder deturpado? Veremos um final trágico ou cínico?

Por outro lado, a grande vencedora dessa vez foi Claire Underwood. E o roteiro quis escancarar isso na season finale. Os discursos simultâneos dela e de Dunbar equiparavam-nas em importância e, mesmo que o marido a desmereça e subestime, ele não conseguirá avançar em seus planos sem ela. Sua trajetória trágica, pelo menos, permitiu que ela conseguisse admitir para si mesma que a relação com o marido era destrutiva e que odiava o quanto ela precisava dele (e vice-versa). Thomas Yates foi peça fundamental nesse desabrochar de Claire. Depois de tanto ouvir as histórias do presidente e sobre ela indiretamente, sua curiosidade constatou que não haveria ele sem ela e, dessa forma, até mesmo a biografia de Underwood teria que ser sobre casal e não sobre ele exclusivamente. Ele foi honesto, ele ouviu as palavras dela, foi frio na hora de colocá-las em papel e inspirou sentimentos de valorização própria em Claire. Diante disso, é elogiável a cena em que a primeira-dama pede que o marido transe com ela de forma bruta: ela pode ter sido humanizada, mas, de forma alguma, é alguém a ser subestimada e ela permanece uma ameaça forte – como ela mesma diz, depois do marido insinuar que o pedido de sexo dela tinha sido animalesco e selvagem, por baixo de tudo, eles são exatamente animais. No momento em que Francis mais precisava dela, ela decidiu deixá-lo. Quais serão as repercussões desse fato? Tentará Claire a carreira política? O que Frank fará contra ela?

A season finale foi econômica e deu como encerrada a necessidade de trazer Dunbar, Sharp, Danton e Petrov. Heather se tornou um monstro político sedenta por poder e acreditando que seu umbigo é o novo messias. Sharp se entregou aos sentimentos pelo ex-chefe de gabinete de Underwood, que largou a carreira política. Petrov foi o elemento gerador de instabilidades da temporada, provocou alterações nos comportamentos dos personagens e na pedra angular da série (o casal protagonista) e fragilizou os Estados Unidos e a ONU com a operação de paz. O que restou foi encerrar a arco dramático de Doug Stamper. Este deve ter sido o elemento mais polêmico da temporada. Recebeu uma importância grande do roteiro no início, depois ficou em segundo plano e, no final, retomou a maior participação. Depois de sofrer por meses seguidos as consequências dos atos de Rachel e de ter perdido a confiança imediata de Frank pelo mesmo fato, se ele tivesse deixado Posner sobreviver, seu arco teria sido razoavelmente desnecessário. Felizmente, os roteiristas usaram a participação de Stamper para humanizá-lo e então desumanizá-lo. A temporada serviu para que ele sofresse ao máximo e então decidisse a quem entregar o rumo de sua vida: a si ou a Francis. Ele optou pelo último e, diante da fuga de Claire, o chefe de gabinete provavelmente será o único elemento realmente leal que restou ao presidente. Sharp, Danton, Yates e Underwood o abandonaram. Conseguirá Stamper carregar o futuro do protagonista sozinho?

A terceira temporada passou longe de ter sido um tiro no pé. Não foi além do nível de qualidade das duas primeiras, mas não ficou aquém, equiparando-se e fazendo jus ao material até então apresentado. E seu maior mérito quanto à possibilidade de futuro da série é ter estabelecido um cenário explosivo e tenso. E fica o desejo que mais mudanças ocorram na atmosfera da série e a urgência se torne a protagonista da Casa Branca.

P.S.: Queria agradecer a todos os leitores que acompanharam as reviews diárias. O processo foi exaustivo, mas House of Cards é uma série que merece um esforço maior.  Até 2016!

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