Se você fosse a última pessoa do mundo, o que faria com o resto dos seus dias? Phill Miller (Will Forte) simplesmente parou de ligar. Depois de uma viagem sem sucesso por todo os Estados Unidos atrás de qualquer sinal de que ainda exista vida no planeta, ele decide fazer o que bem entender da vida. Afinal, quem é que vai julgá-lo?
A premissa de The Last Man on Earth é instigante. Como fazer uma série com um único personagem? Aparentemente, a Fox recrutou a equipe certa para o trabalho. É fácil simpatizar com o protagonista largadão interpretado por Will Forte. Ele passa os dias fazendo o que bem entende e até se diverte, mas Forte deixa transparecer uma segunda parte de Phil, a parte que vem sendo dominada pela solidão (tudo que ele pede a Deus é mais alguém, de preferência mulher). Depois de um tempo, jogar boliche com aquários perde a graça, ainda mais se não há ninguém para rir ao seu lado. Sem essa camada de nuance, não teríamos por que investir no personagem.
É aí que entram Phil Lord e Chris Miller. Os diretores, conhecidos por projetos tão peculiares quanto esse (eles estão por trás de Uma Aventura Lego e 21 Jump Street), dão o tom certo para o piloto, Alive in Tucson. É com eles que trilha sonora e edição se tornam quase coadjuvantes em The Last Man on Earth, e, sem esses elementos, a série poderia não se segurar por muito tempo, ainda mais se levarmos em conta que quase não há diálogos no primeiro episódio.
A riqueza de detalhes é outro destaque de The Last Man on Earth. Dos objetos colecionados por Phil Miller em suas viagens pelo país (que incluem pinturas de Van Gogh, estatuetas do Oscar e o crânio de um dinossauro) até as paisagens inóspitas, é impossível não dar pelo menos umas risadas ou apreciar a fotografia da série.
Forte, Lord e Miller também são responsáveis por conseguirem equilibrar a série. Com uma premissa assim, qualquer descuido a deixaria depressiva ou vazia demais, com piada atrás de piada estabelecendo um ritmo cansativo. Mas aqui as piadas vão crescendo em escala sem nunca perder o fio da meada. Se o ritmo fosse outro, talvez a série não desse tão certo.
A partir daqui, vou discutir alguns pontos importantes da história, assim como os acontecimentos do segundo episódio. Se você não quer ter as surpresas da série estragadas, pare agora e volte mais tarde. Ou então leia o último parágrafo da review, aquele antes das outras observações. Mas confie em mim, vale a pena assistir. Não seja uma daquelas pessoas que só assiste a alguma coisa depois que ela começa a ser indicada a tudo que é prêmio na televisão.

É claro que série nenhuma se sustentaria sem uma história, e a de Phil se complica quando ele está prestes a se matar e descobre que não é a última pessoa na Terra.
– Phil Miller, last man on Earth.
– Carol Pilbasian, last woman on Earth.
No segundo episódio, The Elephant in the Room, somos introduzidos a Carol, interpretada por Kristen Schaal. Tão esquisita quanto Phil, os dois não sabem muito bem como se portar num primeiro momento, há muito que ambos não possuem contato social com mais ninguém (a não ser, é claro, que você conte as bolas que Phil tem como amigos, no maior estilo Náufrago). E também, agora que se encontraram, centenas de perguntas começam a aparecer: será que ele/ela é confiável? Será que eles devem ficar juntos? E se eles se odiarem?
Acontece que eles se odeiam. Um é o oposto do outro: ela ainda liga para coisas como leis de trânsito, ele não liga para gramática correta; ela quer água potável, ele tem uma piscina de bebida alcoólica. Mas, independentemente disso, os dois sabem que vão precisar um do outro. Ao decorrer do episódio, Phil e Carol aprendem a ceder e a conviver em sociedade*, algo que pensaram que nunca mais iriam praticar. O amor ainda está fora de cogitação, mas o sexo, o tal do elefante na sala, é uma necessidade para Phil e uma missão para Carol. Por exigência dela, eles terminam o episódio noivos.
*O argumento dela sobre igrejas na discussão sobre estacionamento é bem sólido, né?
O segundo episódio não deixa o nível de The Last Man on Earth cair. A falta de química entre os dois personagens serve como um novo elemento a ser explorado na série, e o humor continua presente de maneira inteligente, original e sem perder espaço. Se levarmos em consideração que a série não tem um ambiente único a explorar – como um de trabalho ou de família -, as possibilidades para os próximos episódios são enormes, ainda mais se outros personagens aparecerem (mesmo que em flashbacks, recurso já usado aqui).
Inteligente e original, aliás, são os dois adjetivos para resumir The Last Man on Earth. É uma comédia diferente, mais serializada, mas criativa ao extremo. Para quem, como eu, ainda lamenta o final de Parks and Recreation, The Last Man on Earth chega como uma alternativa atraente para quem se interessa em mais do que comédias presas a trilhas de risadas e humor depreciativo.
Como se essa review já não estivesse longa o suficiente, aqui vão outros destaques dos dois primeiros episódios:
– Quem viu o Jason Sudeikis no porta-retrato? Já quero participação especial!
– Will Forte manda bem demais nos dois episódios, mas ele conversando com a manequim e as bolas e depois ele atacando os tomates como um selvagem foram as piadas que mais me fizeram rir.
– Aliás, engraçado como a edição mostra os objetos inanimados enquanto o Phil conversa com eles, como se esperasse que eles fossem reagir.
– “Carol, no disrespect here, but have you ever heard the phrase ‘I wouldn’t have sex with you if you were the last person on Earth?’”
– “The first child of the new world is not gonna be a bastard.”















