Um episódio brilhante em sua pesquisa histórica e política.
A Guerra Fria é um mito. Em diversos cenários, esse é um tempo para o qual vários indivíduos se voltam. O que poucos se questionam é: qual a razão pelo fascínio por esse período? Muitos diriam a questão da espionagem ou a iminência de uma guerra nuclear e final. Olhando em retrospecto, a história do sistema internacional mostra que o que tornou os anos de 1945 a 1991 tão atraentes à curiosidade foi o fato de que, pela primeira vez na História Moderna, o mundo ficou divido em dois polos. Após inúmeras décadas de preponderância de uma governança multipolar, que tendia a uma ideia de cooperação, o cenário internacional ficou marcado por dois interesses: Capitalista x Socialista; Estados Unidos x União Soviética; o liberal x o totalitário. E, como em todo antagonismo, os ânimos se exaltaram por ambos os lados considerarem que os seus respectivos interesses eram os que importavam, os certos e todo resto era errado ou incapaz. A beleza de Chapter 29 esteve em entender a fúria e a tensão provenientes de bipolaridades e colocar em ação um choque implacável digno dos livros de história: Petrov x Underwood.
Dando continuidade à economia narrativa desse terceiro ano, a cena inicial do episódio foi fundamental por estabelecer em segundos o ritmo, a áurea e a lógica dos cinquenta minutos que se seguiriam. Petrov chega na Casa Branca deixando claro que não está ali para facilitar a vida de Frank ou dos Estados Unidos, usando as palavras como formas de rebaixar, humilhar e brincar com as expectativas de quem o cerca. Ele poderia ter dito que recusaria a proposta do Vale do Jordão diretamente, porém era maior a necessidade de aumentar as expectativas de Underwood para então destruí-las. Diante disso, o som das manifestações próximas à Casa Branca serviram de belo indício da turbulência que seria (e será) a passagem do presidente russo pelos Estados Unidos. E, que participação incrível foi essa de Petrov! Mérito absoluto do roteiro e da atuação impecável de Lars Mikkelsen (sim, ele é irmão de Mads Mikkelsen). Transitando e deslizando entre o charme, a frieza, a dureza, a autoridade e o carisma do presidente da Rússia, Mikkelsen conseguiu roubar completamente o episódio, entregando cada linha de diálogo com o máximo de veneno e desenvoltura possível. A maior prova da qualidade seu trabalho ficou em seu discurso durante o jantar. Cada palavra sua carregava a tensão de qual seria o próximo limite que ele cruzaria. E quantos limites foram cruzados.
Em um cenário em que publicamente as coisas são feitas de forma cautelosa e contida, em prol de esconder a faceta selvagem da política, Petrov se tornou um elemento terrorista, quebrando todas as convenções levantadas ao longo dos vinte e oito episódios anteriores da série. Nem mesmo o jogo velado de eufemismos tão marcante das conversas entre os personagens ele respeitou. Quando com Frank, deixou claro que publicava suas fotos surfando devido à população mais jovem (uma clara alusão às fotos de Vladimir Putin sem camisa durante uma pescaria), humilhou-o pela traição de Claire com o pintor e não media palavras quanto à realidade de seus interesses: “O Oriente Médio não tem esperanças, a história mostra isso”, “A Rússia não tem nada a ganhar com a paz no Oriente Médio e, mais importante, nada a ganhar ao se unir com os Estados Unidos”. O auge foi seu beijo em Claire. Uma forma de humilhar Francis e diminuir a primeira-dama, uma vez que ele sabia sobre a traição da mesma.
E o assunto da vez foi fragilidade e humilhação e foi surpreendente a forma que Underwood se deixou ser rebaixado por Petrov. Do início do episódio até a última conversa entre os dois, Francis parecia ser outra pessoa, alguém fraco, que não merecia a presidência. No entanto, o mais curioso é que essa era a intenção real do roteiro de Spacey. Era necessário deixar Mikkelsen e Petrov brilharem e ofuscarem o resto, uma vez que ele será a ameaça estrangeira na vida de FU. E não havia forma mais eficaz de apresentar o antagonista do que quebrando as regras e limites do universo de House of Cards e rebaixando, diminuindo o protagonista da série. Além disso, após as sábias palavras de Claire, a forma que Underwood se reergue e se impõe perante o presidente russo ganha mais intensidade pela falta da mesma atitude anteriormente. Imposição tão forte e intensa que estabeleceu imediatamente um atrito entre os países que promete embalar o resto da temporada, principalmente com a questão do Vale do Jordão.
Por outro lado, Claire se tornou embaixadora, mesmo assim não foi aceita com bons olhos por Catherine Durant, que esteve preocupada com o fato de aquela ser também primeira-dama. Esse foi um plot simples, mas importante: a questão não era a falta de experiência da Underwood, muito menos sua postura profissional, mas sim o fato de ter um relacionamento oficial com o presidente. Durant é a Secretária de Estado, a autoridade em questão de política internacional é responsabilidade dela, no entanto a Sra Underwood, mesmo embaixadora, pode vir a ganhar mais poderes e ter maiores acesso a informações presidenciais e vir a deixá-la excluída ou para trás por sua vida pessoal. A prova de que a preocupação de Catherine era certa foi a reunião em que o líder da comitiva lidava com Claire e não a Secretária de Estado, pela proximidade que esta tinha com o presidente e por ser facilmente identificável com a Casa Branca. E, por mais que Claire não se importe em ofuscar Durant, há o reconhecimento de que esta é fundamento para atingir os objetivos de poder daquela (o que ficou constatado na conversa em que chegaram a uma saída para a questão do Vale do Jordão).
Um episódio brilhante em sua pesquisa histórica e política, Chapter 29 continuou a delinear as tramas da temporada, apresentou novos personagens e o clima de tensão incendiária continua, assim como a expectativa de que as coisas começarão a sair do controle em breve.
P.S.: Underwood cantando – que belo momento de Kevin Spacey.
P.S.: Robin Wright segue afiando ainda mais sua atuação na série e agora fica a espera pelo momento em que ela terá o spotlight absoluto como no Chapter 17.
P.S.: Stamper resgata Orsay na trama e o usará como meio para achar Rachel Posner.
P.S.: Curiosidade – Pussy Riot foi interpretado por integrantes reais na série.
P.S.: Vodka e Beer Pong.













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